"Muitos pacientes com
problemas de saúde mental ficam preocupados
numa hora como esta," diz uma psiquiatra,
entrevistada sob a condição
de não ter seu nome revelado.
Alvos da incompreensão
e mesmo de preconceito, os pacientes temem
o afastamento de amigos e a rejeição
de familiares. Não há pessoa
capaz de considerar "normal" o comportamento
de dois adultos que, conforme o relato da
polícia, foram capazes de estrangular
uma menina de 5 anos e depois jogá-la
pela janela do sexto andar de um edifício
de apartamentos.
A questão, que faz parte
dos manuais clássicos dos advogados
de defesa, é a seguinte: se não
é normal, esse comportamento reflete
uma doença? Em caso positivo, qual?
Para a maioria dos estudiosos deste reino
de belezas e horrores infinitos que é
a mente humana, pode-se distinguir com alguma
clareza o comportamento de um psicótico
do comportamento de uma pessoa comum.
Por definição,
o psicótico tem graus variados de alucinação.
Muitas vezes ouve vozes, imagina coisas que
não existem, constrói uma fantasia
e vai atrás dela. Não consegue
se manter apegado ao princípio de realidade.
De uma forma um tanto simplória, pode-se
dizer que o psicótico seria aquela
pessoa que conversa num universo interno,
que é sua referência e ao qual
presta contas, cultivando contatos esporádicos
com aquilo que os demais entendem como "realidade."
"Crimes com essa carga
de violência são tão chocantes
que muitas pessoas tendem a achar que não
podem ter sido cometidos por pessoas que consideramos
racionais", diz o psiquiatra Maurício
Garrote.
Com 25 anos de profissão,
Maurício Garrote dedicou a maior parte
de sua carreira ao tratamento de crianças
e adolescentes que são vítimas
de violência em famílias pobres
da periferia de São Paulo e cidades
vizinhas. Hoje monta um serviço preventivo
em cidades do Vale do Ribeira, uma das regiões
mais pobres do Estado.
"A verdade é que
a quase totalidade dos crimes domésticos
não tem nenhuma relação
com qualquer doença mental conhecida,"
diz ele.
Entrevistado com a condição
de não fazer análises específicas
sobre o pai e a madrasta de Isabella, "pois
nenhum profissional pode ter uma opinião
formada sem um contato direto e prolongado
com cada pessoa," Maurício Garrote
acha possível fazer uma distinção
entre indivíduos que, mesmo em condição
mental diferente, são capazes de cometer
crimes iguais.
Admite-se que psicóticos
sejam capazes de cometer homicídios,
ainda que os casos sejam raros. Ele próprio
chegou a atender uma senhora de formação
muito religiosa que, vítima daquele
trauma conhecido como "depressão
pós-parto", convenceu-se que o
demônio havia se apoderado da própria
filha – e decidiu matá-la para
proteger a família.
Outro caso envolve um casal
que responde a processo pela morte de um filho
recém-nascido. A investigação
policial acusa o pai de ter esmagado a cabeça
da criança contra a parede. A família
alega que ela caiu do beliche.
Para Maurício Garrote,
uma distinção importante envolve
o comportamento depois do crime. Uma mãe
convencida de que sua filha foi possuída
pelo demônio não esconde o que
fez. "Sente até orgulho disso,"
recorda. Já o casal acusado de matar
o próprio filho teve outra reação:
conta uma história que, mesmo sem fazer
nexo do ponto de vista da polícia,
trai a vontade de esconder suas responsabilidades
e escapar de uma condenação.
Isso sempre acontece nessas situações.
Em 1997, a delegada Elizabeth
Saito investigou um crime que não esquece
até hoje: a morte de um bebê
degolado dentro de casa por um sobrinho. Até
o final, o rapaz tentou convencer a polícia
de que o culpado era um assaltante, que ninguém
viu entrar nem sair de casa. Depois, confessou.
"Um psicótico dificilmente terá
um comportamento organizado para tentar sair
de uma situação como esta,"
diz Maurício Garrote.
Já um criminoso comum
procura se defender. Após o crime fica
preocupado em construir álibis, apagar
pistas e dificultar o trabalho de investigação
da polícia – e muitas vezes é
bem-sucedido. Outras vezes, não.
Embora a violência doméstica
tenha números assustadores, envolve
uma realidade muito difícil de ser
apurada por métodos tradicionais. Os
crimes estão ligados a adultos que,
muitas vezes, preferem manter um pacto de
cumplicidade para se proteger e manter a convivência
conjugal.
Raramente batem às portas
da polícia para fazer uma denúncia
contra o parceiro. Não há testemunhas
isentas. Mesmo vizinhos, que podem fazer relatos
com alguma proximidade, preferem não
se envolver. Os casos de estrupros regulares
e constantes costumam envolver pais e filhas
biológicas e raramente são denunciados
pela mãe.
A polícia não
tem elementos para contar exatamente como
foi a morte de Isabella – ao menos até
aqui. Mas acredita que se aproxima da apuração
da verdade em função de provas
que sinalizam o esforço do pai e da
madrasta para acobertar a violência
ocorrida no apartamento – como a limpeza
de sangue no tapete, na fralda e na cama.
A versão da polícia
é que a madrasta tenha estrangulado
a menina e que, convencido de que ela estava
morta, o pai decidiu jogá-la pela janela
– sem saber que a morte ocorreria no
chão, após da queda do sexto
andar. Depois, diz a investigação,
eles limparam o apartamento e apagaram as
provas.
Se isso for verdade, o que
ainda está para ser provado definitivamente,
"o casal acabou sendo apanhado porque
montou uma tentativa espetacular para acobertar
o primeiro crime, de agressão, e acabou
cometendo um segundo, o assassinato,"
observa o psiquiatra.
Em mais de duas décadas
às voltas com pacientes, vitimas e
cidadãos, Maurício Garrote está
convencido de que a maioria das crianças
não é alvo de crimes pré-meditados,
mas de acidentes ocorridos dentro de casa,
quando adultos perdem o controle sobre a própria
agressividade.
Esses impulsos, muitas vezes,
não têm uma origem fácil
de ser diagnosticada. Mas, muitas vezes, são
liberados em pessoas com dependência
de álcool e drogas, que podem ter reações
imprevisíveis seja num momento de alto
consumo – ou durante uma crise de abstinência.
Nas famílias de classe
média, onde ocorreram episódios
como o massacre dos pais de Suzane
Louise Von Richthofen Leia
sobre (casal Richthofen)
e a tortura sistemática da menor pela
empresária
Leia Sobre
o Caso Silvia Calabresi, de
Goiânia, funciona uma estrutura
de serviços privados – consultórios
psiquiatricos, advogados, escolas privadas
– que permite manter episódios
chocantes no silêncio de parentes e
amigos próximos.