A carioca Márcia é
outra brasileira que sofre com a violência
doméstica. Há algumas semanas,
ela telefonou para esta que vos escreve com
uma voz embargada e disse: "Gostaria
de deixar um alerta às mulheres brasileiras
que aqui se encontram e que não sabem
a quem recorrer: não podemos ficar
vivendo em um mundo obscuro, está na
hora de procurarmos uma maneira de nos defendermos.
Tem muito homem safado aqui se aproveitando
das mulheres carentes que estão trabalhando
e lutando. Acho que a imprensa poderia de
alguma forma auxiliar, através de informações,
o que poderíamos fazer para pedir socorro."
A violência emocional
é tão estarrecedora quanto física.
Vejam o caso de Maria, que reside em Deerfield
Beach, trabalha como ‘housekeeper’
e limpa três casas diariamente para
poder sobreviver. A situação
é mais ou menos similar. " Eu
tenho que me virar, trabalho 6 dias na semana
para poder pagar as contas no final do mês.
Quando chego em casa tenho que cozinhar, passar,
lavar, ir ao supermercado e ainda buscar a
minha filha de 1 ano, que fica o dia todo
na babá. E sofro constantes ameaças
de meu marido. Ele acha que eu deveria trabalhar
sete dias e que os $ 700,00 dólares
que ganho por semana não são
o suficiente. Engraçado é que
ele trabalha somente duas noites por semana
como garçon e fica dormindo o dia todo.
Me ameaça quando reclamo e diz que
na mulher dele, quem manda é ele. Já
não sei mais o que fazer, tenho medo
dele, mas não possuo ninguém
mais aqui neste País a não ser
ele. Minha vida se tornou um inferno...não
sei mais o que é sorrir com espontaneidade",
disse Maria, mineira de Esplendor, que é
casada há dois anos.
Já Lúcia, paulista,
conheceu Roberto, de 25 anos, em uma casa
noturna em Pompano Beach. Com 38 anos e sozinha
aqui nos EUA, a carência de um companheiro
e a necessidade de economizar fez com que
ela começasse a dividir seu pequeno
apartamento de um quarto em Lighthouse Point
com Roberto. Nos primeiros meses, tudo correu
bem, Roberto se dizia apaixonado e pagava
sua parte no aluguel. Mas apenas cinco meses
depois, Roberto ameaça Lúcia,
já não paga mais o aluguel,
se recusa a sair do apartamento e abusa física
e emocionalmente dela. Diz que Lúcia
é velha, que ninguém mais irá
olhar para ela e que ela tirou a sorte grande
por ter um homem ao lado dela. Lúcia
tentou expulsá-lo do apartamento e
o resultado foi ter seu braço torcido,
o que a levou a procurar a sala de emergência
do hospital de Pompano Beach com a desculpa
de que tinha caído da escada.
Este é um tema um tanto
controverso, mas ao mesmo tempo é algo
que não podemos omitir. São
casos assim que estão acontecendo entre
a colônia brasileira que clamam por
solução. Por exemplo, no Brasil,
há a Delegacia da Mulher, que serve
como um ponto de refúgio para aquelas
que não suportam mais os abusos. Aqui
há vários órgãos
governamentais e filantrópicos que
auxiliam estas vítimas. Mas através
de uma pesquisa efetuada em Broward, Palm
Beach e Miami/Dade, não há nenhum
que possua psicólogo ou pessoal treinado
que fale português. Além disso,
as mulheres que sofrem abusos são aquelas
que, geralmente, desconhecem a língua
inglesa, que desconhecem as leis dos EUA,
e por estes motivos se tornam mais vulneráveis.
Para uma colônia que
vem crescendo a olhos vistos e que quer ser
reconhecida como tal, está na hora
de termos um local. Um centro de apoio, que
auxilie estas vítimas e que possa fornecer
informações referentes aos seus
direitos de acordo com a lei americana ou
oferecer uma lista de locais existentes aqui
no Sul da Flórida onde estas pessoas
possam procurar abrigo em caso de perigo.
Algumas igrejas locais possuem ‘conselheiros’
que de alguma forma amenizam o sofrimento
das vítimas, mas isto só não
basta.