pois
se houvesse serviço rotineiro e
acessível de táxi aéreo,
não funcionária naquelas
circunstancias, nem tão pouco existiria
pista de pouso o bastante.
Com
a chegada de um helicóptero, pude
prever que os compromissos inadiáveis,
seria a partir daquele momento, uma negativa
irreversível em minhas finanças.
Não percebia que estava entrando
involuntariamente em estado de introspecção,
(pra não dizer desespero) era o
meu eu se autoquestionando de forma interminável
e confusa.
-Se São Paulo é o mais rico
e produtivo estado brasileiro, que sabemos
serem as cifras que atestam a vocação
dos trabalhadores para a procura da cidade,
procura esta com finalidade do progresso
pessoal e familiar, onde estariam os eleitos,
chamados representantes do povo, para
providenciar a liberação
rápida da movimentada via de acesso?
O já caótico transito, diante
da condição de estar literalmente
parado, transformara-se em fato inenarrável.
Não havia como ignorar o todo.
A ambulância, subindo e descendo
o canteiro, na ânsia de atravessar,
chacoalhava e trepidava no asfalto, reproduzindo
a pressa somada a aflição
do motorista. Minha preocupação
com o “suposto provável”
acidente do “para para para”
a frente, agora se multiplicava. Como
estaria o coitado do paciente da ambulância?
Passei uns longos minutos, imaginando...
E se a pobre pessoa tivesse fraturas,
estaria sofrendo ainda mais com tanto
balanço, e assim eu também
sofria, mesmo que solitária e antecipadamente.
O helicóptero já se afastava,
e cada vez mais, eu me perguntava:
–Onde estariam os que deveriam resolver
o imenso transtorno? -Será que
estariam ocupados com problemas pessoais,
ou preocupados com todas as atenções
voltadas para aquilo tudo?
Com uma dose de intuição
e alguma experiência, cheguei à
conclusão que ocupados e preocupados
deveriam estar e muito, mas certamente
não seria para com os problemas
da população... Afinal,
São Paulo é uma cidade que
se renova dia a dia, ao longo de suas
avenidas, viaduto e com as constantes
multiplicações dos grandes
edifícios certamente necessita-se
de total empenho em arrecadações,
principalmente em ano de eleições.
Bem, mas isso não é assunto
regional, aliás, as origens destes
tipos de preocupações, devem
vir ‘de cima’, afinal os impostos
existentes, precisam ser fiscalizados
em todo o País.
Fiscalização esta, que exige
sempre esmero, dedicação
e total competência, tanto dos órgãos
fiscalizadores, como e principalmente
dos fiscais. Pois, para que o povo não
se torne inadimplente nem se percam as
informações, é necessário
constante atenção! -Afinal,
como se pode garantir o enchimento dos
cofres públicos, se não
houver trabalho árduo e preciso
para ao final objetivo? (Diga-se de passagem,
que se tratando de credor, nossos governantes
encontram os melhores profissionais do
ramo. Exímios funcionários,
donos da competência plena, que
se flagrados em ação, despertaria
inveja ao FBI. Mérito pela dedicação
e rapidez em localizar e “punir”
os devedores, principalmente em ano político).
Mas o povo não pode nada! Mesmo
porque a garantia dos direitos, quase
sempre, são apenas teorias.
Tente marcar uma hora com um político,
um assessor ou pessoa com poder e autoridade
para resolver, ou ajudar, por exemplo,
o seu IPTU atrasado. A grande maioria,
nem saberá da sua investida, muito
provavelmente, terá breve atenção
da atendente de balcão de um departamento
qualquer, menos o que estiver procurando.
Com muita sorte, poderá receber
um pouco de afeto, da estagiaria da assistente
da secretária Junior. Talvez, ela
não tenha sido contagiada ainda,
pelo vírus da má vontade.
E se assim for, ela lhe dará a
esperança de um retorno... Mas
não se iluda! Nem sempre, a esperança
é a última que morre...
-“Para para para”... Estávamos
eu com meus longos e confusos pensamentos
novamente. Também pudera, pra quem
não saia do lugar, sem tempo pra
chegar ao meu destino, não restava
o que fazer só pensar ao ouvindo
o passa-passa do “para para para”.
Tempo... Talvez seja esta uma das razões
de um latente abandono social:- A falta
de tempo!
Obviamente estas eram as informações
que o meu eu buscava! Depois daquela gritaria
de para para para e diante dos fatos,
deduzi que talvez não fosse um
acidente, quem sabe não se tratava
de mais algum “assalto rotineiro
no farol”... - Por presumir, eu
ia me revoltando com aquela barbaridade,
mas qual é o brasileiro que não
se revolta com tanta miséria e
conseqüente violência, principalmente
quando percebe que as soluções
nunca são colocadas em pratica,
mas os carnês e impostos são
pontuais.
Com muita sede, mais sem direito de ir
e vir, literalmente a canto algum, deu
vazão pra observação,
e assim, passei os olhos ao meu redor.
Pude constatar o desgaste geral, aquela
inércia permanente, era visível
nos semblantes cansados dos companheiros
de jornada. As fisionomias demonstravam
que meus ‘parceiros’ estavam
tomados de péssimos sentimentos
diante das circunstancias, enquanto eu
delirava na miragem de um sorveteiro.
É sempre assim... “Quando
não se quer, se encontra aos montes”...
Após a espera de quase duas horas,
entre o vario de pensamentos, ao som de
fundo das mais variadas buzinas, e muita
sede, finalmente, tive a breve sensação
do efeito de um alvará de soltura,
em direção a liberdade.
Era o transito, que muito lentamente começava
a fluir.
Tanto tempo parada, com sede, calor, pensando
bobagens, sem honrar meu compromisso,
sem dar ao menos uma satisfação,
preocupada com o infeliz da ambulância,
e supondo o que teria acontecido à
frente, ia despertando em mim, uma terrível
sensação de fracasso.
Suspirando, exclamei chorosa em vóz
alta: -"Daria meu reino por um sorvete"!
Muito chateada pelas perdas e certeiros
prejuízos, já seguindo com
o propósito de fazer a conversão
e retornar, pude então perceber
o que havia ocorrido e parado o transito
por quase duas horas...
-“Para para para! Ô Tonhão...
Faz assim não! Se insistir em colocar
esse painel torto, o fundo do cenário
‘não vai dá samba’
cara... Olha a ‘responsa’
isso vai pro ar”...
Enquanto o que mandava, gritava de cima
do andaime, o tal Tonhão de dentro
da cabine, operava a máquina e
pingava de suor. Uma vez ou outra ele
respondia, porém a concentração
do Tonhão estava mesmo na alavanca.
Impossível passar despercebidamente,
não pelo guindaste móvel,
nem tão pouco pelos gritos do mandante,
que já era familiar aos meus ouvidos,
mas sim, pela cena hilária e sem
dúvidas, inesquecível!
Por bem pouco, não cedi ao sentimento,
mas foi necessário tapar a boca
com mão. Aquele momento foi de
autopunição. Ainda creio
que a educação, calou a
iracúndia, que de mim se apossou,
pois queria muito abrir o vidro e soltar
três palavrinhas... Afrontosas sim,
mas apenas três palavrinhas... No
entanto, as engoli, e assisti um pouco
do espetáculo, assim como todos
os meus anônimos e desconhecidos
“companheiros” de estrada.
Porém, não imaginava o que
ainda me custaria à pausa forçada
sem opção.
Enquanto isso, o mandante gritava para,
para, para e segurando firme a alavanca,
Tonhão suava.
-“Para para para, mas pro meio,
pra direita, um milímetro pra cima,
tomba um pouco o lado esquerdo. Aí
Tonhão! Para, para para! Pode parar
nessa posição. O ‘almofadinha
no pisante lá no térreo’
fez sinal de positivo! Agora sim! Você
pode mandar a dona comadre assistir, e
não te preocupa que ‘não
vai fazer feio’ te dou minha palavra”.
Olhando com firmeza e seriedade para o
mandante que gritava, Tonhão nada
respondeu, secando a testa que suava.
Entre essas e outras, foi à vez
do ‘tal almofadinha’ eufórico
gritar: - “Para para, para! Valeu!
Vamos mudar que a tomada agora é
cem por cento do povão”.
Eu não poderia, nem tão
pouco conseguiria esquecer “tão
meigas e prosperas considerações”.
Ainda consigo sentir o calor que subiu
pelo meu corpo, esquentando tanto, que
parecia queimar, marcando meu rosto de
duradouro rubro. Sem dúvida, aquela
tarde, perpetuou. Penso que pela sede
e sem sorvete, absorvi sózinha
o comentado...
O
tamanho nervosismo, só me atrapalhava,
foi quando enfim descobri, o que sem noção
eu cantava:
"A
palavra ganhou vida, não sei nem
qual a razão, o que seria de todos,
dividido na nação, como
que profanada, desviou-se do mundão,
a praga que foi rogada veio em minha direção,
uma “profunda tomada”... Esta
sem repatição. Com a profunda
tomada que herdei, sem ter razão,
contemplada cem por cento, com a tomada
do povão".
Eu
cantarolava e o almofadinha falava.
Sensação de dever cumprido!
Plenamente satisfeito, demonstrava sorridente,
o tal “almofadinha estufada,”
que sem se intimidar, apenas determinava:-
“Vai pessoal, desarmando acampamento.
Agora, vamos ‘rodar’ do outro
lado da pista assim aproveitamos e em
mais uma hora e meia, a gente roda a cena
final, aproveitando já faremos
umas chamadas para o próximo horário
eleitoral”...
Com notório puxa-saquismo, abraçado
a um cidadão o então ‘almofadinha’
com a latinha na mão, erguendo
comemorava, o feito e a precisão.
Brindando em gargalhada, almofadinha e
candidato patrão, foi aí
que então nasceu, o melo da eleição.
Rindo muito, relembravam a tão
ousada ação. A maldade relembrada,
era pura diversão, palhaçada
planejada, sem qualquer preocupação,
já que a última tomada foi
só minha... E sem perdão.