
A culpa
é da bebida
Com os olhos voltados a mesa de jantar, Rosane
não reage diante da notícia
transmitida há pouco pelo noticiário
local. O semblante cansado, também
denota a irritação para com
o ilimitado e contínuo descaso do marido.
Porém,
antes que alguma voz quebrasse o profundo
silencio, Paulo Afonso deixa cair sobre a
mesa, o copo, com dois dedos de aguardente
e sem compostura, se entrega a uma escancarada
gargalhada.
Rosane,
tensa, procura disfarçar o rubro da
face diante do casal de amigos, que sem cerimônias,
desconversam, enquanto trêmula, ela
providencia a troca do prato e dos talheres.
Indiferente a qualquer manifestação,
Paulo Afonso se levanta e segue em direção
á cantoneira, onde esta uma garrafa
de Ballantines 30 Years Old, sem hesitar,
se serve de uma dose generosa de Whisky.
Com
a tolerância por um fio, Rosane o fita
revoltada, pronta para descarrilar seu repúdio,
mas logo é interceptada por Carmem
que desvia sua atenção para
o saboroso filé com molho madeira,
servido minutos antes.
Enquanto nasce um novo assunto que acaba por
entreter as amigas, Paulo Afonso, sem ninguém
para acompanhá-lo, se embebeda, na
mistura das bebidas expostas, tornando-se
uma desagradável presença.
Todos
procuram manter o bom nível das relações
em respeito e consideração à
anfitriã, que se desdobrou entre os
preparativos, a fim de promover um lindo jantar
de comemoração pelos quinze
anos de casamento.
Tentando
seguir a sua programação, tão
cuidadosamente planejada para a data festiva,
Rosane alerta Paulo Afonso, que a sobremesa
será servida, juntamente com a coqueluche
da festa, o bolo dos enamorados. Porém,
a despeito de seus cuidados, o marido embriagado,
ignora a data, a mulher e os presentes, erguendo
o copo do nada saúda seu time de futebol.
Naquele
momento sem nexo, Paulo Afonso percebe a falta
de reação dos convidados e como
se estivesse cheio de razão, chama
a atenção da mulher:
-Que é isso preta? Você não
vai brindar comigo?
Rosane visivelmente chateada pede licença
aos presentes e vai para a cozinha. Inconformado,
o marido a segue e completamente desorientado,
grita:
-Não está ouvindo? - É
com você que eu falo! - Complementa.
-O que é isso Paulo Afonso, pelo menos
hoje, você poderia ter se policiado.
-O que você quer dizer com policiado?
- Questiona.
-Poderia não ter bebido, ou pelo menos
não exagerado e misturado tanta porcaria.
-Porcaria? - Aonde tem porcaria? -Se tem alguma
porcaria aqui é você! -Argumenta
já em alto tom.
-Vamos parar por aqui, você esta começando
a gritar e nossos convidados estão
na sala, hoje era pra ser uma noite especial,
não vou discutir mais! -Lamenta Rosane,
que enxuga as lágrimas e se vira para
retornar a sala.
Sem
aceitar o fim da conversa, Paulo Afonso insiste
em discutir, mas é ignorado, então
puxa Rosane pelo braço e ao pé
do ouvido alerta em tom de ameaça:
-Escuta que eu estou falando com você...
Não me deixe mais irritado, senão
te quebro inteira sua insignificante.
Rosane
solta a mão que a segura e tentando
ser paciente ainda pede com jeito para que
o marido tenha consideração,
pelo menos diante das visitas. No entanto,
interpretada de forma avessa pelo companheiro
totalmente irracional, acreditando estar sendo
desrespeitado provoca neste uma transformação
imediata.
Segurando
seu rosto, aperta sua mandíbula berrando
palavrões e ameaças.
Já sem ter como driblar a situação,
Rosane tenta em vão se esquivar, enquanto
Paulo Afonso com olhar vidrado, lhe aperta
ainda mais a face.
No
outro cômodo, os amigos que tudo ouve,
se comunicam gesticulando, sem saberem qual
a postura correta a ser tomada, levando em
conta a alta dosagem alcoólica de Paulo
Afonso e relevando que afinal é uma
discussão de casal, sem razão
e sem sentido.
Mesmo com a tensão predominante do
ambiente, continuam apenas como ouvintes,
acreditando que o desacerto é meramente
em função da embriaguez e que
mais uns minutinhos, tudo volta ao normal,
assim, permanecem mudos e inertes.
Mas
para o marido de Rosane, há razões
e motivos diversos para que não finde
um atrito gerado do nada, afinal, distante
da lógica e com pensamento atordoado
e confuso, mal sabia onde estava e o porquê
de tamanho atrito.
As discussões com a mulher eram freqüentes,
contudo no mais puro anonimato, brigas isoladas
e choradas as escondidas, sem maiores conseqüências.
Isso, em razão da necessidade extrema
de se alcoolizar. Sem controle no consumo,
eram costumeiros os acessos de ira e quebra-quebra,
que logo se apagavam com uma boa dormida.
Talvez
por esta razão, Rosane mantinha as
aparências e se sujeitava á sorte,
acreditava que a mudança de comportamento
do marido era algo controlável e por
ser na discrição do lar, inexistiam
motivos para torná-lo de conhecimento
alheio ou passar adiante essa saga, já
que haviam se tornado cenas rápidas
e rotineiras. Mesmo porque, pra ela, a culpa
era tão sómente da bebida.
Mantendo
o equilíbrio, temendo estender aquela
situação constrangedora, Rosane
permaneceu á mercê das mãos
do marido, que com uma força descomunal
vez ou outra lhe apertava brutalmente as partes
mais salientes da face.
A
cada grito, ela balançava de forma
afirmativa a cabeça, como se concordasse
com cada prolação, obediência
era a chave da futura calmaria... Não
se tratava de submissão, em sua opinião
e por experiências constantes, sabia
que rebater, por mais natural que fosse não
era aquele o momento.
Permaneceram
naquela constrangedora situação
por aproximados quinze minutos, quando Paulo
Afonso, sentiu-se dono de uma verdade inexistente
e absurdamente criada do nada, com os olhos
esbugalhados e a baba caindo, abriu um sorriso
aparentemente doentio, como se tudo estivesse
perfeitamente normal, retornando á
sala.
O
casal de amigos, tolhidos e sem esboçar
reações, ocultaram o mal estar,
retomando ares de uma receptividade distante,
num assunto qualquer. Em seguida, Rosane adentra
o ambiente, visivelmente envergonhada, com
as marcas dos dedos do marido estampados em
feridas no rosto, esboçando aparência
de quem está totalmente sem graça
e infeliz. Contudo, ela não aceita
opiniões, pensando que é apenas
uma fraqueza do marido diante da dependencia
alcóolica.
Sendo
a culpa da bebida, não vislumbra maiores
conseqüências. E, acreditando estar
nela, apenas nela à superação
deste drama, não admite ajuda.
Sem
muito que contestar, uma vez que não
se permitiram sugestões, os convidados
anteciparam a ida, não havia razão
para experimentar o bolo enamorado, já
que entre tantos, Paulo Afonso adormeceu profundamente
na cadeira de balanços. Rosane não
os detém, nem tão pouco tenta
explicar o inexplicável, afinal, ser
feliz a “sua moda” é o
que importa... Então, acompanhando-os
até a porta,com um sorriso de quem
já esta refeita, exclama:- A culpa
é da bebida!
Depois,
abraça cada um demoradamente, limitando
sua vida, ao marido e a aguardente.
Por: Elizabeth Misciasci
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