Desde cedo, ela andava de um lado
á outro como se aguardasse
algo ou alguém. Quem conhecia
a dedicação e candura
no perfil de uma mulher, logo apostaria
que sua aflição era
no sentido de obter alguma notícia
do último trem... Até
que esgotadas todas as energias, parou
no canto da sala, se sentou, esticou
as pernas por sobre o sofá
e deu uma golada no chá morno,
depositado na mesinha ao lado da poltrona.
Para qualquer pessoa que a visse,
não perceberia jamais o que
já havia ocorrido e o que estaria
porvir...
A falta de iniciativa, parecia uma
overdose de preguiça, que nem
mesmo o som da música estridente
ao fundo do corredor, seria o bastante
para sacudir aquela inércia.
Assim passaram-se rapidamente quatro
horas, em que o CD automaticamente
se reproduzia, ligando e repetindo
copiosamente a música 'Glory
Road' de Richard Clapton.
Vez ou outra, Ana Julia dava a entender
que reagiria, saindo daquela inatividade
profunda que evidentemente invadia
o ambiente, afinal, os enteados estavam
prestes a voltar da escola e ao seu
redor, havia tudo por fazer.
Tanto tempo em introspecção
não ficava claro ao certo,
se estava refletindo ou dormindo de
olhos abertos...
Poucos foram os minutos passados para
que Laura e Roger entrassem jogando
as lancheiras e pulando ao som da
música que soava pela sala,
aquele barulho infantil, recheado
de gargalhadas e euforia, parecia
não surtir efeito em Ana Julia.
O ambiente havia se transformado em
uma festa para as crianças,
mas só depois de muita bagunça
e insistência foi que Ana Julia,
resolveu revivificar. E como se todos
estivessem de barriga cheia e a vida
ganha, riam muito, correndo pelo pequeno
espaço e atirando almofadas
uns nos outros.