-“Fiquei presa doze anos, por homicídio.
A vida na cadeia nos limita e quando saí
pude perceber que perdi a noção
de quem eu era. Minha liberdade parecia
algo impossível, e com o tempo
fui me adaptando à cadeia como
o próprio sistema nos condiciona.
Claro que assistia televisão, e
por meio dela, tinha uma noção
muito pequena do mundão aqui de
fora.
Num
presidio de mulheres, ou penitenciarias
femininas as encarceradas na maioria das
vezes, se limitam á vida atrás
das grades.
Talvez
eu tenha errado em não ler, como
muitas, já que tínhamos
a biblioteca e acesso aos livros.
Bem, na hora que meu nome foi gritado
na galeria, já fiquei com medo,
não sabia o porquê me requisitavam
naquele horário, porque as trancas
que se fecham as 18h00min já tinham
“batido” há muito,
até a contagem há havia
sido feita.
Quando nos chamam, principalmente depois
do horário da contagem é
pra ter receio... Mais na verdade, era
pra arrumar minhas coisas, porque meu
alvará de soltura havia sido expedido.
Na hora, não pensei nada, fiquei
em estado de choque e os meus pertences,
que não passavam de cartas e uma
bolsa velha, foi o que peguei com a maior
rapidez.
Não dá tempo de se despedir
das amigas que fazemos mais no meu caso,
por ser antiga na unidade, as meninas
gritavam felizes e puderam acenar pela
boca da cela. Berrei para as que ficaram
e sai... Na prisão, eles dão
com muita má vontade (nem sempre
lógico) um único telefonema
pra que alguém que a gente indique,
possa nos buscar. Como não pode
ser numero de telefone celular, dei o
telefone da minha cunhada. Ela nunca me
visitou, mais eu sabia que meu irmão
receberia o recado.
Sai com o uniforme da cadeia, um passe
de ônibus que um agente penitenciário
me deu e com “meus estimativos pertences”.
Já no portão da cadeia,
fiquei perdida entre o lado de dentro
e a rua. Tinha perdido a noção
das horas, porque na cadeia o tempo não
passa, e imaginava que seriam muitas as
horas que eu teria que esperar. Olhava
com vontade de andar, mais não
conseguia sair do lugar, o pânico
das luzes que ofuscavam minha vista, tão
acostumada com o amarelão do cárcere,
deixava a sensação estranha
de que eu não estava vivendo nada
daquilo. Pensei que tinha morrido e estava
em outra vida, cheguei até a pensar
em me jogar debaixo de um carro, pra ter
certeza que não era devaneio.
Até que com toda a grosseria normal
o guarda da portaria, mandou-me sentar
em outro lugar, ele não me queria
no portão. Tudo bem, faz parte.
Não vou dizer que fiquei infeliz
não, porque ao receber o estúpido
advertido, tive a certeza que estava de
fato livre.
Quando meu irmão chegou com a minha
cunhada, me abraçou e choramos,
mais não é assim com todas.
Muitas não conseguem avisar ninguém
e saem vagando pelas ruas, perdidas.
Meu irmão foi sensacional, mais
naquela noite não falei com a minha
mãe, (moramos hoje eu, ela e meu
irmão caçula) fui para a
casa do meu irmão. Ele pediu pizza,
quantos anos que eu não sabia o
que era uma fatia de pizza...
Tive receio do que me esperava, achava
que estava escrito na minha testa, ex-presidiária,
particularmente eu acreditava que teria
que dar explicações a cada
um que cruzasse meu caminho, afinal, doze
anos são doze anos.
Eu
pensava o que as pessoas vão dizer?
O que eu irei falar?
Fiquei inventando histórias pra
responder caso fosse questionada, mais
ninguém me perguntou nada! Afinal,
minha família e as pessoas próximas,
sabiam o que eu tinha feito e ninguém
ficou me apontando. Só, que eu
precisava sentir (e ao mesmo tempo não
queria) a reação de todos
que eu iria encontrar.
Imagina doze anos na prisão, não
sabia o que era um computador, uma câmera
digital, não imaginava o brilho
a mais que a cidade ganhou.
Tanto tempo presa, perdi minhas referencias
como ser humano, tinha pressa em resgatar
o tempo perdido, precisava regularizar
meus documentos, fazer um curso, arrumar
trabalho, recomeçar.
Como se fosse fácil... E eu ainda
tive sorte, porque minha formação
antes da prisão foi muito boa.
Recebi uma educação com
base e tentei não me influenciar
completamente pelo cárcere, mais
a maioria das mulheres que saem, encontra
outra realidade, sem perspectivas e abandono
mesmo. Não fui atrás das
velhas amizades, porque estas nunca me
escreveram e o fundo a gente sabe que
a discriminação acontece
e não podemos obrigar as pessoas
a entenderem.
Hoje, estou cursando secretariado e trabalhando
em uma loja de artigos importados mais
não foi fácil, passei pelo
tele marketing (quase todas passam) e
estou formando novo rol de amigos.
Dessas pessoas novas que me cercam e entraram
na minha vida, nunca revelei meu passado,
não tenho coragem. Pode ser que
daqui uns anos eu resolva mostrar a minha
cara e a minha história de vida,
sem receio, por enquanto ao posso. Infelizmente,
nem todos compreenderiam e eu não
tiro a razão de ninguém,
mais também não “estou
a fim” de dar mais explicações
ou passar por interrogatórios de
curiosos, correndo o risco ainda, de perder
a pouca oportunidade que a vida por si
só esta me dando.
Recomeçar é difícil
sim, quero frisar, eu sou uma
das pouquíssimas exceções
das que saem dos presídios depois
de cumprirem suas penas, e conseguem uma
oportunidade de resgate social. Ainda
não me encontrei completamente,
faço terapia e espero conquistar
muitas coisas sonhadas desde a infância.
Como minha experiência gostaria
de deixar uma mensagem, para que as mulheres,
principalmente as meninas, que estão
envolvidas com 'gente errada' não
pensem que alguns casos viram manchetes
de jornais e tornam umas acusadas famosas,
crente ser isso bacana. Não existe
lugar pior que cadeia, e 'Estrelas
do crime é pura ficção'...
Nada vale mais do que nossa liberdade
de ir e vir. Saibam que o que se perde
pelos anos na cadeia, não se recupera
jamais”.
LEIA
AQUI MAIS SOBRE PENITENCIÁRIAS
FEMININAS E MULHERES ENCARCERADAS
Presídios on-line
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Presídios Femininos
by Elizabeth
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