e-Books Incríveis para Você! Leia o Boletim e Cadastre-se!
 
 
 Artigos, Contos, Crônicas por Raymundo Silveira
Volta à Página Anterior
Médico


Vestia um jaleco branco de mangas compridas cuja barra inferior chegava quase aos pés. Parecia um médico do hemisfério norte
no auge de um inverno rigoroso.

Coluna - Doutor, Conte Mais! Creative Commons License

Dr. Raymundo SilveiraDr. Raymundo Silveira

Aquele era o seu quinto vestibular. Entrar para uma faculdade de medicina era mais do que um sonho, um ideal, uma vocação – era uma obsessão. Os resultados dos testes vocacionais apontavam para outras carreiras. Mas ele não desistia. Os pais há muito tempo já vinham preocupados com aquilo. O psicólogo confirmou o diagnóstico de obsessão mórbida e indicou psicoterapia.


— Prefiro morrer a deixar de ser médico.


Durante a sexta tentativa conseguiu, enfim, ser aprovado no vestibular. Comemorou durante uma semana. Sentia-se a pessoa mais feliz da face da Terra. Dois meses depois teve início o ano letivo.

Médico  
No dia da primeira aula de Anatomia chegou com uma hora de antecedência. As portas ainda estavam fechadas. Além de terno e gravata vestia um jaleco branco de mangas compridas cuja barra inferior chegava quase aos pés. Parecia um médico do hemisfério norte no auge de um inverno rigoroso.

— Todos os alunos terão o seu próprio cadáver para dissecar em salas individuais. Você aí de sobretudo branco!

— Eu?

— Sim, o senhor mesmo.

Acompanhe o Chico Fuçura que é um dos auxiliares de necrópsias e o orientará durante os primeiros passos que não requerem maiores conhecimentos, a não ser a preparação das peças. Os outros deverão seguir para outras salas à medida que os nomes forem sendo citados. O procedimento inicial será idêntico. Os professores só participarão das demonstrações práticas quando o material já estiver devidamente preparado para o ensino propriamente dito. Um aviso importante! Uma vez estando no interior da morgue a porta será trancada por fora e só será aberta em caso de absoluta necessidade. Quem não estiver se sentindo bem acione um alarme cujo botão estará na parede à sua direita.

Quando se encontrava de pé, pronto para observar pela primeira vez aquilo que considerava o seu ideal, Chico Fuçura fez entrar a maca conduzindo um defunto de quatro dias e que não fora passado pelo formol nem posto na geladeira devido a um feriado prolongado.

A barriga há muito tempo já havia estourado e as tripas luziam e estufavam pra cima como se fossem horrendos balões enfeitando a mesa de aniversário de algum demônio.

As moscas-varejeiras eram as convidadas de honra e enxameavam sobre aquela coisa hedionda como abelhas numa colméia. A inchação do cadáver era tamanha que não havia mais forma de gente. Parecia uma posta descomunal de peixe podre.

  Anatomia
De cada buraco escorriam torrentes de gosmas horripilantes de tons variados de cores escuras que iam do marrom chocolate ao pardo dos molhos das galinhas à cabidela; do castanho escuro das telas de Münch, ao amarelo ocre das gemas de ovo podre; do verde-musgo ao verde-negro de bile da atrabílis.

Se todos os exemplares do mercado de peixes da cidade norueguesa de Bergen apodrecessem de uma só vez, não federiam tanto quanto aquela montanha de carne mole, pastosa, úmida e medonha.

Chico Fuçura olhou para o jovem doutor e percebeu que ele tapava o nariz com uma das mãos. O ventre e o tórax, à altura do diafragma subiam e desciam e os engulhos, que ele procurava evitar a todo custo, eram evidentes.


— Está se sentindo mal, doutor?


— Não. Apenas um pouco indisposto e nauseado, principalmente por causa deste cheiro, mas está tudo bem.


Chico Fuçura apanhou um facão amoladíssimo e começou a desconjuntar joelhos, cotovelos, tornozelos, braços e antebraços à medida que ia separando cada osso daquela carniça, como se estivesse descascando canas, até ficarem todos limpos como pedaços de marfim. A seguir, amontoava e socava aquelas pilhas de podridão em mais de meia dúzia de enormes sacos plásticos de lixo porque não cabiam todas num só

— Era isso mesmo que esperava ver doutor? Aprenda, porque o próximo será o seu.


O doutor agora não conseguia mais conter as golfadas de vômitos, mas mesmo assim não dizia nada.
A seguir, Chico Fuçura apanhou uma tesoura do tamanho daquelas de aparar a grama dos jardins, enterrou uma das pontas à altura da parte superior da barriga que ainda não havia estourado; abriu um rombo que ia do lugar onde talvez fosse a espinhela, até a espinha dorsal; dum lado e outro.

Quando meteu as mãos para arrancar os pulmões e o coração (para não estragar os ossos das costelas), ouviu um baque surdo. O doutor havia desabado. Chico Fuçura tirou as luvas e correu para o lance da escada onde ele estava estirado. Ainda pensou em ajudá-lo a se levantar, mas quando se lembrou da lama humana que cobria seu avental, máscara, gorro e botinas de borracha, decidiu acionar o alarme.


— Prefiro morrer a ser médico. Dizia o ex-futuro doutor quando lhe perguntavam como estavam os seus estudos acadêmicos.

Portal de Raymundo Silveira na Net: http://www.raymundosilveira.net

Colunas - Colunistas e Páginas Novas AQUI

Mais Artigos do Médico e Colunista Dr. Raymundo Silveira - Aqui

 

Medicina: -Violência pratica contra a Mulher- Emocionante Vale a pena ler aqui

Revista zaP! Artigos

Voltar aos Colunistas

Clipping

Seguir para o NEWS zaP!

  Volta à Página Anterior