
Sêo Nenê é, foi e será para sempre, muito mais que uma Celebridade... Nosso Saudoso Sêo Nenê, um ícone, um exemplo, o pai de muitos, uma universidade em vida, um referencial, Uma Estrela Maior...
Hoje, uma grande Saudades! Mas, imortalizado indubitavelmente, em nossas preces, lembranças e em nossos corações!
Saudades... Eternamente!
Morreu na madrugada de 04 de outubro de 2010, o fundador da
escola de samba Nenê de Vila Matilde, Alberto Alves da Silva, (Sêo Nenê)
Com 89 anos de idade Sêo Nenê de Vila Matilde, como era conhecido, estava internado em um hospital no bairro do Tatuapé, na Zona Leste de São Paulo, e em razão de uma gripe forte, que resultou em complicações pulmonares, lamentavelmente, veio a falecer aos 04 dias de outubro de 2010.
(1921+2010)
Contado por ele e publicado pra ele: - Nosso Amado Seu Nenê
"-No carnaval se não lutar e não fizer bem feito não fica nada para o futuro. É como ter um filho e ver ele crescer; andando, falando, cantando. Carnaval é quase a mesma coisa.
Para construir o que construímos, foram muitas lutas. A gente vencia uma batalha, aparecia outra. Mas nunca houve barreira que a gente não derrubasse.
Hoje, eu olho para os desfiles das escolas de samba, cada escola na avenida, com três, quatro mil componentes; a Águia da Nenê da Vila Matilde piscando, mexendo a cabeça; tudo televisionado...
E me vem na lembrança cada passo que tivemos que dar pra chegar até aqui... Desde o carnavalzinho inocente da Vila Esperança, até as pernadas no Largo do Peixe"...
História
O primeiro enredo de São Paulo, o primeiro campeonato.
"Aruanda ficou, o mar separou/ Senhor!... Meu Senhor!... / Nego tudo deixou/ É banzo que nego tem/ É banzo que nego tem/ Na casa grande tudo é alegria/ Na casa grande tudo é festança/ Na senzala nego chora/ Chora que nem criança/ É banzo que nego tem/ É banzo que nego tem".
(Casa Grande e Senzala, samba-enredo de Paulistinha e Popó, com o qual a Nenê da Vila Matilde desfilou em 1956).
Chegamos um pouco de caminhão, um pouco de bonde, outro pouco de trem...
Passamos pela rua Direita, Larga de São Francisco, viramos à esquerda, pela rua Dublas do Nascimento,
subimos a Brigadeiro Luiz Antônio...
Vínhamos cantando e dançando, com aquelas sombrinhas azuis e brancas... E o povo já começou a olhar...
A Comissão de Julgamento ficava num coreto, na Praça da Bandeira, e quando chegamos perto já olhou com interesse... Éramos mais ou menos uns cem e formávamos cinco alas, entre baianas, damas antigas, lordes, escravos. Levávamos uma árvore sobre
Rolimã, feita de sarrafo, papelão bem pintado, uns galhos bem feitos.
A Nenê foi consagrada campeã de 1956
Eram alegorias pequenas, feitas pelo carnavalesco da época, o Coruja, que mais tarde formou os “Corujas" da Vila Esperança. Foi um sucesso tremendo, aquilo era uma novidade em São Paulo, além do tema, que também entusiasmou o pessoal. Esse foi um dos primeiros ataques que fizemos, com enredo, com sistema, organização. Não era como as escolas são hoje, era tudo muito simples, mas já era um espetáculo. Tinha o escravo amarrado na árvore e, em volta, uns quinze homens fantasiados de escravos.
Tinha o feitor, de botas, batendo com um chicote, e, atrás, os lordes. Uns 20 rapazes vestidos a caráter, com calça até o joelho, sapato de salto Luiz XV, com fivela, meia casaca estilo fraque, chapéu de três bicos, aqueles babados... Vinham dando chaleira e cantando. As moças vinham de damas, dez de um lado e dez do outro. Sombrinha e vestido de abelha.
Foi um show inesquecível. A escola foi campeã, mas não foi fácil.
A Lavapés não gostou de perder e contestou o resultado, então fomos obrigados à réplica, como um segundo turno. A réplica foi no sábado de Aleluia.
Fomos ao Ibirapuera para disputar mesmo, no duro. Só que a Lavapés jogou a toalha e nem foi.
A Nenê foi consagrada campeã de 56.
Vila Esperança
"Eu sou do Cinco, Cinco de Julho/ Eu sou do cinco, porque o Cinco é do barulho/ No carnaval a minha vida é um prazer/ Eu serei do Cinco, serei do Cinco até morrer”...
(Hino do clube "Cinco de Julho", fundado em 1925, na Vila Esperança. O clube, que tinha nas festividades carnavalescas sua principal atividade. Era integrado pelos primeiros foliões do bairro. Na época do Seu Nenê, a orquestra "Arsênio e Seus Cabeças de Cavalo", tocava o hino na abertura dos bailes).
Um pouco sobre Seu Nenê
Com sete, oito anos eu morava na Vila Esperança, na rua Isabel. Foi onde minha mãe, Maria da Glória, morreu. Viemos de Minas em 1929 e ela morreu em 35. Meu pai, Albertino Alves da Silva, era carioca, daqueles de defender vascaíno. Nasceu no Morro de Santa Tereza e se criou na cidade de Moça Bonita, também no Rio de Janeiro. Ele me influenciou muito e a todos os meus irmãos. Contava muitas coisas da cidade onde se criou, falava muito de samba, e, como gostava, sempre aceitou o que nós fazíamos.
Ele tinha aquelas lembranças do samba carioca, mas também era do tempo da zabumba, da sanfona. Tocava e dançava o cateretê, uma dança acompanhada por viola e uma espécie de cantoria, parecida com o coco nordestino. Minha mãe também cantava essas músicas na época e eles dançavam no pé. Eles faziam aquelas “musiquinhas” em casa, coisas meio de africanos, coisas que o pessoal da senzala deixou de herança. Minha mãe morreu de reumatismo agudo, doença que herdou dos escravos, que dormiam no chão, na friagem. Hoje, o Brasil é o que é, mas foram mais de trezentos anos de escravidão e isso deixou muitas marcas, como a história de Zumbi dos Palmares, que já queria mudar as coisas. Minha mãe contava que minha avó morreu no dia 13 de maio. Uma ironia do destino. Quando soube que estava liberta, cortou o calcanhar trabalhando na enxada. Disseram que iam curar com açúcar e teia de aranha... Coisas daquele tempo. Meu pai foi embora do Rio porque não acertou com dois casamentos que teve lá. Perdeu as duas mulheres. Uma morreu doente e a outra morreu no parto. Com menos de 20 anos ele ficou só, e isso para um rapaz novo era difícil e ele ficou nervoso. Foi para Minas Gerais porque estavam precisando de gente para trabalhar no carbureto, na Central do Brasil. Lá, acabou arrumando a minha mãe. Os anos que ficou em Minas não foram muitos, mas lá, com minha mãe, teve sete filhos.
Até que resolveu vir para São Paulo. Quando veio embora disse: "Não volto mais aqui nem para comer doce", brincando com o gosto dos mineiros por doces, doce de coco, goiabada, essas coisas. Naquela época sentia que ali não tinha muito futuro. Quando chegamos em São Paulo fomos morar em Itaquera, pois meu pai foi trabalhar na linha de trem que corria por lá. Só depois fomos para a Vila Esperança. Quando chegamos na Vila Esperança, o carnaval era um carnaval pequeno, mas atrativo. Tinha o clube "5 de Julho" que iniciou o carnaval ali. Tinham muitos espanhóis que faziam os bailes carnavalescos. Usavam umas fantasias com uns três, quatro metros de altura, com o número cinco desenhado. O cara se metia dentro daquilo e saia andando, vinham outros com uns instrumentos e o povo ia atrás com umas fantasias improvisadas, uma índia bem mocinha, outros vestidos com um terno do lado avesso, um cara barbudo se vestia de mulher, outro colocava um pedaço de lingüiça no pescoço, qualquer coisa servia. O que valia era a festa, a brincadeira, aqueles cetins brilhantes. Era muito bonito.
Na Vila Esperança o carnaval começou mesmo com os “Cinco de Julho", mas já existia nos outros bairros.
Tinha a "Cidade da Folia", na Água Branca. No Parque D. Pedro tinha o parque Xangai, onde também tinha festa. A Penha, a Lapa, o Brás, o Belenzinho, também não eram fracos. Nesses bairros moravam muitos espanhóis, italianos e a negrada. Era uma mistura danada. Tinham ainda alguns nortistas e gente de Minas. Cada um influenciava um pouco e a coisa foi se desenvolvendo.
"Alerta, alerta! Vamos fazer revolução/ Em nossas trincheiras vamos ter mulatas na Avenida São João/ Antigamente a mulatinha fazia o curso lá no quintal/ Mas com o tempo ficou por cima/ Foi promovida a general/ Anda na rua com um V8 e sai de braços com o capitão".
(Marcha da década de 30, que fazia muito sucesso no carnaval da "Cidade da Folia", na Água Branca).
Com o tempo foram aparecendo outros clubes, como o "Guarani", o "Estrela Dalva", O "Clube Recreativo União Vila Esperança", onde aconteciam bailes, atividades esportivas e logo aderiram ao carnaval. Na época existia o apoio dos lojistas, eles ajudavam o carnaval dos bairros, hoje ficaram de pernas moles, não mantiveram a tradição. Mas também hoje o dinheiro está ruim para todo mundo, por causa da política do governo. O comércio está ruim e ninguém faz mais nada. O carnaval também cresceu muito e os bairros ficaram meio balançados no meio desse crescimento, mas é uma coisa muito importante que não pode terminar, pois dessas brincadeiras nos bairros surgem muitas coisas.
-Não é Pandeirinho de lata
"Já tinha lua Eva querida/ Eva querida, quero ser o teu olhar/ Já te dei amor por toda a minha vida/ Eva querida, se a lua contasse tudo que vê...". Naquele tempo era animado. Meu pai tinha uns quarenta anos, por aí, e um caboclo assim, com uma certa idade, era respeitado. Ele se juntou com outras pessoas e formou um clube chamado Vasco da Gama, na rua que na época se chamava rua Paulista. Minha mãe nos levava ao clube. Éramos moleques, e ficávamos só olhando os conjuntos tocarem.
De cara eu gostei logo do pandeiro, mas ainda não sabia que aquele instrumento ia marcar a minha vida. Gostava daquele pandeiro. Quando ele tocava... Era bonito! Era no tempo do clarinete, da flauta. Existiam aquelas orquestras com saxofone, pistão, mas nos bailes do Vasco da Gama, como era baile de clube mais humilde, pequeno, com um salãozinho, eram menos instrumentos. Todo mundo dançava e eu via o Zé do Clarinete tocando pistão, ficava olhando da janela e ouvindo o Jaú tocar o pandeiro. Gostava de ouvir a introdução. O Zé do Clarinete fazia aquela passagem com o pistão e o Jaú vinha no pandeiro. Eu pensava: Puxa! Como é que ele faz! Entusiasmei-me com aquilo, e, vira e mexe, queria ir lá ver o Jaú com seu pandeiro. Todo domingo pedia a minha mãe para me levar no baile, para ver o Jaú. Esses bailes eram de meio de ano, julho, agosto, setembro, não tinha nada a ver com carnaval. A música que eu gostava da introdução era do Joel de Almeida e Gaúcho, que tinham umas músicas de sucesso na época, como "Estão Batendo", que diz:
"Estão batendo? Se for comigo diga que não estou/ É a mulata que há pouco tempo você abandonou/ Está zangada, de cara feia atrás de um vozeirão pra te bater/ Pelo que vejo, ela está disposta a fazer barulho/ Te meter a mão...". Ele fazia a introdução no pandeiro, e nessa passagem é que eu ficava louco. "Também quero fazer", pensava. Aí fiz um pandeirinho de lata, de lata de goiabada, com tampa de cerveja... E ficava cantando e batendo na praça, o povo passava e ficava olhando. Meu irmão, mais novo do que eu, que era soldado, ficava olhando...
Tinha um pessoal do
Brás que todos os domingos vinha fazer serenata. Isso era comum naquele tempo, as famílias pegavam o trem e ia visitar outros bairros, fazer uma brincadeira, uma festa. Era uma época de família com família. Então o pessoal vinha. Um trazia o violino, outro o banjo. Dois daqui já tocavam violão, cavaquinho. Tinham uns alemães no meio - porque aqui no Brasil sempre foi assim, os estrangeiros chegam e viram brasileiros, entram na roda, começam logo a tocar violão, pandeiro. E os dois vinham fazer serenata, tocavam valsas, e meu irmão Iaia ficava só olhando. Eles viam aquele pretinho sempre olhando e resolveram ensinar a ele. Em um mês e pouco não é que o moleque já tocava cavaco! Aí entrou na coisa. Juntou com o pandeiro de lata que eu tocava, o Iaiá no cavaco, e já começamos a tocar. As músicas eram as que a Carmem Miranda cantava no rádio, e outros sucessos.
A Zona Leste era um colosso, era abundância de espaço, campo de futebol, várzea. Logo cedo, meu pai tomava o trem para ir trabalhar na Central do Brasil, no Brás, e no final de semana sempre tinha um futebol. Num Domingo, os clubes foram jogar em Mogi das Cruzes. Meu pai foi assistir, e à noite, na volta do jogo, encontrou um pandeiro no trem. Pensou logo: "Vou dar para o Neném" (era assim que ele me chamava). E levou o pandeiro para casa. -Pra que? Com o pandeiro, nós mesmos já fazíamos o samba. Meu outro irmão, o José, era o mais velho, e em três tempos aprendeu também a tocar cavaco. Ele já era moço e foi para o Rio de Janeiro conhecer as coisas, ver as novidades. Os moços naquele tempo eram fogo, não tinham medo de nada, e se fosse músico então, aí era terrível, eram todos destinados.
Como o Noel Rosa, que nem em casa não ia. Meu irmão mais velho era assim também, saia na quinta-feira e voltava na segunda. Então, aprendeu muita coisa e em pouco tempo já tocava violão também, e começou a tocar em conjuntos. Nós éramos moleques, mas ele nos levava nos bailes. O Didi, o outro irmão, aprendeu a tocar tantan, e também ia. Depois o Didi virou o maior passista daquelas bandas, saia de baliza na escola e as moças vinham de longe para ver ele dançar. Até hoje ainda é um pé de valsa e toca em orquestras. Sozinhos nós já éramos quase um conjunto. Juntávamos com outros conjuntos e fazíamos serenatas.
Em 38 eu já estava mais crescido, já estava trabalhando e meu pai me deixava mais à vontade para ir onde quisesse. Então resolvi sair no "Cinco de Julho", que naquele ano desfilou com um bondinho, como uma alegoria. A música dizia assim:
"Seu condutor, dim dim/ Seu condutor dim dim/ Pare o bonde pra descer o meu amor.."