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A FAVORITA - NÃO OUSOU, ABUSOU...

A FAVORITA
A FAVORITA
O AUTOR NÃO OUSOU... ABUSOU, INSINUOU E NÃO AGRADOU
Por Elizabeth Misciasci
Acompanhei a novela, primeiro, porque quando recebi a sinopse, vi que se trataria de uma sentenciada e posteriormente uma egressa. O que em razão do Projeto zaP! Obviamente seria de meu interesse acompanhar e comentar.
Fora isso, em razão de várias matérias que haviam circulado na imprensa, enfatizando a mulher na condição de pessoa presa, distorcendo entrevistas e tecendo comentários pretensiosos e inverídicos, as que um dia passaram pelas prisões, não quiseram mais conceder entrevistas.
Como o pano de fundo da Novela, tratava justamente da mulher X crime, incontáveis foram as buscas e pedidos de entrevistas para esclarecer e abranger o que estava pautado.
Assim sendo, as matérias que consegui convencer algumas ex reedudandas a concederem, foram com muitas dificuldades.
Em razão das meninas não quererem mais falar com a imprensa, acabei cedendo depois de muitas insistencias (relevando amizade e consideração) a falar sobre o tema, respondendo muitas entrevistas e não só á nível de Brasil.
Acrescentei inclusive apenas duas ou três destas entrevistas em meus portais, para efeito de registros do zaP!
Assim, por tudo o que eu disse, ou me esquivei nas diversas mídias, e que por uma questão de veracidade e coerencia, deveriam ir de encontro (até então) a proposta do João Emanuel (autor), comecei a acompanhar os capítulos, publicando-os.
Infelizmente, pela quantidade de absurdos que via e ouvia durante a exibição de A Favorita, ia observando sempre atenta, o que gradativamente pelos erros exibidos, foi me desagradando.
Querendo entender aonde ele iria parar, me via na obrigação moral de ver a novela, pois em nome da maioria delas (presas ou egressas) não poderia concordar com um acúmulo de inveracidades. Aguardando sempre na expectativa se ele mudaria mesmo ou mostraria a verdade de uma prisão, bem como o difícil recomeço depois da pena cumprida.
Lamentavelmente, cheguei até a pensar que tantos erros no ar pudessem ao final, compensar com 'talvez' algo mais surpreendente ou no mínimo verdadeiro... Pois não se brinca com vidas, principalmente com aquelas que estão tentando renascer
Então, percebi que estava havendo uma deturpação. Foi quando centenas de familiares, reeducandas e egressas, entrando em contato comigo, pediam para que não permitisse que esta história as degradassem como estava sendo feito.
Histórias geradas por um autor, criada por uma ficção, e sob sua ótica. E assim, muitas com a estima mais baixa do que nunca, sentindo entristecidas com o desdém pela forma brutal e mentirosa, que estavam sendo polemizadas e generalizadas em horário nobre, me pediram ajuda e algumas resolveram escreveram para ele. Diante destas fragilidades, tratei de expor o problema.
Na seqüência, aumentou o desrespeito e o desconhecimento, que ainda estendendo-se aos agentes prisionais, encenava acusações com suposições absurdas e sem nenhum sentindo.
Foi quando escrevi pela segunda vez, e o teor do artigo esta abaixo.
Bem, o sistema prisional feminino de São Paulo (descrito e mostrado totalmente fantasioso) saiu de cena, mais a custa de muitas discussões...
Por fim, acompanhei a favorita, por questões profissionais e já que o fiz, não posso deixar vazios, alguns detalhes, que creio serem GRAVÍSSIMOS.
Uma vez que novela é levada a sério, muitos copiam seus ídolos, sem a preocupação ou atenção, se estes, são reais ou personagens e milhares seguem orgulhosamente exemplos, bem como copiam estilos, roupas, cabelos...
Passou-se diante dos meus olhos coisas absurdas e se despercebidamente algo fugiu do meu conhecimento,ou entendi errado, peço desculpas, mais creio que não ouvi demais e nem vi de menos!

No País da corrupção, da juventude despreparada, das violências urbanas e domésticas, da família se transformando em uma instituição falida, não acredito, não aceito, não compactuo e não posso me silenciar só porque um autor precisa expor tranquilamente sua inspiração, sem se sentir tolhido da liberdade de expressão e criação...
Que liberdade de criação é esta, que uma pessoa (Flora) confessa os crimes em pleno teatro municipal e ninguém questiona a Mayra... Sim, porque já que a Personagem Flora, não tinha perfil nenhum definido, falar da Mayra naquelas alturas, não iriam acrescentar muitos anos em suas penas, mas para Zé Bob e Rose seus dois amigos, eles, sem dúvidas, deveriam ter dado ao assassinato prioridades... Ou seja, dois jornalistas, com a agravante da amizade, permitirem que um crime ficasse impune...
Uma das coisas mais sérias ao meu ver e que acabei descobrindo por vários posts de indignação em diversos blogs, que relatavam o que havia de fato acontecido com a menina Mariana.
Quando ela confirmou sua gravidez independente, eu particularmente, acho um pecado meninas de 13, 14, 15 anos engravidando. Não me conformava com a inércia familiar e a falta de um alerta sério para a população.
Por mais que se tenha uma mentalidade liberal, gravidez precoce e sem programação, não é brinquedo de criança...
Quase nunca, uma Mariana "da vida" encontra alguém "um shiva" para adotar mãe e bebe.
Impossível não é! Mais é quase!
A imagem que passou (ou melhor) as aulas e a lição que ensinou foi: Além de ser uma menina mimada, despreparada, folgada, preguiçosa, exigente, mentirosa, deu um exemplo sensacional de como uma filha deve tratar pai e mãe... Vendo a mãe necessitando de ajuda ela só cobrava e nunca fez a menor questão de demonstrar sentimentos reais.
Oras vamos e convenhamos, uma adolescente que foge de casa e beija na boca, não é mais criança e quem tem traumas, não trata as pessoas com arrogância que lhe delineou...
Pois bem, li que na verdade, o filho que ela esperava, era fruto de um estupro, que pressupostamente sofreu quando fugiu para o Rio de Janeiro.
Piorou e muito!!!
A família se calou...
Nunca ninguém pressionou de fato a Personagem... -Por que?
Falta de respostas do autor, demonstração de "apoio familiar", incentivo e incitação à violência e impunidade? Quem sabe talvez até mais uma incógnita para ser revelada no final, porém com o baixo ibope exigindo rapidez no termino, não deu tempo. Se bem que, não se descarta a necessidade de mostrar liberalidade, dentro de um modismo IRREAL só para não demonstrar "caretice"?
Sim, porque acabar com um casamento de 50 anos, sendo o Protagonista do Personagem Copola, uma referencia de integridade e dignidade, deve estar "chovendo" de Copolas por aí, largando casamentos, para se aventurarem...
Afinal, se o Tarcisio Meira fez... É, porque a mente humana trabalha em muitos desta forma, se espelhando no que vê, e geralmente no que vê na TV.
Sem falar, que NENHUMA mulher, "fica de boa" tão rapidamente, como ficou a "ex-mulher dele". A Vida em comum, não se supera em vinte, trinta, sessenta dias... Há casos, em que não se supera jamais... E nem todos os casamentos de tantos anos, desfeitos, se justificam de maneira tão fraca e inconveniente. Destruir uma relação e matar o Gonçalo só para unir o casal Símbolo da teledramaturgia, foi de um mau gosto, sem criatividade e uma indelicadeza inenarrável.
Não passou sequer emoção... Mais deixou um terrível exemplo.
Quando que um empresário do porte do Gonçalo, que seguia tratamentos médicos, iria sentir tantos maus estares e não fazer exames ou buscar ajuda médica?
Ficaria mais interessante, se a Flora contratasse uma "doida qualquer" e fizesse ela dar um "boa noite Cinderela" aí sim, uma parada cardíaca ou algo semelhante além de mais convincente, impressionaria.
A mulher ainda é muito desrespeitada não só no Brasil. A prostituição é outro sofrimento que muitas engolem no choro seco, e se submetem por uma série de fatores e carências.
No entanto, em A Favorita, pareceu ser a melhor opção, e não é só para quem não tem outro preparo, não. Todas as personagens com programas agendados, muito bem cuidadas, indo ás compras, shoppings, ginásticas, vivendo como uma linda família e ganhando muito bem...
Um merchandising e tanto para os prostíbulos...
Calhamaços de dinheiro, notas de cinqüenta e de cem, circularam várias vezes, por este núcleo. Não que inexistam as garotas de executivos, as chamadas Universitárias, e estas, pelo que se sabe, ganham horrores, mas vamos e convenhamos, não seria este o caso, uma vez que o próprio layout, embora camuflado, deixava claro ser o "bregão" da Cilene...
Não há o que comparar, mesmo porque existe também o diferencial da Prostituta e a Garota fina de programas, garotas que gostam do luxo e do que fazem profissionalmente.
Vivemos numa sociedade que muitas se vendem por total necessidade, e sofrem por isso. Nem sempre conseguem programas, e quando de fato, uma menina/mulher, "vai a luta" ganha em média de 30,00 (trinta) á 50,00 (cinquenta) reais (e olhe lá)!
Só que, indubitavelmente, muito do que fora exibido, já é e será para muitas a perspectiva de vida esperada, o caminho instantaneo pra um sucesso (...) Nas milhares de centenas de cabecinhas puras e ingênuas, pode ter se tornado um objetivo, um "sonho" a ser realizado...
E sabemos que a realidade é bem diferente, mas aquelas que estão lá longe, acreditam que vale a pena. Não viram nada do que "rola" com muita frequencia entre cliente e prostituta. Não mostraram o lado feio, cruel e doloroso. É fácil se iludir... Porque só foi mostrado também, clientes bons e do bem, com tanto amor, carinho, espírito maternal e muito dinheiro, sem mostrar nenhuma volência sofrida, nenhum "cúmulo da fealdade" nem da "porquisse" fica é bom demais!
Bom demais, pelo exagero da mentira ilusória e convincente em horário nobre, o que é um drama social, se vestiu de gala.
Agora João, chega mais...
Se a intenção era mostrar que Flora era uma psicopata, não deu certo! Nem serial Killer ela poderia ser pelo contexto... Se analisar o todo, desde o início... E bem cá entre nós, se sua intenção era destacar alguma anomalia, a Patrícia Pillar deu milhares de shows de interpretação. Mas, do que era e no "pé que chegou" loucura súbita e momentânea não convenceria mais com o necessário "glamour".
E pra que gerar pânico e temor, pra quem nunca conviveu com uma egressa? Só porque esteve presa? Se era pra fazê-la insana ou torna-la de fato uma psicopata, deveria seguir uma regra básica, mas desde lá de trás... Outro detalhe que você se esqueceu ou não entendo porque não esclareceu, que pra gente problemática, também existe tratamento.
Muita informação, mas na hora de esmiuçar os conteúdos faltou sensibilidade.
A coisa ficou tão sem sentido, que mais um pouquinho, nos três últimos capítulos, a Donatella já estava parecendo ser a louca e maldosa. Você falhou quando não "sacou" a falta de percepção. Muita frieza, batendo de frente com a emoção a flor da pele.
A tua maior sorte, foi que o elenco por ser de primeira linha, socorreu várias vezes tuas derrapadas. E para eles, temos que nos curvar parabenizando-os.
Entretanto isso não impede, de ressaltar alguns outros pontos importantes. Um destes é uma crítica antiga, que começa com a Céu, sendo uma personagem maldosa e com a formação explícita e definida de um caráter impiedoso, numa farta demonstração de ser pessoa sem princípios, e completamente do mal.
O pai morreu na busca de tirá-la da vida que ela ameaçara. Morte bruta, diante de seus olhos e sua frieza.
Não se importou que ele e a irmã teriam que morar na rua em razão dos três mil reais e... Acabou perdendo completamente o sotaque (que ficou muito forçado) e por todas as maldades, se saiu super bem.
Dentre as tantas impunidades e péssimas referencias, até a Donatella, teria que sofrer alguma sanção, pois saiu da cadeia, fazendo uso de documento falso e "num esquema" de corrupção que também ficou longe de ser citado; pois a Diretora da cadeia ne foi mencionada.
Como se todos os DG fossem assim e tudo perfeitamente normal, tivemos inúmeros espetáculos de desonestidades, entre outros, com final feliz!
O Silveirinha também seqüestrou uma criança, deu continuação aos crimes até continuados, integrou a quadrilha da Flora e do Dodi e mais um que saiu limpo e impune.
No final, se colhe disso tudo, que o pai (Léo) da Mariana, mesmo demonstrando sofrimento, não teve oportunidade. -Por que?
Porque não articulou, não roubou, não sequestrou, não matou e entregue ao alcool, ainda falhou... Com tanto bandido, tanta gente falsa, tanto desafeto, falta de ética, de respeito, de princípios, teria um sentido, se você permitisse que o Léo pudesse fazer parte da galeria dos marginais.
Preso ele ficou mesmo! Ruindade por ruindade, deixasse ele então ser acusado, ou se matar, seria um final (péssimo) mais menos ruim...
Só quem teria o direito de falar e tomar determinadas posturas, seria a ex-mulher, com quem ele viveu por anos e que sempre permitiu suas insanidades.
A filha? Esta não! De forma alguma poderia ter tido a conduta que teve.
Isso significa, que ninguém merece perdão, nem uma outra chance?
Uma mulher que acaba de ser mãe, que já superou seus traumas, pois foi viver com um homem o Shiva, e em plena sensibilidade materna, tratar o pai daquela forma, mais uma nota zero!
Agora finalizando, nunca que a Flora poderia ter aparecido com a cara "estourada". Ela não saiu devendo dinheiro da cadeia, e nem voltou por violação das leis do crime. Assim sendo, mais uma vez desconhecendo o tema que abordou, errou feio.
Você não inovou como imaginou, talvez acreditando estar gerando discussões que lhe favoreceriam, tapou os ouvidos e não percebeu o quanto afrontou, desrespeitou, ofendeu, machucou, prejudicou e humilhou pessoas...
Sou pela reabilitação, acredito no ser humano, e vi sim a Patrícia ir nos Presídios e se entregar num trabalho, sensibilizada com as meninas...
Você poderia ter se consagrado tanto quanto ela... Mas...
Eu em vinte e um anos atuando com milhares de pessoas que cometeram os mais diversos tipos de crimes, nunca vi, nem ouvi falar de alguém como a Flora.
Mesmo porque de fato, o fictício foi por deverás exagerado e sem nexo.
No entanto, se de fato, alguém com um perfil semelhante, sendo metade da metade da metade do que foi escrito para ser a Flora, e tivesse cometido metade da metade da metade das maldades e crimes praticados por ela, (é TERRÍVEL e lamentável eu afirmar isso mais É A VERDADE) uma clone "meia boca" da FLORA, seria recebida com honras na cadeia. Jamais caberiam aquelas lesões, porque pra quem é do crime e prova "ser sangue nos olhos" o "prestígio" corre de boca em boca.
É a lei do crime, do universo paralelo, porque o proceder do cárcere não é, nem nunca foi este, que o tempo todo insistentemente foi mostrado.
De qualquer forma, fica aqui meu carinho e quem sabe um dia, façamos algum trabalho juntos, afinal você se perdeu, mais é um excelente profissional e erros e falhas, todos nós cometemos todos os dias.
18/01/2009

Irrecuperáveis em "A Favorita"

Mais cruéis e desumanas que a permanência carcerária feminina e a escassez gritante de recursos a que estão submetidos os agentes prisionais e profissionais ativos do sistema, é a forma pela qual se tem retratado o assunto em A Favorita.
Mesmo em se tratando de uma ficção, o tema vem sendo explorado de forma abrangente, porém equivocada e absurdamente infeliz. Não se atenta aqui, a produção, interpretação ou Estado cenográfico. O que ocorre, é que o assunto é extenso dentro de uma fragilidade irretratável.

Óbvio, que muitas teledramaturgias já encarceraram suas protagonistas e antagonistas, no entanto, A Favorita, centralizou a história em um primeiro crime, e deu continuidade ao enredo, tendo como pano de fundo da trama, uma egressa, após dezoito anos no cárcere, transformada em uma doente e perigosa reincidente criminosa em potencial.

Há muito, saiu de cena a motivação para polemicas e discussões, alçando um vôo lamentável a uma irrealidade perversa.
A partir do momento que se expõem divisões comportamentais entre o fictício e o verídico, necessário se faz a coerência mínima para um horário nobre e influenciador, pois quem acompanha a obra, nem sempre tem a menor noção da imaginária usada.

É perfeito que se queira inovar, bem como é importante à abordagem do cotidiano, porém, o que não se pode ignorar é que muitas pessoas são sugestionadas e norteadas pelo que estão vendo sim e indubitavelmente, acabam declinadas a acreditar no contexto.

Na vida real, os papéis são limitados, os personagens reais, e o sofrimento não esta na maquiagem. Um ensaio sobre o desconhecido, não pode servir para massacrar um tema da vida real tão doloroso, arrombando ainda mais o abismo dos excluídos.
Todos sabem, a teledramaturgia pode ser a estrada que vai do arco íris ao infinito, mas a partir do momento, em que se usa um referencial dando-lhe vida real, uniformizando-a, nomeando-a e fazendo alusão ao que é fato, o porvir seqüencial, já não pode ser fantasia, nem tão pouco tratado como tal.

Assim sendo, justo o é que a Sifuspesp (Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional do Estado de São Paulo) através de seu Presidente, João Rinaldo Machado reagir com o repudio, uma vez que este se alastra pelos servidores penitenciários. Já o Presidente da Sindasp (Sindicato dos Agentes de Segurança Penitenciária do Estado de São Paulo) Cícero Sarnei dos Santos, fez questão de frisar:- "Mesmo sendo personagem de ficção, a Zezé é um lixo para nós. Está explícito que é um achincalhe direto à categoria. Mandei ofício ao Lula, para ele interceder. A Globo precisa reavaliar a obra, pois ela está sendo muito prejudicial para nós".

Não pode se negar o fato! As inúmeras dificuldades de atuação nesta profissão que também é de risco existem, bem como a baixa remuneração e pesada carga horária, mas isso não pode servir de alicerce concreto para se retratar de forma abrangente, diretores e agentes prisionais.

A personagem que ilustra a AEVP (Agentes de Escolta e Vigilância Penitenciária) ou ASP (Agentes de Segurança Penitenciária) Zezé, interpretada pela atriz Docimar Moreyra faz alusão a uma funcionária do sistema prisional paulista. Isso pode ser conferido pela fidelidade do Uniforme, com a respectiva bandeira do Estado no braço e o Brasão no peito. No entanto, tal foco, não impediu que a classe na sua grande maioria, se sentisse lamentavelmente lesada nas mais diversas regiões do País.

“Não se trata de intervirmos na criação do autor, mas sim na forma que ele reproduz um limitado entendimento”. - Argumenta M.A.P. agente prisional da Penitenciária Feminina da Capital São Paulo, conhecida como P.F.C.
"O problema é que gravaram aqui na Sant’Ana apenas a saída de Flora, não houve o acesso à parte interna da Penitenciária, mas esta muito claro que se trata das Penitenciárias de São Paulo e o autor deveria ter feito no mínimo uns dias de laboratório, mas pecou. Não estamos revoltados com o regionalismo nem com a história, mas sim com o despreparo e a afronta. Todos sabem que se trata de novela, mas vamos e convenhamos, há um número grande de pessoas que acreditam, tanto é que neste final de semana, na fila da visita, havia gente procurando a Zezé "... –Relata S.G. da P.F.S. que destaca ainda a indignação das reeducandas (detentas).
“Trabalhei por trinta anos no Sistema, sei na pele o sentido da discriminação e as suadas conquistas diárias, acho um absurdo como a falta de conhecimento, pode ser transformada e inventada de qualquer jeito”. – Desabafa B.C. ex-diretora de reabilitação.
Se por um lado, o que não é nem de longe parecido com a realidade, como as constantes e continuadas cenas de corrupção, torturas, uso interno de aparelho celular, visitas liberadas e descuidadas, sem preocupação com existentes normas disciplinares e segurança desfilam em horário nobre, por outro lado, o repudio da massa carcerária feminina, também ecoa.
Entre - grades, onde as frias muralhas dividem o mundo ao meio também há vida. Neste Universo paralelo, mulheres nascem, se transformam, vivem ou apenas sobrevivem. Mesmo tolhida a liberdade de ir e vir pela condição de pessoa presa, não impede que demonstrem indignação e tristeza diante da tela de tv. Assim, seja por meio dos familiares ou por cartas, lamentam por serem tão pouco lembradas e quando mencionadas, nada aparentam do que são, o que fazem e o que esperam.
Descrevendo a impotente sensação ora imposta, se definem como mais um rótulo que as tornam personagens da vida real em decomposição. Retratadas como “irrecuperáveis” por serem perigosas, ficam á sombra de uma fantasiosa e degradante história, que sem noção, as excluem ainda mais da sociedade, direcionando-as assim, a profundeza do incerto futuro.
Oras, mas se tratando de ficção, onde raras foram às cenas que sequer se aproximaram ao cotidiano de um presídio feminino, A Favorita, não deveria ser objeto de contestações, vindo a prevalecer incômodo ou preocupações. Porém, a problemática esta justamente no desconhecido, que retratado de forma insistentemente fantasiosa, vem destruindo anos de trabalhos desenvolvidos nos cárceres, inculcando nas pessoas, novamente o preconceito, o medo, a descrença e a mais temida: - a discriminação.

Como fazer chegar a milhares de centenas de pessoas, que não existem mais solitárias e sim o RDD? –Como mostrar que quem se beneficia de indulto, (Diva- Giulia Gam) esta em progressão de regime, portanto uniforme branco e verde, já que se trata de São Paulo. – Como explicar o R.O. pincelado tão diferente na dramaturgia. –Os alimentos em saco como lavagem. –A explícita e surreal afinidade de uma ex reeducanda com uma funcionária, já que o “proceder” não permite tal comportamento, enquanto encarcerada.
–A morte súbita de uma interna, denotando a omissão de socorro, a passividade e a tolerância (que é inaceitável na realidade carcerária) das demais companheiras de cela. –O diálogo no horário do sol entre apenadas, que jamais é cerceado. –Visitantes freqüentes e variados no parlatório, em horários diversos e sem ter nome em rol de visitas. –Uma ex-apenada, adentrando ala interna, com a conivência funcional. –A alcagüete na frente de todas, o que é postura vetada em cadeia e assim vai... Já que é ficção...
Talvez se não fosse um espelho que tivesse como foco principal um assunto tão pouco divulgado, no entanto dramático e real, como a criminalidade feminina, ou que esta não insistisse em mostrar um cárcere generalizado, repleto de pessoas que sobrevivem apenas penteando os cabelos no pátio, tomadas por completo ócio ou na tranca pesada, certamente seria uma porta de esperança que se abriria para muitas...

No entanto, as sobras da trama, se espalham, enquanto se defende a liberdade de criação do autor, se encarcera o respeito para as que um dia cumpriram suas penas e lutam pelo resgate social e familiar.
A mais um lamentável exemplo, onde “se acomoda” a reincidência, esta as quatro protagonistas que passaram pelo cárcere, até a que nunca delinqüiu, na teledramaturgia, A Favorita (que seria a personagem de Claudia Raia, Donatella) ira delinqüir.
Ou seja, a partir do momento, em que sem opção e contrariada, sai de um Presídio de posse de documentos falsos, usando a identidade de Diva ou Rosana (Giulia Gam) atestando a vulnerabilidade para o crime.
O mesmo acontece com Diva, após confidenciar que não quer sair da prisão, estando com os dias de vida contados e cedendo a vez para a companheira partir, se evade da penitenciária também com a “ajuda” da D.G. e até o momento, o que se sabe é que irá continuar no crime, juntamente com o político Romildo Rosa.
Outro detalhe, após ser preso, com menos de um mes encarcerado e sem sentença prolatada, Romildo recebeu indulto de Natal???
Como se a insanidade de Flora (Patrícia Pillar) não fosse o bastante, para definir a silhueta de uma mulher perigosa, e do crime, que jamais seria reabilitada, vindo a reincidir sabe-se lá por quantas vezes... Ainda há a personagem Cilene vivida por Elisangela, tendo como fonte de renda a exploração sexual de mulheres, que mesmo passando uma noite na cadeia, cometeu o perjúrio para “quem sabe”... Esconder o seqüestro do filho de Donatella.

Assim, evidente que o autor ainda não abriu nenhum precedente para as que um dia passaram uma dolorosa estádia nos cárceres e acreditando estar gerando polêmicas e aumentando a audiência, não percebe a nova pena que esta impondo, e o quanto vêm afetando vidas, que por alguma fatalidade, foram aprisionadas.
“A verdade é que as pessoas acreditam no que assistem, tanto é que copiam cortes de cabelo, modelitos de vestidos, enfim. Há até atores que apanham na rua, porque as pessoas nem sempre sabem diferenciar vida real de novela. Passei oito anos na prisão, quando sai, há um ano e meio atrás, minha filha havia crescido, e o processo de aproximação é diário e lento. Ela esta com doze anos e tenho evitado ligar a TV para que ela não se deixe influenciar. Sabe, quando foi revelada a assassina, e a frieza dela deu problemas sérios em casa... Agora imagina se no seio familiar é assim”... – Lamenta Leila Young.

Uma coisa é certa, um contexto ilusório, gerado à custa de situações distorcidas e desmoralizadoras, não é um quadro irreversível. Podendo abrir os braços para uma possibilidade infinita de situações, onde esta realidade reside no poder do criador em tornar tudo possível, ainda existe o tempo, do “a mais” e “na medida exata” ou quiçá, de reescrever essa história, onde o somar ponto, consiste no consciente... Em se contar outro conto.
Porém, nunca foi esta a intenção do autor...

Da Redação - Revista zaP!

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