Crônica Por - *Valdeck Almeida de Jesus
Salvador amanheceu com uma chuva torrencial. Prédios e condomínios dos chamados bairros nobres desabaram como pedras de dominó, centros comerciais ruíram, afundando em crateras descomunais e as principais avenidas da cidade se transformaram em cânions com correntezas que levaram consigo a riqueza e a pujança da Terra da Felicidade.
A tragédia não foi maior, pois sobraram incólumes os bairros periféricos, suburbanos, invasões e ocupações. Dessa vez os barrancos e as encostas não desceram morro abaixo, nenhum casebre rachou ou foi arrastado à destruição. Famílias de baixa renda não precisaram ser atendidas nos galpões e casas de amigos e parentes, pois, milagrosamente, a chuvarada não atingiu a população carente da capital da Bahia.
Depois da tempestade a grande descoberta: A nata da sociedade, políticos os artistas renomados desapareceram sem deixar sinal. Por isso, o carnaval desse ano vai ser diferente. Os blocos afros desfilarão nos principais circuitos da folia momesca. Trios elétricos especiais foram preparados para dar vez à grande parcela de moradores que antes só via a festa pela televisão ou espremida no cortejo festivo do Campo Grande e Barra-Ondina. Não haverá corda separando o público. Todo mundo vai pular atrás do trio com ou sem abadá. A fantasia será a vontade de se divertir, do jeito que cada um quiser e puder.
Bandas de fundo de quintal, músicos que jamais conseguiram mostrar o seu trabalho nas rádios ou no carnaval vão ocupar todas as posições de destaque e a mídia vai fazer cobertura total. As imagens e som serão transmitidos via internet, TV aberta e fechada para todo o país sem custo algum. Os jornais impressos também farão reportagens que serão publicadas e distribuídas para quem desejar reproduzi-las sem pagar nada.
Água, cerveja e comida serão patrocinadas por grandes empresas, apenas pelo prazer de ter seus produtos consumidos pelos soteropolitanos e visitantes de baixa renda.
Políticos e representantes de grupos econômicos não serão admitidos em postos de destaque. Todos os participantes do folguedo terão tratamento igual e poderão subir nos trios, entrar e sair dos blocos, ocupar os camarotes e espaços vips.
Os governos estadual e municipal não gastarão milhões de reais com a festança, nem amargarão prejuízos ao final da diversão coletiva. As cifras milionárias serão aplicadas em segurança, limpeza urbana, saúde e educação durante o resto do ano. Tudo isso aconteceu no dia em que a terra parou na Bahia.
*Valdeck Almeida de Jesus nasceu em Jequié/Ba, em 15 de março de 1966, fez o primário e curso médio em Jequié. Ingressou na Faculdade de Letras da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e concluiu um semestre. Ingressou na Faculdade São Salvador e concluiu três semestres de Turismo. Cursou inglês e espanhol no FISK, por três anos e meio. Está cursando Jornalismo na Faculdade Social da Bahia. Lançou os seguintes livros: “Heartache Poems. A Brazilian Gay Man Coming Out from the Closet”, Editora iUniverse, New York, USA, 2004; “Feitiço Contra o Feiticeiro”, Editora Scortecci, São Paulo, 2005; 20% da renda doada às Obras Sociais de Irmã Dulce; “Memorial do Inferno. A Saga da Família Almeida no Jardim do Éden”, Giz Editorial, São Paulo, 2007; “Jamais Esquecerei do Brother Jean Wyllys”, Casa do Novo Autor Editora, São Paulo, 2006; “1ª Antologia Poética Valdeck Almeida de Jesus”, publicada pela Casa do Novo Autor Editora, São Paulo, 2006; “Memories from Brazilian Hell. The saga of Almeida family in the Garden of Eden”, iUniverse, Nova York, 2008; Participa de mais de vinte antologias de poesias.
Valdeck Almeida de Jesus
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