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SEU NENÊ DA VILA MATILDE

Seu Nenê Seu Nenê é mais que uma Celebridade... É uma lenda Viva!

Contado por ele e publicado pra ele - Nosso Amado Seu Nenê Página 3
Faria Lima. Em 1967

O dia que fomos falar com o Faria Lima foi uma folia. Fomos todos juntos, uns sete ou oito, pensando que íamos entrar. Ficamos esperando, aquela turma toda. Tinha uma loura e um sargento, ou tenente, não sei, que ficavam na porta. Chegamos, sentamos no banco... E sabe como é a crioulada. Fala alto pra chuchu. Aquela folia.
O Moraes Sarmento falava uma porção de besteira de mulher, umas brincadeiras, conversa de homem... E aquela risada.
O Moraes Sarmento usava óculos e ficava só mirando a loura, e ela só observando. Até que ela falou para o porteiro: "Eles estão falando alto, e tem um branquinho lá no meio". Como quem diz: -"Era só tição, agora tem um branco no meio, deixa-me ver que branco é aquele". Na idéia dela, né?
Ela veio devagarzinho, olhou assim... Tinha um crioulinho chamado Bolinha que era da Vai-Vai.
Tinha o conjunto do Geraldo, do Mário, o Conjunto do Zé do Cavaco, o meu irmão.
Ela disse:
- Ô menino, ô mocinho, quem é esse branco aí?
- Esse é o Morais Sarmento, ele respondeu. Ela levou um susto.
- Aquele radialista?
- É, aquele da Bandeirante, respondeu o crioulinho.
Então ela falou com o sargento. E foi daí que rapidamente, bateram continência, falaram com o capitão, daí um pouquinho chegou um homem, olhou bem e falou:
- Vai até lá, manda aquele senhor vir até aqui. Chamaram o Sarmento.
E ele disse: - Mas, eu tenho uma diretoria.
Quando citou o nome do *Leporace eles tremeram, e mandaram o Moraes Sarmento e o Leporace voltarem no outro dia.
Como quem diz: "Não traz aquela crioulada toda não". Mas nós queríamos é que a coisa acontecesse, nem estávamos ligando para o preconceito.
No outro dia eu disse: "Já que tem esse problema da discriminação eu não vou".
Foram o Moraes Sarmento, o Inocêncio e o Ramon.
O *Leporace não foi porque ele tinha um programa no rádio, "A Hora do Trabuco”.
Aí entraram e falaram com o prefeito Faria Lima.
O prefeito disse: -"Eu vou fazer o carnaval sim, eu já vi o torneio de vocês".
Pedimos ajuda em dinheiro uma subvenção para as escolas organizarem o carnaval.
*Nota - Jornalista Vicente Leporace
Vicente Leporace (foto) faleceu no dia 16 de abril de 1978, de edema pulmonar, aos 66 anos, em São Paulo. Vicente Leporace faleceu sem concretizar um dos grandes anseios de sua vida: o de editar em Santo Amaro-SP um jornal diário que chegou a ser constituído e registrado como O Trabuco, mas que nunca chegou às bancas…

Em 1968 - Carros Alegóricos


Desde a primeira verba, pensamos em fazer alegorias boas, fantasias melhores, fazer melhor o enredo. E começamos a pensar grande e até a falar em fazer uma Passarela do Samba, que não existia nem no Rio ainda. Em 68, todas as escolas já saíram com carro alegórico.
O Primeiro Barracão da Nenê
Porque eu era o chefe, o rei desse negócio, e eles vinham me procurar, e ficavam lá na frente da minha casa. Nós pegávamos os instrumentos que ficavam guardados em casa, num lugar já reservado para eles. Fiz um barracãozinho do lado de fora e guardava os instrumentos ali. Nesse dia, nós pegamos os instrumentos, saímos para a rua e começamos tocar e cantar. A casa já era essa que moro atualmente, só que era menor, mas tinha o terreno onde fiz o barracãozinho pequeno. Nessa época, nós estávamos mal.
Quando a confusão aconteceu eram umas quatro horas da tarde, as sete, aqueles que apanharam foram buscar reforço. Vieram uns 150 homens mais ou menos, acho que a escola inteira e mais o pessoal do futebol, pois éramos todos amigos. Foi um fuzuê.
Então um disse: "Eu vou dar parte". E fomos dar parte.
-Pra quê? Pegamos o nome do bucheiro (que começou a confusão e fez muitos estragos) e fomos lá. Aí fomos intimados.
No outro dia, fomos eu e o bucheiro para a delegacia. O delegado fez ele pagar as coisas que tinha destruído. Ele puxou umas notas... Fez de estrago... E nós pegamos. Tinha furado uns dois instrumentos, e o dinheiro que ele deu pagou os instrumentos quase todos que nós tínhamos. O filho da mãe tinha dinheiro. Só que o delegado Carlito pôs a mão no meu ombro, e depois de muita discussão, falou para o bucheiro:
- “Olha, você não passa mais lá. Se eu souber que você passou por lá com o carro, eu vou pegar você na sua casa".
E disse para mim:
-"E você Nenê, também não toca mais na rua, arruma um lugar para tocar". E nós estávamos numa situação difícil, tínhamos sido cortados do clube "Cinco de Julho", do "Vila Esperança", do "Guarani". Tínhamos problemas, o pessoal não era mole, todo mundo jovem, brigavam, faziam bagunça, as meninas namoravam um, depois queriam namorar outro, aí dava confusão.
Tinha de tudo. Foi aí que o Virgílio falou para mim:
- “Você não vai tocar mais na rua".
- “Você tem que saber onde você tem que fazer suas coisas, você sabe que tocar na rua não pode". Pensei: -E agora?

A quadra

Para fazer os ensaios nós já tínhamos usado até o campo da Vila Esperança, mas tinha a inveja, e o pessoal não gostava. São coisas do mundo, é só você melhorar um pouquinho, que um outro já acha que você está andando muito, e já quer cortar.
E assim foi com os clubes. Porque nós fazíamos apresentações na Rádio Record e um pouco na TV Record. Eles viam que nós fazíamos um showzinho de vez em quando, então ficavam com ciúmes. Os diretores dos clubes diziam: "Não, não empresta mais pro Nenê".
Isso tudo era discriminação, mas foi uma coisa que acabou sendo para o bem. Fomos obrigados a nos mexer. É coisa da vida, do destino. Talvez eles nem fizessem por maldade. Mas depois daquela encrenca, não tínhamos para onde ir. Na rua de cima tinha uma escolinha e tinha um professor que usava o cabelo todo alisado. Eu achava gozado aquele cabelo alisado, que até já tinha caído de moda. Então resolvi conversar com o "cabelo alisado", que vivia falando de fazer um ginásio num terreno perto da minha casa. Mas acabou chegando à conclusão que o terreno não servia para o que ele queria, pois era muito estreito. Então perguntei: De quem é o terreno?
- “É da prefeitura", ele respondeu.
-Pra quê que ele falou? Eu não sabia. Da prefeitura? Então é comigo mesmo, pensei.
Vou “carcar” lá. O medo de você entrar num terreno é de ser particular. Hoje se invade tudo, mas daquele tempo era fogo. Daí então olhei o terreno, peguei uma enxada, capinei, preguei um pau, pedi a luz para o seu Antônio, do bar, e disse para o pessoal: "Vamos ensaiar aqui".
Do Natal de 1967, até o carnaval, durante aqueles dois meses, veio o administrador da prefeitura, nos viu tocando ali e falou:- "Vou mandar passar o trator aí para vocês poderem tocar melhor". Passaram o trator e fizeram uma rampa. Depois do carnaval nós cercamos tudo com madeira. Durante o ano de 68, ficamos daquele jeito. Em 69, fizemos uma parte de muro de arrimo, de cimento. Fomos tirando a madeira, porque o pessoal tinha começado a fazer um cocho de porco. No meio do ano, fizemos uma Festa Junina, e foi aí que veio o Adhemar de Barros Filho. Ia ser candidato e veio atrás de votos. Ele perguntou: "Porque vocês estão no sereno?". Falei:
-"A gente tem vontade de cobrir". O sereno naquele tempo parece que era maior. Já tinha poluição, mas era menos, tinha mais sereno. Hoje parece que a poluição come o sereno, come tudo, come até a gente, suja as casas. A poluição é fogo, acho que acabou até com a garoa de São Paulo. O sereno era melhor que a poluição, mas para cantar era difícil. O Paulistinha era o único que ficava com voz, o resto perdia a voz.
Aí o Adhemar de Barros perguntou quanto nós tínhamos para fazer a coberta. Não tínhamos nada, mas o Justino conhecia uma firma em Guarulhos, que fazia tobogãs, e queria vender uma cobertura. O Justino já estava de olho: "Nenê, vamos comprar aquela coberta". Falei: "Comprar com quê dinheiro?". "-Vamos fazer um negócio, vamos fazer uma” trapaiada” aí, vamos comprar, eles tão querendo vinte mil reis".
O pessoal da firma veio, mostramos o que queríamos fazer e fechamos o negócio com as caras. O Adhemar de Barros deu cinco contos, que dava para a entrada, depois deu mais uma parte, e nós ficamos de dar a outra metade. Deu mais alguma coisa para nós comprarmos instrumentos e fazer o piso, porque era tudo cascalho.

A primeira quadra de escola de samba, coberta, em São Paulo.
Em 1969, estreamos a quadra coberta. A primeira quadra de escola de samba, coberta, em São Paulo. Hoje, a cobertura já foi aumentada, a quadra cresceu, já sofreu várias reformas, inclusive com tratamento acústico, para não incomodar os vizinhos. E até já estamos pagando IPTU.
Eu sempre fui acostumado com as coisas difíceis.
Quando estávamos com a quadra pronta, apareceram uns oportunistas, que até tinham ajudado a fazer a festa da inauguração, e de repente queriam tomar conta de tudo, queriam ser presidente da escola. Achavam que eu tinha que dar o lugar para eles. Foi um pandemônio!
Sofremos naquele tempo. Mas eu sempre fui acostumado com as coisas difíceis. E, nesses anos todos, já tinha aprendido uma coisa, que não se pede dinheiro a ninguém. Então, a escola, o que tínhamos conquistado até aquele momento, não tinha sido com dinheiro de sócio e nem dinheiro de campanha. Não devíamos nada a ninguém. Tudo que tínhamos construído no carnaval até ali tinha sido com estratégia minha, do Justino e dos meus companheiros. E chegam uns oportunistas e de repente querem ser os donos, presidentes, assim, sem mais nem menos. Queriam transformar a escola em um clube, com quadro de sócios e tudo. Eu falei: "Aqui não vai fazer quadro de sócio nenhum".

Deram parte da escola, dizendo que eu tinha grilado o terreno.

Quando eles viram que não podiam tomar conta da escola, foram em Vila Flora dar parte de mim. Deram parte da escola, dizendo que eu tinha grilado o terreno onde é a quadra. Depois de cinco, seis anos, em 1976, veio a desapropriação. A quadra inteira pronta, coberta, sair pra demolir?
A gente fazendo festa, e tínhamos que sair do terreno. Chegou a vir gente da prefeitura com caminhão para levar as cadeiras e as mesas, a geladeira, porque eles queriam derrubar tudo. Aí o Doutor Marioto falou: - "Não deixa levar, porque se levam para a prefeitura acabam com tudo".
Iam pegar as esculturas, iam arrancar, derrubar tudo.

Não temos dinheiro, não temos nada além da força do samba, mas temos um respeito tremendo.

Durante mais ou menos uns seis meses, eu ia para a Casa Civil quase todos os dias. Almoçava pela rua, ficava lá o dia inteiro tentando resolver a situação. Tinha audiências para falar sobre o acontecido. Ia para a Câmara dos Vereadores, para a Assembléia. Minha cara estava lá todos os dias, da minha mulher também. Na época, teve um tal de Moacyr, da Vila Maria, que me ajudou muito.
Justino me ajudou, Dr. Lucrécio, Doutor Marioto, o Pestana alguns vereadores também ajudaram. Até que, em 78, quase 79, fomos liberados, mas custou. Esse negócio de escola de samba não é só flores não, têm os espinhos também. O bom é que hoje nós temos um nome terrível. Não temos dinheiro, não temos nada além da força do samba, mas temos um respeito tremendo.

O sambódromo foi inaugurado em 90, nós desfilamos lá em 91, mas até a construção da passarela teve muita briga.

Em 92, fui candidato a vereador pelo PPS, e sei que numa paulada acabaria entrando. Não num partido fraco como o que entrei. Que na verdade não entrei, fui meio empurrado. Mas como eu precisava fazer a praça do lado da quadra, o barracão da escola, pensei que ser candidato poderia ajudar. E ter sido candidato acabou valendo.
Tudo vale, vale o sacrifício, é uma seqüência. Vale a disputa, vale tudo, só não vale é ser só pancada. Todas as escolas de samba têm os problemas delas, eu tive problemas muito difíceis, e mesmo com tudo isso ajudei muito, colaborei muito com a organização do carnaval em São Paulo.
Briguei para ter a sede da Liga, na Avenida Tiradentes. Fiz a briga toda junto com o Divino, que era presidente da UESP, e o Leandro de Itaquera, que na ocasião era da Liga, para termos hoje a Passarela do Samba Grande Otelo, que mudou a face do carnaval paulista. No terreno onde hoje é o Sambódromo era um pasto. Era um pasto onde nós guardávamos as alegorias velhas.
Já existia o Anhembi, mas também não era como hoje. O sambódromo foi inaugurado em 90, nós desfilamos lá em 91, mas até a construção da passarela teve muita briga. Às vezes encontro com alguns desses que quiseram ficar no meu caminho, uns já com 70, 75 anos, e eles dizem: "Orra Nenê, vocês venceram". E eu respondo: É, mas vocês deram cada bico, hein! Escola de samba é assim mesmo, e depois Deus sempre ajudou.
A nossa família é gente pobre, mas minha vida sempre foi dentro do samba. Já pegamos em muito dinheiro. Dinheiro que dava para fazer a vida, mas tudo sempre foi para a escola. Eu mesmo nunca passei necessidade por causa de dinheiro, porque sempre trabalhei muito e direito. O que vale é Deus dar saúde. Estando com saúde e tendo a cabeça para frente tudo vai bem. Se puder fazer o bem eu faço, se não puder, mal também não faço. Com certeza, muitas escolas viveram situações parecidas.
Hoje em dia, tem gente que acha até que pode comprar escola de samba. Até por isso já passamos.

Quiseram comprar a Nenê, mas isso não se vende.

Há alguns anos atrás, apareceu um sujeito aqui perguntando ao Betinho se ele não queria vender a Nenê da Vila Matilde para ele administrar. O Betinho respondeu que a escola não estava à venda, que isso não se vende. Que a escola é coisa do pai e da mãe dele, que ele se criou no meio. Que se for passar para alguém é de filho para neto, ou para amigo, companheiro que faz parte da história da escola.
Betinho Presidente da Nenê
Em 76, foi o primeiro ano que eu trouxe para a avenida uma mulata de biquíni, a Janice.

Em 76, foi o primeiro ano que eu trouxe para a avenida uma mulata de biquíni, a Janice. São Paulo não era acostumado com isso. Por aqui, aquilo ainda era novidade. Ela com aquele “corpão”, muito louca, e ainda por cima dando no pé...
Foi bonito de ver, o pessoal só toureando ela. Aquilo foi uma sensação, mas o desfile para nós, naquele ano, não estava fácil, tivemos problemas e desfilamos com a falta de sete alas. Eu pensei:
A mulher ta fazendo o maior sucesso, mas só isso não basta!
Do jeito que isso está, não vai dar certo. Pensei, ela está dando um show, mas se eu não mexer com a bateria também, não vai dar. Tínhamos poucas alas e tínhamos que fazer pelo menos uma hora de desfile.
Então o quê eu fiz? Para disfarçar a falta de alas eu coloquei a bateria na frente fazendo cobrinha, para marcar e para atrasar. A bateria ia pra lá e pra cá, ia comendo o tempo, devagar, em vez de ir direto.
Acabamos dando um show. Foi aí que o Vinícius de Moraes, assistindo ao desfile, ficou de pé e falou: "Uma escolinha mixuruca e uma bateria fora de série. Retiro o que disse sobre o túmulo", disse, se referindo à sua conhecida frase de que São Paulo era o túmulo do samba. Naquele ano ficamos em quinto lugar.
Quem levou o carnaval foi a Camisa Verde e Branca. Porém, esse episódio com o Vinícius, valeu o desfile.
Marcou, porque nós vínhamos num ritmo danado mesmo.

Tivemos os quatro maiores Mestres de Bateria de São Paulo.
Em termos de bateria nenhuma escola em São Paulo é como a nossa. Eu digo sem modéstia, tem baterias que nem chegam aos pés da Nenê. A nossa sempre foi de pegada, com uma negrada boa, senão, não vai, não adianta, se não tiver pelo menos 30% de crioulo, a bateria não anda. Mexer com os tambores... Um vem, bate um pouquinho, o outro responde, tem a ver com a negrada, parece que está no sangue. Fomos nós que introduzimos, em São Paulo, o andamento com a marcação do surdo, que hoje todas as escolas de samba do Brasil fazem.
Isso vem lá do Largo do Peixe. Quando nós fazíamos o samba lá no Largo, o Iaiá sempre dava a introdução com o cavaco, só que depois ele entrou para a polícia militar, e quase não podia tocar com a gente.
Então sem querer nós começamos a bater um surdo para fazer a introdução e isso acabou ficando. Outra coisa que colocamos foi à terceira batida.
Em São Paulo era só uma batida. Eu fui ao Rio e vi a batida da Portela e da Mangueira. Eles davam duas batidas e eu introduzi aqui a terceira batida. E tem o culungundum que o Paulistinha inventou, um ritmo meio africano. Além de tudo, ao longo da nossa história. Tivemos os quatro maiores Mestres de Bateria de São Paulo: Mestre Nicolau, o Lagrila, o Divino e o Claudemir.
E atualmente temos o Pascoal, que também não fica atrás.
Em 53, o Nicolau chegou a ganhar o Apito de Ouro, que ele nem guardou, depois de quinze dias vendeu, comprou um terno e o resto bebeu de cachaça.
Mas foi o maior apitador que eu tive. Ele ficou 14 anos Nenê, Mestre Lagrila também é grande.

Ultimamente nem temos tirado dez, (bateria) porque existe manipulação.
Ultimamente nem temos tirado dez, porque existe manipulação. Mas a alegria de fazer o carnaval passa por cima disso tudo, ela é imensa. Uma pessoa que nunca viveu isso não pode imaginar. É uma vida. A gente cai nela e não tem jeito de sair. É um vício. Na escola você é carnavalesco, sambista, folclorista, cantor, bailarino, tudo ao mesmo tempo. O carnaval mexe. Mexe com tudo isso e mexe com a gente, com o coração da gente. É muito bom! Ganhar então é melhor ainda.
Liga das Escolas de Samba

O ano que desfilamos com o enredo Rabo de Foguete, em 86, foi o ano da encrenca. Foi quando nasceu a Liga das Escolas de Samba. Nós vínhamos apertando tanto as escolas que faziam manipulação, que eles pularam fora do barco. Fundaram a Liga para tirar um pouco da nossa força, como tiraram. Porque quando nós ganhamos em 85, nós já vínhamos merecendo, tínhamos ganhado em 81, 82, perdemos em 83, e 84, mas quando foi em 85, arrebentamos. Quando ganhamos, eles ficaram loucos. Juntou os presidentes para tentar nos segurar de qualquer jeito. Porque não queriam aceitar uma escola de periferia com quase dez campeonatos. Porque existia discriminação. Quem era de periferia sempre ficava por baixo. Eles cansaram de falar mal da Zona Leste.
Só que hoje a Zona Leste deu a volta por cima. É uma região de respeito. O que muita gente não sabe, é que sem as escolas de periferia, eles nem existiriam, porque o carnaval é bem mais velho do que eles. Nós somos de um carnaval terrível, que era o carnaval da Vila Esperança.

Enquanto São Paulo dormia, a Vila Esperança fazia carnaval para São Paulo inteiro.

Enquanto São Paulo dormia, a Vila Esperança fazia carnaval para São Paulo inteiro. Isso muita gente não sabe. Em 86, nós íamos ganhar novamente, mas aí se juntaram os presidentes das maiores escolas de samba paulistas. E houve a manipulação. Chutaram o presidente da Liga, rasgaram nota. Nessa época minha mulher estava nas últimas, nós não podíamos nem brigar. Nem o Betinho, nem eu, nem a mulher, que estava no hospital. Ela morreu no dia 11 de abril, e tudo isso aconteceu no final de março. A briga durou uma semana.

O Betinho foi presidente de 83 a 85 da UESP.
Alguns já morreram, outros já perderam o mandato, mas estão aí. No final nós ficamos em terceiro lugar.
Em 87, o enredo foi Pernambuco Leão do Norte, da autoria de Miguel Rubio o MIGUELZINHO DA VILA.
Nesse ano, começaram a dizer que nós tínhamos que ir para a Liga das Escolas de Samba, mas nós ainda ficamos de fora. Estávamos na UESP. A UESP já tinha uma sede comprada pelo Betinho, que foi presidente de 83 a 85. O Betinho reformou a parte da frente do prédio e tinha um porão que queríamos reformar para fazer eventos, reunir as escolas.
Na época, o Betinho sofreu muita desilusão. E essa época foi difícil, sem dinheiro, em que ele deixou inclusive de fazer pela Nenê, para ajudar a todas as escolas fortalecendo a entidade. Porque eu sempre disse para ele que o carnaval de São Paulo precisa ter alguém que ajude, que tome à frente das coisas. Em 86/87, fizemos mais reformas na sede.
Nessa época o Eduardo Oliveira era o presidente e o Batista – da Passos de Ouro, que a pouco tempo foi vendida para a X-9 Paulistana - era o tesoureiro. Mas, quando foi em 88/89, já tinha tanta encrenca que nós não agüentamos mais, e, em 89, a Nenê se filiou à Liga das Escolas de Samba. O importante é que hoje a União das Escolas de Samba de São Paulo tem uma sede, uma das melhores sedes de entidade carnavalesca, um patrimônio do carnaval paulista. A Lea, presidente, fez outra reforma, que coloca a UESP à altura do ano 2000. É uma continuação do nosso trabalho, junto com outros companheiros, é claro, porque sozinho não se faz nada. Naquele ano, nosso enredo:- “Eu Tenho Origem”.
Quer dizer, voltamos para o quilombo, para a senzala. Ficamos em quarto lugar, e, quando foi em 90, com o enredo Respeito é Bom e Eu Gosto, quase que nos jogaram no buraco, porque ainda existia a bronca de 85 e nos não podíamos dar mancadas. Mas tivemos muitos problemas nesse desfile.

Um homenzinho, com personalidade pequena, por uma besteira, derruba uma montanha...
Nesse ano, tivemos um carnavalesco do Rio. O sujeito mandou uma carta dizendo ser o segundo Joãozinho Trinta, mas ele não era nem Joãozinho Trinta, nem Joãozinho Noventa... O Cara era um picareta. A questão é que houve um problema com ele na quadra, durante os ensaios. Ele foi desrespeitado por um sujeito e para nós expulsarmos o elemento íamos arrumar uma briga que podia até levar alguém para o outro mundo, e nós não podíamos chegar àquele ponto, pois era tudo carnaval, e resolvemos contornar. Se soubéssemos que ele ia ficar encolhido e depois ia procurar se vingar em cima do carnaval da escola, tínhamos resolvido. Mas não pensamos que fosse um homenzinho com personalidade pequena, que por causa de uma besteira, derruba uma montanha.

Mas, sozinho não se comanda nada.

As entidades dão muito problema, ainda existe muita politicagem, muita manipulação, mas não podemos ficar de fora. As entidades são importantes, mas precisa ter gente de cabeça à frente, gente de cabeça boa e aberta, não pode ser cabeça dura, tem que ter democracia.
É como ser presidente de escola.
Atualmente eu sou o presidente de honra da Nenê, o presidente executivo é o Betinho, é quem comanda tudo. E eu sempre aconselho a ele, que tem que abrir espaço para todo mundo. Não dá para comandar tudo sozinho; bater escanteio, subir de cabeça... Está certo que ele estudou agrimensura, se formou em advocacia, alem do mais é filho de samba, tem a teoria e a vivência dentro de casa. Mas, sozinho não se comanda nada.
Hoje o carnaval é bem melhor, mas tem essas coisas, muita politicagem. No futuro pode ser melhor ainda, com mais união entre as escolas, com o espaço de cada uma garantido. Não podemos esquecer que carnaval é antes de tudo recreação. Tem as famílias no meio e tem a comunidade que é a família maior.

-"Muita gente dizia que carnaval era só para malandro, coisa de preto, gente sem responsabilidade."

O futuro do pessoal mais velho das escolas é ser Embaixador do Samba, para passar a experiência adiante. O pessoal que tem toda uma história junto ao samba e as escolas de samba e ainda estão aí. Embaixador do samba é uma rapaziada da velha-guarda, nem todos muito velhos, mas aqueles mais ou menos fora da ativa, que já passaram dos seus cinqüenta, mas que já fizeram muita coisa pelo carnaval e pelo samba, tanto na harmonia, na bateria, no canto, na história, na divulgação de talentos, no trabalho de fazer com que as coisas cresçam. Pessoas que nunca se esconderam, que sempre deram as caras para falar sobre a cultura que é o carnaval. Nós sempre fizemos isso, sempre tivemos a cara-de-pau de falar de carnaval, quando muita gente dizia que carnaval era só para malandro, coisa de preto, gente sem responsabilidade.

A presença sempre firme do Presidente não pode estar de fora.
Quando o samba está escolhido, o carnavalesco começa a criar a história, os carros alegóricos, às fantasias. A gente não pára. Para nós o carnaval é o ano inteiro. Atualmente, na disputa do samba-enredo, em princípio, qualquer pessoa pode participar, mas O ideal é que os compositores tenham ligação com a escola. Normalmente já tem uma turma, o pessoal que já é calhado para isso. Hoje tem os carnavalescos, mas antigamente éramos nós que fazíamos tudo, bolávamos as idéias e já íamos logo para a prática. Agora o sistema é mais organizado, mas mesmo assim as coisas ainda são feitas na correria, pois o dinheiro sempre demora a sair. Vai se aproximando o carnaval e aí tem que ter concentração no Barracão é sempre uma correria. Alguns componentes da escola participam de tudo, mas a maioria dos foliões vem mesmo na hora, pega a fantasia e desfila. As escolas cresceram o jeito é administrar essas mudanças da melhor forma possível para o carnaval não perder o seu encanto. Foi tudo mudando aos poucos. Mas a maior dificuldade de fazer o carnaval ainda é a falta de dinheiro, a subvenção. O dinheiro e a estratégia. Tem que ter gente instruída para executar o trabalho. Tem que ter sorte de ter um bom carnavalesco, uma boa equipe de trabalho. Um bom enredo e um carnavalesco que saiba assimilar o enredo e colocar isso nas fantasias, nas alegorias, e é claro, uma boa bateria. Então você tem um quadro mais ou menos de nota dez. O resto é adjunto.
Mas a presença sempre firme do presidente não pode estar de fora. Nunca deixei de sair na escola, mesmo quando fui operado do joelho, em 95. Já desfilei de cadeira de rodas, de muleta. Esse problema de joelho era um problema antigo. De um tombo que levei com 12 anos e nunca liguei, porque quando se é jovem não se liga para nada.

Aprendemos muito com o carnaval do Rio.

Nós viemos de muitas histórias e passamos por muitos momentos do Brasil.
Tivemos coisas boas, como quando começamos, no final da década de 40. Era a época do Getúlio. Que veio pra consertar muita coisa. Até hoje têm muitas leis que foram do tempo dele, como a Carteira de Trabalho, a aposentadoria. Estava tudo começando, mas era uma época boa.
Dinheiro era difícil, mas nós fazíamos carnaval. Nessa época tinha um incentivo para as escolas contarem a história do Brasil nos seus enredos, falarem das nossas coisas. Isso foi muito bom.
No Rio, surgiram muitas coisas boas nesse período, sambas-enredos que marcaram. As escolas falaram de Monteiro Lobato, Tiradentes, Chica da Silva, a Guerra dos Guararapes. Aprendemos muito com o carnaval do Rio.
O carnaval sofre diretamente com as dificuldades que o povo vive.

Hoje a coisa está complicada.
A cerveja, por exemplo, até na época dos generais se vendia mais. Hoje está tudo difícil.
O Povo sem trabalho e sem dinheiro fica difícil até para fazer carnaval. O pessoal fica sem dinheiro para pagar a fantasia. O carnaval sofre diretamente com as dificuldades que o povo vive. Mas a gente vai pra cima, de qualquer jeito, não podemos parar. Se pararmos termina, morre, acaba a tradição, então vamos lutando.
Em algumas coisas ficou mais fácil. Por exemplo, encontramos materiais com mais facilidade. O pessoal tem outra cabeça também, não vai para a escola de qualquer jeito. Até para estampar um pano, antes, precisávamos pegar em revistas, ir ao Rio de Janeiro, precisávamos copiar alguma coisa. Hoje não, hoje aqui se inventa tudo. Vendemos mais camisetas das escolas do que o Rio. E para a televisão também é melhor, porque São Paulo tem um interior muito grande, então, o Ibope de São Paulo é mais forte.
O carnaval de São Paulo tem muito futuro e a Vila Matilde, depois do Jubileu de Ouro, é só partir para o Jubileu de Brilhante. Mais quarenta anos... Mas aí eu não agüento, ta louco!
Sempre respeitei muita a minha mulher. O homem que não se preza, que leva tudo na brincadeira, não tem respeito.

Sempre respeitei a minha mulher. Respeitei muito o Maria Tereza, ela me ajudava muito, nós éramos um casal que acho que foi Deus quem uniu. Não tinha história com cabrochas, as que queriam sair de rainha, eu tratava bem e só. Não tinha pegadas de namoro, porque além do mais, se tivesse, o problema era grande. O homem que não se preza, que leva tudo na brincadeira, não tem respeito. Mas agora estou viúvo...

-"Sessenta anos na Presidência de uma Escola de Samba é um marco na vida da gente."
As coisas eram mais ou menos assim mesmo. E escola de samba é tudo isso, as coisas boas e as coisas ruins que fazem parte da vida. O Justino é outro que não pode ser esquecido.
Com o Justino convivi 15 anos dentro da escola, na década mais difícil que tivemos. Foi um grande vice-presidente, e até hoje é um amigo 100%. Fiz o casamento dele na quadra, há uns vinte e cinco anos, e ele está casado até hoje.
Está afastado da quadra, teve outros interesses na vida, mas continua junto e sempre foi uma mão direita na escola.
Hoje se posso contar essa história, foi porque ele ajudou muito. Por isso, acho que estar a sessenta anos na presidência de uma escola de samba é um marco na vida da gente.
E isso só pode acontecer se fizer o trabalho com gosto!



Por Elizabeth Misciasci que assina o remake "Memórias do Seu Nenê da Vila Matilde" Revista zaP!
Seu Nenê Parte 1
Seu Nenê Parte 2
Seu Nenê Parte 3
Samba enredo Nenê 2009

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