Seu Nenê é mais que uma Celebridade... É uma lenda Viva!
Contado por ele e publicado pra ele - Nosso Amado Seu Nenê Página 2
O negócio com os conjuntos era cada vez mais firme. E fui indo. Com 15 anos toquei na rádio de Sorocaba. Nessa época eu já tinha aprendido mais alguma coisa. Tinha aprendido com o Russinho do Pandeiro, que tocava no Cassino da Urca e veio para um casamento na Vila Matilde. Ele veio e ficou me olhando. Daí a pouco estava me ensinando a fazer malabarismo com o pandeiro. Cheguei a quebrar um pandeiro para aprender. Foram seis meses para aprender alguma coisa. E na década de 40, quem fazia alguma coisa com pandeiro era grande pandeirista, não tinha outro. Então, nos anos 40, do Brás a Mogi, o maior pandeirista era eu. Era Nenê do Pandeiro. Tocava em vários conjuntos.
Tinha o conjunto do Geraldo, do Mário, o Conjunto do Zé do Cavaco, o meu irmão.
Tocava o ano inteiro. Naquele tempo tinha muito baile familiar, nós tocávamos nas casas. Éramos requisitados. Em matéria de dinheiro não valia nada. Hoje, os caros ficam milionários de um passo para o outro, mas nós estamos duros até hoje. O sustento mesmo vinha do trabalho na fábrica. Primeiro com uns 13, 14 anos, trabalhei no Nadir Figueiredo, uma fábrica de vidro, e depois entrei para a metalurgia. Trabalhei 27 anos na metalúrgica Rezemine. Antes de me aposentar ainda trabalhei em duas ou três firmas. Depois de aposentado tive um depósito de material de construção e uma banca de jornal. Perdi uma mocidade, mas ganhei uma vida. Sei fazer de tudo. Sei fazer telhado, assentar tijolo, qualquer serviço. Tem males que vem para o bem. Porque naquele tempo, o caboclo que ficava pulando de galho em galho não dava para nada. Teve gente que fez fortuna com esse negócio de música, mas acho que isso é da cabeça de cada um, nós sempre fomos só pela cultura. E meu pai sempre dizia que o pouco, com Deus... É muito. Que, dependendo da força de vontade, da saúde e da sorte, com um montinho você faz um montão.
O azul e branco da Portela
"Quem bateu na minha porta essas horas/ Não abro para ninguém entrar/ Pois quem manda nesta casa sou eu, sou eu meu bem/ Pois minha porta essas horas eu não abro pra ninguém/ Nega tenha paciência faça o favor de esperar/ Só abro a porta quando o dia clarear".
(Samba cantado por Paulo da Portela num Grito de Carnaval em São Paulo, na década de 40).
Foi mais ou menos nessa época que ficou gravado na minha cabeça o azul e branco, que depois viriam a ser as cores da Nenê da Vila Matilde. Tudo aconteceu quando vi o Paulo Benjamim de Oliveira, o Paulo da Portela, pela época do carnaval de 40. A gente sempre comprava a Gazeta Esportiva para ver o que estava acontecendo na cidade. E aí estava lá estampado no jornal: "Sábado, dia 18 de janeiro, há tal hora, uma embaixada vem dar o Grito de Carnaval no Teatro Santana". Eu pensei: tenho um dinheirinho guardado, acho que vai dar para ir, essa noite tenho um encontro marcado com o samba. Vou lá no Teatro Santana. Naquele tempo, a gente sempre guardava um dinheirinho numa caixa, embaixo do colchão, ou no bolso mesmo. Hoje é que o sistema mudou, não dá mais para guardar. Um ano antes quem veio fazer o Grito de Carnaval em São Paulo foi o Francisco Alves.
Eu vinha entrando na Estação do Brás, quando vi descendo o Chico Alves. Ele vinha chegando no trem Cruzeiro do Sul, que vinha do Rio, e, ali mesmo, na estação, junto com os músicos, deu um show. Saiu cantando no meio do povo, e aquilo já tinha me marcado. Era um samba danado de bom, então eu não podia perder aquela oportunidade de ver a embaixada com o Paulo da Portela. Eu nem sabia quem era Paulo da Portela, mas não queria perder. No jornal dizia que quem vinha acompanhando era a Aracy de Almeida, o Gilberto Alves, um cantor novo, o Carlos Galhardo e o conjunto "Anjos do Inferno".
Aquilo me deixou mais curioso ainda, pois eu, moleque inocente, pensava que eles vinham vestidos de diabo, com chifre e tudo. Chamei minha irmã para ir junto e chegamos cedo no teatro. O show começava às sete da noite, mas às cinco horas nós já estávamos na porta. Aí saiu um crioulinho lá do bando, passou por nós e disse: "Tem algum lugar aberto aqui pra gente comprar um cigarro?". Eu respondi, e passados uns quinze minutos, ele voltou e ainda agradeceu a informação. Para mim era um crioulinho qualquer. Quando começou o show, nós já estávamos lá, sentados bem perto do palco. O locutor apareceu, era o Paulo Rogério, que depois ficou meu amigo. Ele anunciou: "Agora com vocês, o Paulo Benjamim de Oliveira e a Embaixada do Rio de Janeiro". As cortinas se abriram e apareceu o Paulo Benjamim. E olha quem era, o pretinho do cigarro, aliás, pretinho não, era um “criolão”, e vinha acompanhado por uma formação de escola de samba integrada pela Portela e pela Mangueira.
Eu pensava que ele ia só tocar, mas o cara era um maestro terrível, uma figura impressionante. Dançou, sapateou, deu no pé, pulou, e comandou todo mundo. Aí ele falou: "Vocês querem ver como é que faz o soldado? Um dois". E ia mostrando... “Como é que faz o surdo’’? Ia fazendo e explicando. A cadência damarcha, a cadência do samba. Porque tanto a cadência da” marcha, que é européia, quanto a do samba, é tudo da família do carnaval. Porque de tudo ficou um pouco, e faz parte da nossa criação. E ele foi mostrando. Passou a mão num tamborim, fez a marcha e o samba. E anunciou: "Agora vamos formar a bateria de uma escola de samba". Chamou o tamborim, o outro tamborim, o surdo, chamou o chocalho, o agogô, o reco-reco, o pandeiro, o pessoal ia entrando, tocando e o ritmo crescendo. Quando ele chamou o João da Cuíca, puxa, aquilo ficou uma batucada de arrepiar. A cuíca era daquelas antigas... Chegava a chorar. Eu pensei: já me tratou bem! Levantei-me, fiquei doidinho! O guarda foi logo falando para eu abaixar senão me colocava para fora, mas eu nem liguei, estava entusiasmado. Que noite! Quando ele apresentou um samba dele, trouxe as moças, as cabrochas. Primeira uma da Mangueira e uma da Portela. Chamou: "Rosa!" Veio àquela mulata, com aqueles babados, toda de azul e branco... Depois chamou Joana, da Mangueira, mas que também veio de azul e branco. E foi chamando: "Maria!", "Helena!" Até formar seis, todas de azul e branco, sem mistura de cor, porque Portela e Mangueira sempre foram irmãs. E a bateria? As pessoas todas de calça branca e camisa azul, um chapeuzinho de palha branca na cabeça, bem armadinho, porque precisavam estar bem arrumados, não iam se apresentar mais ou menos. Vieram todos de tamancos, e eu achei aquilo engraçado. Quando começaram a dançar tiraram os tamancos, porque aí tinha que ser no pé mesmo. Fizeram um samba no pé dos diabos. Quando ele cantou o samba:
"Quem Bateu na Minha Porta", eu falei: como é que pode? O cara com aquele porte, que educação terrível! E que ginga! Ele ensaiou de um lado, ensaiou do outro. E começou a cantar. Na platéia todos batiam no compasso certo. Ele ia explicando, comandava o público: "Quando eu fizer assim vocês não cantam, a segunda é minha".
"Quem Disse Que Eu Chorei Mentiu", com a orquestra de dois baixos, na frente, em baixo do palco, só fazendo um fundo. Ele tinha uma voz bonita, aquele! O Gilberto Alves cantou uma música do Orlando Silva, depois veio novamente a batucada, e aquilo já estava gravado em mim para sempre. Quando o conjunto "Anjos do Inferno" entrou, levou primeiro um samba, e eu só reparando para ver se tinha alguém de chifre. Depois do samba levaram uma marcha, que era aquela: "Meu coração amanheceu pegando fogo, fogo, fogo/ Foi uma morena que passou perto de mim/ E que me deixou assim..." Isso é deles. Mas o samba que cantaram antes também me marcou. Não era possível. Não tinha um crioulo no conjunto... Todos uns baianos, carioca e baiano branco. E eu não estava acostumado com isso. Estava acostumado só com rolo, com “a crioulada junto”.
O quê rapaz! Os caras eram bons, não era conversa. Os “Demônios da Garoa", que está aí até hoje, é uma réplica do "Anjos do Inferno". Apareceram logo depois deles. Eles fizeram sucesso ainda durante muitos anos e depois até tive um disco deles. Mas naquele dia eu fiquei bobo. Para quem estava acostumado, todo mundo era bom de samba, crioulo ou branco, mas eu não estava. Para mim, naquele tempo, samba era coisa só de crioulo, e bem que queria ver um crioulinho ali no meio. Naquele dia, a última apresentação foi da Aracy de Almeida, que também fez uma apresentação terrível. Ela tinha uma ginga danada, aquela. Que noite!
A Nenê da Vila Matilde surgiu
A Nenê da Vila Matilde surgiu no Largo do Peixe. Quando nós começamos a fazer as nossas brincadeiras ali, o lugar era só mato, brejo, e não era chamado Largo do Peixe.
Tinha um nome esquisito dado pela prefeitura. Só que tinha um bar de um português, que tinha vindo da Ilha da Madeira. Ele já morreu, mas o bar existe até hoje. Então, no início o povo chamava Largo do Bar Madeira. Depois, como o português usava um casaco de couro, a malandragem sempre que falava do bar, chamava Bar do Casaco de Couro. Daí que, até os anos 50, o local também ficou conhecido por esse nome, mas também era chamado de Largo do Peixe, porque entre nós tinha um pessoal que vendia peixe no Largo. Tinha o Cabeleira, que vendia sardinha e outros mais. Esses comerciantes trabalhavam com caminhão e durante muito tempo a escola foi para os desfiles naqueles caminhões. A denominação oficial de Largo do Peixe surgiu como uma homenagem a nós, àquela rapaziada que fazia as rodas de tiririca, e depois as rodas de samba e a escola. Quando foi em 88 nós fizemos o enredo Zona Leste, e o samba, que era uma beleza, falava de tudo. Falava do Corinthians, do Adoniran Barbosa, da tiririca, do Largo do Peixe. Foi um desfile bonito.
Nós não levamos o campeonato, mas teve um vereador que resolveu homenagear a escola, e fez um Projeto de Lei para o Largo passar a se chamar oficialmente Largo do Peixe. Porque tudo surgiu ali. Todos os finais de tarde nós lá estavam no Largo fazendo o nosso batuque. Às vezes era só batuque, outras vezes nós tocávamos. Meu irmão com o cavaco, o outro tocava violão, um outro trompete; tinha um colega nosso que tocava uma cuíca lascada, o Zé da Cuíca. Aquilo ficava animado. Na época, o nosso divertimento era esse. Futebol de várzea, eu mesmo joguei muito, não é à-toa que sou corintiano roxo, baile, e nas horas vagas, dávamos pernadas. Acho que é coisa do espírito mesmo, coisa de crioulo. Não éramos só nós no Largo do Peixe, o Germano Mathias, o Caco Velho, também davam pernada na Praça da Sé. No Largo da Banana tinha o Inocêncio Thobias com o pessoal da Barra Funda.
Num começo de dezembro de 1948, dia de Nossa Senhora Aparecida. Estávamos lá no Largo do Peixe e meu irmão Didi pegou o cavaco, começou a tocar e eu entrei também.
Nasce a Nenê da Vila Matilde
Naquele ano de 1948, antes do natal fizemos outra roda no Largo do Peixe. As meninas chegaram, quiseram cantar e o Tóquio falou novamente em formar uma escola de samba. Quando chegou o dia de Natal fomos novamente tocar no Largo. As mulheres não apareceram porque tinham que ficar em casa, fazer almoço, essas coisas. Os homens comiam e saíam para a rua, não queriam saber de cozinha. Se hoje o homem é de rua, imagina naquele tempo. As mulheres tinham outra cabeça e suportavam mais essas coisas. Os homens eram muito rueiros, mas também não acontecia nada com os caras, não era como hoje, que o sujeito sai e daqui a pouco está preso, ou morre, o safado. Os vícios naquele tempo eram cigarro e pinga. Se não fosse pinguço tudo bem! No dia 31, fui tocar em uma orquestra, era um reveillon em Mogi das Cruzes. O baile acabou às quatro horas da manhã.
Quando desci do trem na Vila Matilde eram umas sete horas. Fui andando até o Largo do Peixe. Quando cheguei o pessoal já estava lá, já tinham me procurado, e já estavam falando sobre a formação da escola de samba. Como era primeiro de Janeiro, ele queriam que o nome fosse esse. Já tinha uma ata com o Totó, um branquinho, filho de italiano, que tinha um salãozinho de baile e também ajudou muito na formação da escola e eles estavam me esperando para assinar. Naquele momento eu não estava ligando muito para aquele negócio de escola de samba e falei que ia dormir: "Depois a gente vê”, falei. Fui para casa dormir, mas aquela história não saia da minha cabeça. Deitei, mas quando foi mais tarde fui para o Largo do Peixe. Parece que já estava destinado. O Livino, que toca na bateria da escola até hoje, já estava lá. Divino já chegou cantando. Meu irmão Didi, todo animado. Esperamos o sol baixar para começar a tocar. Quando eram umas seis e meia, baixamos os instrumentos, tocamos uns choros... Eu fazia aquelas atrapalhadas com o pandeiro. Era como se algum espírito me empurrasse. Chegaram às meninas, começamos a cantar e aí juntou mais gente. Foi quando o Tóquio e o Expedito falaram: "Pô! Nós vamos formar a escola, mas o Nenê ainda não assinou a ata".
Então eu assinei.
Ficou aquela discussão sobre o nome da escola. Um queria que se chamasse "Primeiro de Janeiro", o Balduíno queria "Unidos do Marapés", porque ele era de Marapés, tinha feito muitos sambas lá. E outro dizia, "que nada, Marapés é em Santos, vamos colocar Primeiro de Janeiro". Aquela confusão. Mas mesmo sem termos definido qual seria o nome resolvemos registrar a escola no dia seguinte. No outro dia conversamos até o meio dia e depois fomos para a União das Escolas de Samba de São Paulo, na rua da Glória.
Pegamos o trem das 13h30. Éramos treze, - eu, o Tóquio, o Juvenal, o Balduíno, José Brito Laurindo, Didi, Getúlio, Julião, Expedito, Livino, Benedito Justino, minha irmã, Geraldina, e o Manolo - cinco pretinhos e o resto todos brancos, mas tudo branco bom de samba. Alguns já morreram. Outros ainda estão aí, uns afastados, outros não.
A primeira bandeira da escola, de papel crepom
O Getúlio foi quem me ajudou a fazer a primeira bandeira da escola, de papel crepom. O dia 2 de janeiro, era segunda-feira, e, naquele tempo, segunda-feira era dia de sapateiro, ninguém trabalhava. Fomos visitar a União das Escolas de Samba. Quando chegamos lá para registrar, a polêmica do nome voltou. Estavam lá alguns diretores da primeira União das Escolas de Samba de São Paulo.
- O Mário Protestato dos Santos (Popó, que era jornalista do jornal O Dia e algum tempo depois entrou para a Nenê), o Dr. Francisco Lucrécio (que depois também foi diretor da escola), o Dr. Juliano Raul do Amaral, Dona Eunice (Deolinda Madre, que era a presidente da Lavapés).
O Balduino, que era o mais velho, queria que fosse "Unidos do Marapés", dizia que " Primeiro de Janeiro" era nome de clube, que já tinha o "5 de Julho", e a coisa não se resolvia.
Depois de uns quarenta minutos de discussão, eu disse: "Vamos deixar disso e vamos resolver logo". Eu estava com o pandeiro na mão, e o Popó perguntou: - “Quem é aquele ‘compridão’?” Pois nem todos me conheciam de nome.
Alguém disse que era o Nenê do Pandeiro. Então o Popó disse: "Porque vocês não colocam o nome de Nenê da Vila Matilde?". Para mim aquilo era uma audácia. Para mim aquilo não estava valendo nada, era como se estivéssemos formando mais um conjunto, como aqueles que nós formávamos na hora de tocar...
Naquela hora não estava levando nada a sério, era tudo brincadeira. E agora estamos aí fazendo SESSENTA ANOS... Isso só pode ter sido coisa de Deus.
Quanta gente foi embora. Quanta gente que eu ajudei, quanta gente me ajudou. Se hoje existe dinheiro de federação, dinheiro de carnaval, foi muito por causa dessa história. Por mim e pelo Inocêncio do Camisa Verde, que faleceu em 1980. Inocêncio Thobias foi um grande amigo e uma das maiores consciências do samba em São Paulo. Até hoje não teve um homem de samba de quem eu tivesse tanta saudade como o Inocêncio. Amigo, amigo daqueles de comer junto e falar a mesma língua. Tiveram outras pessoas boas também, outras pessoas que até hoje não esqueço, como minha mulher Maria Teresa, uma mulher impressionante, o Divino, e tantos outros, que ajudaram a construir o que temos hoje no carnaval de São Paulo.
Mas ali, naquele momento, quando registrávamos aquela ata, nenhum de nós pensava na história que íamos construir.
(...)...
O primeiro desfile. -Em 1949 nós saímos. O primeiro carnaval.
Em 1949 nós saímos. “O primeiro carnaval! Pensamos”...
-Como é que vamos fazer? -Nenê da Vila Matilde...
O pessoal queria sair na rua. Eu não estava ligando muito, ainda não estava levando aquilo muito a sério, porque eu tocava toda hora, vivia nos bailes, nas gafieiras, mas o pessoal queria brincar.
As cores da Escola (Azul e Branco)
CNaquele primeiro ano não tinha nem condições de escolher as cores da escola. Fomos obrigados a pegar camisas emprestadas do "Cinco de Julho", nas cores pretas e brancas, e, como naquele tempo a maioria de nós tinha um terno azul marinho, usamos a calça azul marinho, e desfilamos na Batalha de Confete, no sábado antes do carnaval. Esse desfile era na Vila Esperança, onde hoje tem o viaduto.
Ali era um carnaval do diabo, que existe até hoje. Nesses anos (desde 2000) estamos desfilando também na Penha (É uma marginalzinha, que liga os acessos aos metrôs dos bairros da zona Leste, em especial, esse trajeto, se dá do Metrô Vila Matilde até a estação Penha). Embora muitos pensem que se trata de locas distintos e distantes, são muito próximos. A Vila Matilde, faz parte da penha, que também engloba Vila Salete (onde é a quadra da Nenê) Vila Santana, Vilas e Vilas... Por fim, a Penha é dividida em Vilas e Vilinhas, mais é tudo uma vila só.
No carnaval já tínhamos arranjado um dinheiro para comprar calça branca. Arrumamos umas camisas listradas. O Clube Guarani emprestou umas camisas deles, vermelha e branca. Compramos só a palhetinha para colocar na cabeça. Não tínhamos dinheiro para comprar camisa, mas fomos assim mesmo para a Praça da Sé, desfilar. Éramos uns trintas. Só tinham três moças, a Zaira, a Cida e a Joana (a Joana como Porta-bandeira) e o resto todos batuqueiros.
Um vinte vinha tocando, o pessoal do Largo do Peixe e a Dona Inês Camargo, que era do clube "21 de Abril", vinha no meio, cantando, foi a primeira pastora da escola. Formávamos uma única ala. Era um samba bom, mas não tínhamos nada. Era só festa, brincadeira e alegria. Na época, aquela região da Praça da Sé era toda aberta, ampla. Tinha um quadrado onde as escolas e os cordões desfilavam. Nós fizemos o percurso, era só um registro, e a federação anotou: - “Tem mais uma escola de samba, da Vila Matilde".
Cantamos a marcha "Casinha Branca", que nós gostávamos muito. Tínhamos um trombonista que sempre tocava essa marcha, só que para escola de samba não podia ser marcha. Então ele mudou o toque para samba e nós assimilamos.
70 Horas Carnavalescas
As "70 Horas Carnavalescas" aconteciam num salão que tinha na rádio. Mas nós acabamos com aquele carnaval. Nessa época, carnaval em São Paulo era aquilo. Carnaval na rua, só tinha nos bairros. Tinha o carnaval da Vila Esperança e nós já tínhamos a escola de samba. Desfilávamos nos bairros de São Paulo, no interior, íamos para Mogi das Cruzes, para Jundiaí. Acabamos com aquele pula-pula, porque o carnaval da Vila Esperança nunca “deu pro cheiro”, nunca deu para aquele pula-pula. Aquilo não era carnaval. Por causa disso que nós crescemos no meio. Na época, tinha um carnavalzinho pequeno no Ipiranga, e o carnaval da Cidade da Folia, que acabou quando estourou a guerra.
A guerra começou em 1939, e quase acabou com o carnaval. Depois só levantou em 1968. Até essa época tinha um carnavalzinho, se era oficializado ou não, era um carnaval. Mas nós fizemos todos os anos, se não fosse isso não tinha essa história. É por isso que nós resistimos e as outras que vieram, vieram depois.
Depois da bonança, depois que oficializaram o carnaval. Quando apareceu o dinheiro muita gente apareceu.
A Peruche também sofreu muito, a Vai-Vai, o Camisa Verde também, mesmo quando passaram a escola. Quando eram cordões tinham que pedir dinheiro na praça, na rua, para fazer o desfile.
Nós não pedíamos porque éramos da periferia e em periferia o pessoal não dava. Eles arrecadavam um dinheiro, que eu para arrecadar tinha que fazer um baile. Na periferia, quando pedíamos ajuda em dinheiro, o pessoal ficava falando besteira, e quando davam diziam que a escola tinha que passar na porta deles, ou então diziam que a gente ia pegar o dinheiro para beber pinga. Hoje o pessoal que faz carnaval é respeitado, mas naquele tempo qualquer crioulo era crioulo doido e muita gente me via como um cara irresponsável.
Só que as coisas foram mudando. Com estas mudanças, as escolas de samba foram crescendo.
Nós viemos com força, puxamos a Peruche, a Lavapés, as escolas começaram a ter nome.
O que incrementou o carnaval foram os enredos que nós começamos a fazer. Foi mudando a cabeça do povo, das próprias escolas, foi mudando as rádios. Escola de samba não tem jeito, tem um imã. Na Vila Esperança o carnaval nunca parou. E o carnaval da Vila Esperança foi reforçado pelas escolas de samba, os clubes já tinham acabado quase todos. Então com o crescimento das escolas não dava mais para o carnaval ficar na mão dos cronistas.
No Quarto Centenário da Cidade, em 1954, foram eles que organizaram tudo. O desfile foi no Centro. Diziam que ia ser o maior carnaval, mas não foi, foi um fracasso. Foram muitas promessas e teve escola de samba que os componentes venderam o que tinham, venderam vitrola, rádio, os poucos pertences que tinham, para fazer o carnaval. E nós vínhamos loucos para mudar.
Nessa época, já tínhamos a União das Escolas de Samba Paulistas.
Moraes Sarmento.
Em 1962, formou-se a Coligação das Escolas de Samba, que eu fui presidente de 64 a 68.
Em 1964, apareceu um pessoal que deu um golpe em todo mundo, então ficamos mais espertos ainda. Fomos tomando conhecimento, conversa daqui, conversa dali...
Quando percebemos que não andava mesmo, montamos a União das Escolas de Samba e Cordões Carnavalescos de São Paulo. Nos unimos com os cordões para poder ter força e tirar das mãos deles. Foi quando procuramos o *Moraes Sarmento, calhou tudo num tempo só, e eles foram perdendo força. Daí para cá o “couro comeu!” Aí chegou a ser bom.
*Nota
Rubens Moraes Sarmento. Nasceu a 14 de dezembro de 1922 em Campinas. Seu avô paterno era jornalista, tendo sido o fundador do primeiro jornal de Campinas: O Diário de Campinas. Em 1936, pela mão do radialista Roberto Corte Real, começou na Rádio Educadora de Campinas. Esteve na Rádio Cosmos, Rádio Tupi, Rádio Bandeirantes, Rádio São Paulo, TV Bandeirantes, TV Record, TV Cultura e Rádio Capital. Firmou-se como apresentador, combatível, respeitável. Fundou a Federação das Escolas de São Paulo.
Moraes Sarmento encabeçava a produção e apresentava o Programa “Viola, minha viola”, da TV Cultura, que foi um grande sucesso, principalmente por suas viagens por todo o interior.
Moraes Sarmento esteve no ar por 60 anos ininterruptos. Casado com dona Wilma, teve filhos, netos e bisnetos.
Faleceu em São Paulo em 22 de março de 1998, cercado por seus familiares e amigos.