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Alberto Peyrano Uma noite Memorável - PARTE 2


Por Alberto Peyrano - Coluna énfasis
“Dediquei-me a pensar em um conto, um conto que pudesse rivalizar com os que tinham-nos impulsionado a essa tarefa. Um conto que falasse dos misteriosos terrores de nossa natureza, e acordasse medos estremecedores, que deixasse ao leitor com temor de olhar para seu arredor, que paralisasse o sangue e acelerasse os latidos do coração. Se não conseguia esses resultados, meu conto de fantasmas seria indigno de seu nome”.
(Mary Shelley, Prólogo de Frankenstein “”)

Não foi tarefa fácil, para Mary Shelley, compor a complicada, profunda e transcendente estrutura, argumentativa e de conteúdo, de sua obra cume. Felizmente tinha a seu favor um valioso recurso: seu mundo interior. Ela mesma relata-o desta maneira: “Quando menina morei no campo e passei muito tempo na Escócia. As vezes fazia visitas às regiões mais pitorescas, mas minha residência habitual estava nas terras tristes e nuas que se estendem ao norte de Tay, perto de Dundee. Tristes e nuas as acho agora, ao recordá-las, mas não eram então para mim, porque resultaban-me um refúgio de liberdade e uma agradável região onde eu podia, longe de toda vigilância, bater papo com as criaturas criadas por minha fantasia.(...) Depois, minha vida se fez mais ativa e apareceu a realidade para remplazar à ficção”.

Não há dúvidas que a consigna de Lorde Byron fez ressoar nela o cordame de uma harpa longamente silenciada e, como marcada por um desígnio superior, respondeu à necessidade de tanger novamente o instrumento que, desde algum lugar de seu passado, reclamava seu atendimento.

É um fato conhecido que a Grã-Bretanha tem um clima mágico grávido de lendas, com uma mitologia própria que não pôde ter passado despercebida para a sensibilidade de Mary. Incubado em seu interior, o cosmos lendário da Inglaterra e Escócia bulia por projetar-se para a pena da escritora quem, ao receber o estímulo lançado por Byron, aciona o disparador fazendo-se cargo de uma tarefa a cumprir que coroou de glória seu propósito. Mas este fato teve todo um processo que poderíamos descrever como obsessivo e angustiante no espírito da moça. É óbvio que quando uma alma está chamada a transcender, a missão se incrusta nela, conscientemente, como uma cruz à que há que carregar até o fim.

Perseguida e controlada pelos colegas de veraneio, Mary não podia tolerar a vergonha de demonstrar seu fracasso os primeiros dias, pois a história requerida não aparecia e tudo o que se lhe ocorria era ao fim desprezado por ela mesma por considerá-lo vulgar, infantil ou passado de moda. “Eu sentia a vazia incapacidade de invenção, a maior desgraça que pode afetar um autor quando à suas ansiosas invocações responde só o nada. (...) Todas as manhãs vía-me obrigada a responder com uma mortificante negativa”.

Nos seus momentos de solidão, enfrentada ao portentoso desafio que carcomía seu cérebro, Mary desenvolveu pensamentos filosóficos que levaram-a se perguntar sobre a origem das coisas, eludindo os supostos e as carências explicativas das causas primeiras dos acontecimentos, numa tentativa por dar um armado lógico a seu trabalho. Somou seus agitados pensamentos ao que ouvia das conversas entre Shelley e Byron, quem passavam longas horas discutindo e trocando idéias sobre “a natureza do princípio da vida e das possibilidades de que chegue alguma vez a ser descoberto e dado a conhecer”. Assim, foram-se baralhando sobre a mesa interessantes cartas de um naipe maravilhosamente ilustrado com imagens de Darwin, o galvanismo, a eletricidade e os últimos avanços da Física.

Uma noite Memorável - PARTE 2 Talvez foi este o “clic” que Mary precisava para voltar àquele mundo da infância, quando a fantasia reinava em seu espírito. Essa noite, enquanto todos dormiam, a insônia lhe acordou imagens nas quais ela viu um “estudante de ciências impías ajoelhado junto de algo que tinha reunido. Vi elevar-se um horrível fantasma com figura de homem e depois, por obra de algum motor poderoso, dar sinais de vida e agitar-se com um movimento intranqüilo, quase como de um ser vivo”. Ao instante reflexionou sobre o Homem emulando a Deus, gerador de uma criatura a sua imagem e semelhança, e pensou no sentimento de terror que deve invadir àquele que tenha conseguido essa consciência, mediante a qual, o humano criador “fugiria horrorizado de sua horrível obra, desejando que, abandonado a si só, apagasse-se a ligeira luz de vida por ele comunicada. (...) Dorme, mas não demora em acordar e vê que aquilo está em pé junto ao leito, abre as cortinas e o olha com olhos amarelos e acuosos mas investigantes”.

Na manhã seguinte, Mary anunciou que tinha pensado um conto. As primeiras palavras desse relato foram transladadas depois ao capítulo V de sua famosa novela: “Numa lúgubre noite de novembro...”. Completou o livro durante todo o ano de 1817 e foi publicado em janeiro de 1818.

Antes de abordar o comentário sobre a ópera prima desta escritora inglesa, é necessario agregar, para arredondar a nossa história, o final destes quatro destinos que uma vez reuniram-se para se encontrar com outra dimensão humana.

John Polidori foi deixado sem trabalho por Lorde Byron e sua vida entrou em decadência, até que decidiu envenenar-se ingerindo ácido prúsico em 1821, quando só contava 26 anos. Seu romance “O Vampiro” surgido do desafio byroniano, é considerado o pioneiro no gênero na Inglaterra e, posteriormente, foi a fonte de inspiração do irlandês Bram Stoker para escrever sua famosa obra “Drácula”, quem depositou na figura histórica do líder romeno Vlad Tepes as condições do não-morto que admiravelmente tinha descrito primeiro Polidori.

Lorde Byron continuou sua amizade com Shelley até a inesperada morte deste em 1822, ao ano seguinte do suicídio de Polidori. Depois, viajou a Grécia para lutar contra os turcos e morreu nesse país, doente de malária, aos 36 anos de idade.

Percy Shelley, pouco antes dos 30 anos, faleceu em um naufrágio. Seu corpo foi devolvido pelo mar dez dias depois e a mesma Mary o fez incinerar na praia onde foi encontrado.

Quanto a Mary, depois de casar-se com Shelley, teve três filhos dos quais apenas sobreviveu um. Quando ela enviuvou dedicou-se a editar e publicar a obra do seu marido, escreveu mais duas novelas e levou uma vida muito calma até sua morte, ocasionada por câncer cerebral, aos 53 anos.

O tema central do romance “Frankenstein” é a criação de um humanóide por um cientista. Isto resultaria muito simplista, se nos atemos literalmente ao exposto, enquanto não indagamos nas causas que levaram a esse fato, explicadas pelo mesmo protagonista do relato, o Dr. Víctor Frankenstein, quem criticando à ciência de sua época e aprofundando nos estudos alquímicos de Cornelius Agrippa, Paracelso e Alberto Magno, declara: “Quanto mais tenha-se feito, mais, bem mais tenho de fazer eu. Seguindo as impressões já marcadas, abrirei novos caminhos, explorarei poderes desconhecidos e revelarei ao mundo os mistérios mais profundos da Criação”.

Há um contínuo ir e vir pelo conhecimento no caminho do Víctor, aparecem assim seus professores aliados e aqueles detratores que não aceitam a antiga ciência, suas lutas internas por não acatar os mandatos de seus maiores e mestres e, boiando em todo este palco, seu arribe ao segredo mais ansiado: a chave que lhe permitirá abrir a porta da vida num ser inerte. Mas, para alcançar com sucesso esta meta, não podia ignorar um passo: “Para conhecer as causas da vida devermos travar conhecimento primeiro com a morte. Aprofundei a anatomia, mas não bastava com ela, e devi observar também a ruína e a corrupção do corpo humano”. Localiza-se assim na metade de um eixo perigoso cujos pólos faziam parte de um mesmo fato: a vida mesma.

A partir destes preliminares e quase consumando sua obra, a sensatez do Víctor vai dando passo para uma idéia obsessiva: ser ele, na sua obra, como Deus mesmo. “A vida e a morte me pareciam objetivos ideais, aos que chegaria sendo eu o primeiro para derramar um toque de luz sobre nosso escuro mundo. Uma nova espécie adoraria-me como seu criador, muitas pessoas felizes e boas deveriam-me seu ser, nenhum pai poderia reclamar a gratidão de seus filhos como eu a deles. Continuando com estas reflexões, pensei que podia-se dar vida à matéria inerte, e assim poderia (...) renovar a vida nos corpos aos que a morte tinha condenado à podridão”.

Mas esse “Deus”, uma vez consumado o fato de sua criação única, arrepende-se de sua ação, ainda que tarde: a criatura cobrou vida e já nada pode controlá-la. É “Frankenstein” um remedo do mito bíblico? Tentou Mary Shelley trazer à consciência dos homens sua finitude perante um deus que não pensava o que fazia, nem suas conseqüências, em um soberbo ato de criação?

Não pode chamar-se a “Frankestein” de romance gótico ou de terror, como habitualmente se tem classificado, senão que poderíamos aproxima-lo de algo como se fosse um antecipo do que atualmente seria o gênero da ficção científica. Mas pensar em um romance com este argumento, de conteúdos tão profundos, nascido de uma mente de dezoito anos como a de Mary quando a escreveu, fazem-nos reflexionar mais profundamente ainda do que ela quis dizer-lhe ao homem de seu tempo com este livro. “Frankenstein” leva como subtítulo “O moderno Prometeu” que, a meu entender e compreensão, deveu ser este o verdadeiro nome do livro por toda a sobrecarga implícita que tem e que conforma o núcleo central da mensagem.

Há como um acordar de Mary perante sua obra mesmo, anos mais tarde, quando a corrige para outra edição. Talvez por ter crescido, por ter sofrido, por ter amadurescido em pensamento e idéias, em 1831 assombra-se do que escreveu e pregunta-se a si mesma, no prólogo: “Como a mim, então tão novinha, criei –e cheguei a desenvolver- uma idéia tão horrível?”.

De fato, causa assombro a perfeição com que Mary enlaçou o sobrenatural e horrendo com o científico, mas em realidade o que ocorreu é que convergiram nela dois modelos de pensamento: por um lado o empirismo científico do século XVIII e pelo outro a reação ao mesmo, criativa, que se deu no século XIX. Daí que o resultado, a simples vista, além de gerar horror ou pânico, acorda um sentido de alarme e reflexão diante da possibilidade que o Homem, num futuro, possa ficar submetido pela tecnologia, como realmente está acontecendo neste presente do século XXI que devemos viver. E se a mesma Mary asombra-se de seu resultado, é que ela não era consciente que estava dando, com sua obra, uma mensagem à Humanidade que escapava às suas possibilidades de entendimento.

Os dois personagens principias de “Frankenstein” –Víctor e o monstro- resultam só um, fortemente unidos para sempre. Portanto são seres opostos e complementares. O mesmo subtítulo também leva este duplo jogo de interpretação, pois se considerarmos como Prometeu ao Víctor, tendo em suas mãos o fogo da Vida ou do Conhecimento, o Monstro mesmo assume também sua condição de Prometeu desde o momento mesmo que começa a existir, quando começa a se sentir “só, miseravelmente só” e rebela-se contra seu criador.

Há diálogos memoráveis entre Víctor e o monstro, que transcendem a mera história argumentável e depositam-se na condição humana mesmo: “Acusas-me de assassinato –reprocha-lhe o monstro ao seu criador- e no entanto destruirias, com a consciência calma, tua própria criatura”.

Também podemos observar ao longo de toda a ação, que a mesma é uma contínua perseguição entre ambas partes, carreira que se torna vertiginosa, contínua, que não permite perder o atendimento sobre o que está acontecendo mas ao mesmo tempo gerando um recurso assombroso em mãos de sua autora de dezoito anos: quem fora, num princípio, desmembrado e depois unido em nova vida por seu criador, resulta ser, como perseguidor e acosador, quem desmembra ao Víctor mentalmente conduzindo-o para um fatídico final. Loucura e vingança, ódio e ressentimento, desespero e angústia, são as emoções básicas que vão dando vida ao relato, emoções que quando estouram e se precipitam no duplo protagonista, atentam contra a lógica, o raciocínio, a sensatez e o equilíbrio intelectual.

Se Mary Shelley conseguiu que Víctor Frankenstein resultasse um símbolo da miséria humana e, como tal, um objeto de ódio, também é verdadeiro que ele foi vítima dessa mesma miséria humana e, como tal, objeto de compaixão. Por outro lado, Mary submete ao leitor a um jogo de alternâncias inevitáveis pois se sua curiosidade se enlaça com todos os avanços que Víctor vai tendo em seus objetivos e depois em suas desgraças na primeira parte do livro, o mesmo leitor se solidariza depois com o monstro, quando este conta a história de suas lutas e de seus progressos.

Não poderíamos deixar de aplaudir o intenso final com que Mary fecha definitivamente seu livro: a morte do Víctor e o pranto desconsolado da sua criatura, como se esta cena fosse um final operístico grandioso, no meio do ermo, da paisagem imensa, fria e branca das Ilhas Orcadas, final magistralmente descrito em breves palavras pela escritora escocesa Muriel Spark, biógrafa e crítica de Mary Shelley: “...a estrutura fecha-se só com a morte natural de Víctor Frankenstein e a representação do monstro se inclinando com imensa dor sobre ele. Vão-se convertendo o um no outro, se imbricando em uma submissão definitiva”.

© Alberto Peyrano
Buenos Aires, Argentina, abril 2009

Parte I.

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