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  -Por que entrei no crime... "Depoimentos"  Volta à Página Anterior


Por: Elizabeth Misciasci

 

Aqui, alguns depoimentos de mulheres que depois de cumprirem suas penas, lamentávelmente acabaram voltando para os cárceres. Tentaremos publicar nas próximas edições, um número maior de casos, para que possamos mostrar a Realidade da maioria das Egressas e também alguns depoimentos daquelas que não são do crime e que por uma fatalidade, estão amargurando seus dias atrás das muralhas.




 



Entrevista com uma Reeducanda
- Por que e como entrei para o mundo do crime?

"Em forma de uma breve entrevista, fiz algumas perguntas a uma egressa, meu objetivo é tentar mostrar através dela, alguns fatores que podem levar uma mulher para o mundo do crime, como é adentrar as muralhas e lá sobreviver... Claro que todos os casos são diferenciados, mais vale a pena ler a história desta moça. Ainda "carregada" na gíria e usando algumas palavras que evito publicar, mesmo porque, nem todas usam mais o dialeto do cárcere, porém, pra não perder o teor de seu depoimento, deixei na íntegra e me antecipo a desculpar-me por determinados termos aqui transcritos. Aí vai... {Elizabeth Misciasci}

- Qual o seu nome?

- O que te levou a cometer crimes?

- Qual foi a sensação no momento em que teve a certeza de que ficaria presa?

- No que você pensou na hora da prisão?

- A mulher muda o hábito sexual dentro da cadeia?

- Quais as verdades e mentiras deste lugar?

*”-Bem, meu nome é Verônica e tentarei falar um pouco do que 'eu' fiz, vi e vivi.
A mulher sempre foi o que é hoje. Não nos modernizamos completamente e não aprendemos a fazer tudo o que fazemos hoje de repente. Sempre soubemos e nunca tivemos uma oportunidade.

A sociedade nos posicionava como tolinhas, bobinhas, covardes e imputava-nos a obrigação de sermos submissas.
Com o tempo criamos coragem e resolvemos lutar de igual para igual, a fim de conquistar um lugar que era nosso mais que pôr sermos tolinha, não poderíamos ocupar.

Sempre fomos capazes más a nós somente era dado o direito de ouvir e de pensar.
Hoje não a mulher já tem o poder das palavras e de se manifestar.
Prostitutas existiam mesmo na época de Cristo. Mulheres já se vendiam aos monarcas, já existia o homossexual, tanto de homens como de mulheres, como existia Sodoma e Gamorra.

Então a mulher não se transformou da noite para o dia...
Nas experiências que tive, conheci mulheres que praticaram os mais diversos tipos de crimes.

A mulher seja ela qual for mesmo as que estiveram ou ainda vivem no mundo do crime, antes de praticá-lo, tiveram seus sonhos, pleitearam formar uma família ajudar seus entes e muitas vezes frustradas se entregaram. Umas nos vícios outras no crime, já outras em fanatismo religioso, enfim...

Eu tinha uma amiga de cela que realizou seu sonho, casou-se e teve três filhos, só que depois dos sonhos vieram os pesadelos. Casou-se com um traficante e um dia a “casa caiu...” Ela não era diretamente do crime, apenas sabia dos atos ilícitos do marido e aceitava, permitindo que a droga fosse passada dentro de sua casa. Foi presa junto com o marido e assinou um “doze”. {Drogas /Entorpecentes}

Conheci muitos casos, uns tristes e outros bárbaros. Têm muita menina que para se livrar dos problemas de casa, como exemplo, o pai alcoólatra do tipo que espanca a mãe, sai de casa e tenta se virar como pode...Quando dá sorte, se acerta na vida e vira o orgulho da família. Porém, quando não se tem a mesma felicidade, cai na prostituição nas drogas ou no crime.

No meu caso foi “f....”, porque eu tive uma boa formação cheguei até a faculdade, só que eu não era cheia da “grana” como os outros colegas que conviviam comigo.
Daí um dia “pintou” um “tremendo lance”, era rolos na minha cabeça estava “clareando a minha luz” para tirar “o pé da lama”.

Na época, eu trabalhava como auxiliar de enfermagem. Comecei com pequenos roubos, uma caixa de remédios aqui, outra ali... A “achava o maior barato” a emoção do perigo e ainda ganhava um dinheiro extra, ’ porque eu conseguia vender o que eu furtava numa farmácia nas redondezas de casa.

O “camarada” da farmácia sabia de onde vinham as coisas e comprava assim mesmo.

Aliás, coisas roubadas sempre conseguem ser vendidas para os famosos “receptadores”, que sabem a origem do produto e pagando um preço muito mais baixo, comercializam, a fim de tirar vantagens, pôr isso vira uma bola de neve.

Bom lá no hospital em que eu trabalhava, conheci um “cabrinha”, ele tinha contatos com uns “gringos” que compravam crianças e mulheres que poderíamos dizer, serem rejeitados palas mães e pela sociedade, foi ai que entrei nessa. Era dinheiro alto e fácil, na minha cabeça eu estaria fazendo uma boa ação e ganhando uma boa grana, toda transação era feita com a autorização da própria mãe, que também levava o dela, e das mulheres, que queriam sair do Brasil e comercializar seus corpos se prostituindo, já que alegavam estar passando fome e não tendo retorno financeiro à prostituição aqui.

Na minha cabeça o fato das crianças e das mulheres, não terem uma vida digna e um futuro totalmente incerto me tranqüilizava, tirava qualquer tipo de dor, remorso de consciência.

Só que um dia uma “p...” que vendeu um filho, muito doido na “nóia” querendo comprar um “pico”, resolveu dar uma de arrependida, queria mais dinheiro, passando a nos “chantagear” e como não iríamos “comer chantagem de ninguém” a “lazarenta” foi na delegacia e deu queixa de seqüestro, para piorar ainda fez o nosso retrato falado.

A “Federal é “broca”, pegou agente no ato da entrega, armou a cama e fez a “fita cair”“. Fiquei oito anos no “fechado” sem poder fazer nada. Minha família deu assistência, não me cobraram nada más o silêncio e a vergonha falou mais alto em mm.

Tem família que abandona legal, não querem nem saber, más a minha foi ”super cem” chegou junto.

Na hora em que vi as algemas presas em meus braços, senti tanto medo que até hoje, nem sei explicar direito o tamanho do sentimento de inferioridade que me invadiu.

Quando fui para a cela e a noite começou a dar sinais de que existia, ai meu... Eu chorei... Chorei tanto... E juro, juro que me arrependi, pois foi naquele momento que eu descobri que, um pão com ovo ou até mesmo um simples pão seco, poderia ser a refeição mais requintada que um ser humano poderia ter quando se tem a liberdade.

Desejei qualquer coisa menos estar naquele lugar.

Acho que a minha ambição era grande mais não o bastante para viver na vida do crime, eu não tinha a menor condição de permanecer trancada num lugar daquele, cavado com as minhas próprias mãos.

Trabalho dignifica o homem claro que sim e é bonitos pensar assim e o certo, só que num País onde as oportunidades são tão mínimas e as perspectivas ainda menores, buscar trabalho para quem ainda não tem, chega a ser sinônimo de morrer de fome.

Dentro da cadeia a solidão bate de frente e ai as coisas começam a “rolar” na sua cabeça, de uma maneira muito doida. Tem mulher que sonha dia e noite em ganhar a liberdade e em voltar para o marido, amante namorado essas ai... Coitadas! Na maioria das vezes são “trouxas”. Pensam que o “cara” está lá esperando e mal sabem que já arrumaram mais de mil na rua. Nunca aparecem para visitar e a pobre infeliz acha que eles estão na maior ansiedade para vê-las de volta.

Essas com certeza se “masturbam” sozinhas. Existem as mulheres mais “fogosas”, mais quentes que não conseguem viver sem uma vida sexual ativa, não se importando se está transando com um homem ou com uma mulher, querem apenas amenizar a sua vida na cadeia. Não que esta tenha tendência ao lesbianismo, mais pôr ser a única maneira lá dentro da cadeia de sentir carinho e prazer...
Embora seja difícil de acreditar más na cadeia também existem mulheres inocentes, sabiam?

As mais espertas vão consolando... Consolando... Até que um belo dia “crawl”, elas passam a “lábia” e as bobinhas caem como “sapas”.
Parece incrível mais umas que assumem um papel de proteção tão fiel que cuidam de suas mulheres melhor que muitos homens, que se for necessário matam e morrem pôr elas.

Eu sempre respeitei todas as minhas companheiras e fui respeitada, não tive problemas desta natureza. O meu namorado foi preso comigo, mais depois de três meses parou de me escrever não procurei saber noticias, ouvi apenas alguns boatos e não me aprofundei, dizem que “rodou na cana” sei lá, fiquei na minha.

Tive uma grande amiga, mais tudo no respeito, amiga de verdade. Foi presa pôr estar num assalto a banco, na “fita” do assalto ela era o “cavalo”, que era o carro quente da fuga teve perseguição na fuga e uma “barca” deu uma fechada em seu carro e ela trocou tiros com a polícia, acertando um policial que morreu na hora.
Tuca é o nome dela, foi pega e não teve nenhum tipo de “benefício”, acertou um funcionário do estado se deu muito mal.

Está até hoje no fechado, ”cumprindo de ponta”. Jamais abandonei esta amiga, estou sempre mantendo contatos, tenho certeza de que quando ela sair vai seguir a vida nos “conformes”. Hoje sofro a discriminação da sociedade ela existe é real...

As pessoas não aceitam conviver normalmente com ex. – presidiárias, na teoria fala se muito, mais na prática, a credibilidade não existe. São raras as exceções. Ah! E digo mais, a mulher é muito mais discriminada do que o homem.

Hoje vou me virando vendendo roupas. Isso porque tenho que agradecer todo a participação e a força da minha vida a minha família que me deu condições de recomeçar e a tentar resgatar minha dignidade.

Na verdade tudo o que vocês ouvirem contar de ruim de uma cadeia podem acreditar mais tudo que for dito de bom tem que ser muito bem “checado”, porque se o inferno fosse bom e as passagens pelas cadeias fossem gratificantes, o Diabo jamais brigaria com Deus pelo poder do “Céu”.

Não sei se posso ajudar com o meu relato, porém, isso é tudo o que eu tenho a dizer de tudo que fiz e vi na vida do crime.

Fui condenada a oito anos de prisão no regime “fechado” por infringir a Lei em vários Artigos. Entre estes:- Art. 231 do Código Penal-“

Qual o maior problema que a mulher enquanto pessoa presa enfrenta?

A Solidão, o abandono e a falta de trabalho são agravantes conseqüentes que muitas vezes chegam posteriormente á prisão, se agravando quando esta toma ciência da sentença penal condenatória. Algumas reeducandas reclamam de sofrerem sevícias, contudo, a Mulher, normalmente se apresenta discreta para tratar o assunto, assim sendo, como ocorrem, aonde ocorrem e porque ocorrem, são assuntos até hoje NÃO PROVADOS e quando relatados, são de forma amigavelmente pessoal, o que não nos permite trair a ética e o respeito, para passar adiante algo que só poderá servir de especulações para muitos. Principalmente, porque algumas alegam o medo das represálias. O maior problema enfrentado pela mulher encarcerada é a condição em que ficam seus familiares após sua prisão (as que possuem). A separação dos filhos, para a maioria é uma das dificuldades mais complicadas e dolorosas, pois o processo de adaptação e superação dos problemas mostra-se em muitos casos irreversíveis.

A Mulher, enquanto casada ou amasiada, dificilmente consegue manter sua relação quando detida, pois se este, não for do crime, ou não tiver nenhum envolvimento com o delito da sua companheira em raríssimas exceções a amparam. Há casos, em que o parceiro, apóia visita, presta toda a assistência a Mulher, inclusive assume no lar o papel de pai/mãe. Porém, a maioria, ou nunca mais retorna, ou com o tempo vai se esquivando até o total esquecimento e abandono.

A falta de trabalho, também afeta de forma problemática, pois muitas dependem da ocupação não só para saírem da ociosidade, mas com uma atividade, adquirem capacitação profissional, ganham remissão de pena e o mais importante e necessário, conseguem oferecer uma pequena fonte de renda para o sustento de sua família".




-2º-"Venho de uma família muito humilde, sempre fomos muito pobres e pra agravar os problemas, a minha mãe é usuária de drogas, o que motivou pra que eu passesse grande parte dos meus dias, vendo ela pedir esmolas na rua pra manter principalmente seu vício. Tenho mais seis irmãos, cinco deles também são usuários de drogas. Quando eu fiz 13 anos, um homem muito mais velho, comprou bebidas pra minha mãe e enquanto ela se embriagava, ele disse que ia passear comigo e me estuprou espancando muito. Ninguém imagina o que sinto quando lembro de como fui violentada. Já aos 14 anos, tive uma filha, sendo então... Mãe solteira. Passado um tempo do nascimento dela, conheci um moço e parecia ser uma pessoa muito diferente das que normalmente haviam convivido comigo, achei que tinha então encontrado a felicidade. Fui morar com ele e tive mais quatro filhos. Convivemos oito anos em paz e depois foi só pancada, lágrima e dor. Ele começou a traficar, até quando a polícia chegou em casa, e para a minha surpresa, ele disse que a droga era toda minha. Aí fui presa no lugar dele e condenada a quatro anos. Saí do cárcere depois de dois anos e nove meses, mais não de liberdade plena e sim em condicional. Peguei meus cinco filhos que estavam com ele e fui morar com uma tia, num barracão perto da rodoviária velha. Porém, não conseguia arrumar emprego e ficava cada vez mais difícil sustentar meus filhos. Nunca tinha dinheiro mal sobrava para o leite ou a farinha de milho, então acabei ficando sem possibilidade pra ir assinar minha condicional,entre outros tantos problemas, então, vi tudo perdido, já sabia que poderia acabar presa e sem opção fui pro lado pior... Comecei de verdade a traficar. Não demorou nada e lá estava eu de novo atrás das grades e os meus filhos em um abrigo"T. M.A.J.

 


3 º-"Em 2004, conheci um rapaz mais jovem do que eu, ele com 25 anos de idade, eu com 34 e logo me apaixonei. Começamos a namorar e não demorou muito, passamos a viver juntos. Era uma união que parecia ser estável, no entanto, durou dois anos. No começo ele era usuário de drogas, mas só tive esta certeza com quatro meses de convivência debaixo do mesmo teto, depois, com desespero pra sustentar o vício, ele passou a traficar. No início, tive medo, porque já havia sido detida há muito tempo antes, quando furtei um anel de uma casa em que trabalhei, fiquei dois anos presa e jurei nunca mais fazer nada de errado, mais mesmo sabendo que poderia correr o risco ao lado do meu parceiro, aceitei o risco. Mas a cada dia ficava mais difícil, apesar do amor que sentia, essa situação começou a me incomodar. Ele prometia que ia parar e me pedia ajuda, mas não mudava. Decidi, então, dar um fim no relacionamento, mas ele não aceitou e em meio ao calor de uma discussão, ele pegou um facão e me deu vários golpes: treze ao todo, distribuídos na cabeça, no braço e no rosto. Naquele dia me fiz de morta para que ele parasse de me atacar, juro que pensei que não sobreviveria... Passei por muitas cirurgias, mas ainda assim, tive seqüelas. No final de 2006, por motivos que não justificam, mas sendo o que havia aprendido desta relação perturbada, passei a traficar drogas, e já neste ano, fui presa em flagrante. Hoje cumpro pena de oito anos e sete meses na Penita. Apesar de tudo o que aconteceu, procuro ficar bem psicologicamente e manter um bom convívio com as minhas companheiras. Aqui na unidade, eu trabalho, estudo, vou remindo a pena e aprendi a conviver com as minhas deficiências. Estou pagando pelo meu delito, na esperança de ter de volta a minha liberdade com uma nova vida. Desejo também que seja feita justiça ao meu agressor, que hoje continua em liberdade, impune aos erros que cometeu, e creio eu, sendo um grande risco (entre tantos) para outras mulheres".
N.R.S

 

 

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