
- “Cala a boca desgraçado,
se não te jogo no lixo!” - Esbravejava
ela, completamente irada.
A criança que não falava, demonstrava
que entendia perfeitamente o que a mãe
estava a dizer, cessando o choro imediatamente.
Já jogado em um pano sujo no chão,
Antonio Marcos brincava com um carrinho sem
rodas e uma bolinha de pano, feita de meia.
A criança praticamente sem roupas,
ficava em um canto da casa, que também
era visivelmente carente de higiene, pois
a mãe não se importava com muita
coisa, principalmente afazeres domésticos.
Depois do tradicional “gole de café”
e alguns cigarros, Lucileide resolveu preparar
um mingau de fubá para o menino que
nunca demonstrava estar com fome.
A mamadeira pronta e encardida, fora colocada
ao lado de Antonio Marcos, que aparentemente
amedrontado, esticou os bracinhos esforçadamente
e a pegou, colocando próxima ao seu
corpo, porém, não tomou.
Enquanto isso na cozinha, Lucileide, que já
havia consumido várias doses de cachaça
se preparava para almoçar. Servindo-se
em um prato de plástico, completamente
engordurado, a refeição era
composta de uma porção de arroz
e um pouco de abobrinha, sem refrigeração
alguma, estava lá, no mínimo
há uns dois dias.
Alcoolizada, alimentada e não muito
satisfeita, passou pelo cômodo onde
deixara Antonio Marcos, foi quando percebeu
que a mamadeira de mingau permanecia intacta.
Sem hesitar, e em meio a uma avalanche de
palavrões partiu para cima do menino
aos gritos, totalmente descontrolada, sacudia
a criança com tamanha força
que parecia querer desmontá-lo, ou
quebra-lo ao meio...
Os moradores da redondeza, mesmo omissos,
viviam agoniados com o tratamento desumano
e os constantes berros de Lucileide com o
filho. No entanto, em virtude das suspeitas
visitas que freqüentavam a casa da “mal
feitora” acabava por inibir qualquer
envolvimento, pois existia o medo de posteriores
represálias. Assim sendo, a vizinhança
mesmo repudiando contrariada, era unânime
em fazer de conta que nada viam ou ouviam...
Ninguém tinha coragem de se envolver,
nem denunciar, porém, a revolta diante
da intolerável crueldade, motivou a
mais antiga moradora do lugar, dona Mirtes,
a tomar uma postura e o apoio da comunidade,
foi geral.
Sem pedido de licença ou permissão,
a anciã, adentrou a casa de Lucileide
e se deparou com um insólito e inédito
cenário. Antes deste episódio,
dona Mirtes afirmava orgulhosa que aos 84
anos, já havia visto e vivido de tudo
na vida...
–“Eu estava enganada” -
Posteriori confessou.
Sem se preocupar com a presença da
vizinha, e depois de surrar Antonio Marcos,
Lucileide ignorou os apelos de dona Mirtes,
jogou o filho em uma bacia de água
gelada e saiu do cômodo.
O choro cessou, substituído pelo incontrolável
tremor dos dentinhos de leite daquela criança,
pressupondo todo o frio que sentia e que seus
lábios roxos salientavam, na pele já
seca e pálida.
Dona Mirtes, tratou de cuidar do menino, não
viu o tempo passar e lá ficou por horas
a fio.
Até que ele adormecesse, foi sua atenta
e carinhosa guardiã, com a sensação
de ter cumprido dentro do possível
sua missão, - momento de voltar pra
casa.
Já quase na porta de saída,
sentiu um forte cheiro de álcool, foi
então que percebeu Lucileide caída
numa poltrona, embriagadamente dormindo com
uma garrafa nas mãos, dona Mirtes indignada,
cansada e entristecida, foi embora.
Definitivamente, aquela mãe, repudiava
a maternidade e sua prole...
Lucileide quando ainda menina, fora vítima
de abuso sexual pelo tio, razão pela
qual escondeu a pior parte do ocorrido e nunca
pensou em denunciar quem a violentou. Na verdade,
tinha medo da tia que a criou, e por ser esta,
esposa de seu estuprador, jurou jamais revelar
a dor daquela atrocidade. Para agravar o drama,
a violência sofrida resultou em uma
indesejada gravidez. A tia, mulher severa,
beata fanática e conservadora, a fim
de preservar os costumes e nome da família,
lhe jogou na rua.
-“Tempos difíceis!”...
Um dia dormia ao relento, em outro arrumava
uma faxina e na maioria das vezes, almas bondosas
lhe estendiam as mãos em caridade.
Enfim, Antonio Marcos nasceu!
Apenas um bebezinho, sem qualquer responsabilidade
ou culpa, uma criança inocente e indefesa,
mais que seria punida a cada dia de sua vida,
simplesmente por ter nascido.
Na concepção de Lucileide, aquele
nato, não passava de um tormento, a
seqüela continuada de uma violência
vivida. Antonio Marcos, nada mais era que
um fardo pesado, o resultado podre de um fato,
uma dolorosa e doentia lembrança, assim,
aquela pequena criatura deveria e seria punida,
toda a responsabilidade da tormenta, fora
transferida ao filho indesejado.
Com o tempo, Lucileide passou a se prostituir
e se embebedar, até tornar-se dependente
do álcool, um litro de cachaça
pura, era aperitivo... Enquanto “afundava
a cara” na bebida, entregue a promiscuidade,
Antonio Marcos, se arrastava pela casa. Sobrevivendo
não se sabe como, sem nenhum cuidado,
o menino resistia, estando todo tempo sujo
e mal alimentado, razão pela qual parecia
que já nem sentia fome.
O circulo vicioso de maus tratos e violências,
era rotineiro.
Ninguém entendia como aquela criança
agüentava tanta brutalidade...
Um novo dia se inicia e a intensa luz que
entrava pela fresta da janela, desta vez não
desperta quem não dormiu.
Lucileide passou as claras se embriagando,
não sabe bem o quanto bebeu...
De repente, Antonio Marcos engatinhando, se
aproxima da mãe, que fora de si, lhe
chuta. Num forte ponta-pé, o menino
sai do chão, depois desliza, e cai
para longe dela...
Ao ver que a criança fora arremessada,
para bem distante, Lucileide cai na gargalhada,
e com a garrafa de pinga na mão, da
mais uma virada no próprio gargalo.
De gole em gole, e como se fosse possível,
ela esta mais bêbada...
Antonio Marcos caído após o
chute que levara muito assustado e engolindo
o choro, parece passar mal. De repente começa
a tossir interruptamente. Lucileide já
furiosa vira o resto da bebida na boca, partindo
em seguida para cima da criança, e
com a própria garrafa o agride.
A mistura de sons, onde os gritos de Lucileide
predominavam, ia alertando e mobiliando a
vizinhança.
Enquanto os vizinhos chamavam a polícia,
Dona Mirtes muito angustiada não se
conteve, precisava averiguar de imediatamente
e de perto o que estaria acontecendo. Foram
várias tentativas de entrar na casa,
porém em vão, pois estava trancada
com chave e trincos. No entanto, a boa e antiga
moradora da região, com astúcia
e vasta experiência de vida, conseguiu
uma "brecha" para assistir o que
nunca pensou um dia poder presenciar...
Naquele momento, Dona Mirtes lamentou ter
vivido tanto, para ver o que nunca gostaria
de ter visto...
A viatura policial dobrou a rua... Mas era
tarde... Tarde demais...
Mesmo com a chegada da policia, Lucileide
ainda gritava! Após três chamados
não atendidos, os policiais arrombaram
e invadiram a casa.
O semblante de dona Mirtes, que tudo presenciou,
era de uma tristeza inenarrável...
Antonio Marcos, caído ao lado de uma
mesa velha de madeira, com a pequenina cabeça
estourada, enquanto Lucileide insaciável,
ainda socava ferozmente, com as mãos
em punho, aquela criança já
morta...
Algemada, sendo conduzida até a viatura,
parecia não saber o que havia feito,
pois continuava a ameaçar insistentemente
e aos berros:-
-"Antonio Marcos! Seu desgraçado,
eu juro, que um dia ainda vou te matar"...
Lucileide fora presa em flagrante delito,
processada e condenada nas formas da lei.
Hoje cumpre a sentença imposta, 19
(dezenove) anos. Não vislumbra futuro,
sua vida é onde está! Mas sonha
em sair nem que seja por algumas horas, pra
ela, por fim, na vida daquele que com suas
próprias mãos e há muito,
ela já "trucidou".
Seu filho!
*Nota
da Autora: - Este texto foi produzido com
base em Fatos Reais.

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