A
mulher na condição de pessoa
presa, costumava ser mais falante, com aptidão
a se aproximar de quem confiava e estava sempre
pronta a fazer pose e deixar se fotografar.
Mais tantas foram as vezes, que se viram em
constrangimentos familiares após a
divulgação de suas imagens e
com o agravante de verem completamente modificados
seus argumentos e entrevistas, que começaram
a se calar.
Se
assim passou a ser, enquanto permanecem encarceradas,
já na condição de egressas,
aí então é que dificilmente
se prestam a dar entrevistas, nem tão
pouco mostrar o rosto. Quando isso acontece,
é porque o laço de confiança
com quem esta declinando seu nome e 'atestando'
que nem seu depoimento será adulterado,
nem sua imagem exibida já foi firmado
há muito.

Não
sendo uma regra, óbvio, mas
passa a ser diferente, quando aquela que passou
pelo cárcere, esta disposta a "lavar
a alma", contestar, sem se preocupar
com a repercussão, ou o que as pessoas
próximas irão achar. Raras excessões...
Normalmente, isso se dá no calor da
saída da prisão, com 'a cara
já marcada' não pensando ter
mais nada a perder e crente que o retorno
será a comoção pública
ou providencias, no sentido de que a realidade
vivida nos presídios mude, falam e
depois... Se arrependem.
Como
diz R.S.S. "Nem sempre, conseguimos nos
desvincular de um meio que nos proporcionou
em determinado momento, algum tipo de 'punição'
sendo esta em razão da prática
de algo ilícito e ficar esperando que
a sociedade entenda, somos rotuladas e ponto
final.
Você
diz uma coisa, sai outra. Isso sem falar,
que com tanta gente 'tirando proveito' de
drama pra ganhar dinheiro, dizem uma porção
de bobagem e depois querem nos ouvir.
Não
há coisa pior, do que estarmos presas,
e dentro da cela, vendo tv, ouvir um advogado
ou algum expert, falar que cadeia é
escola de crime, que não há
recuperação, que a gente sai
pior do que entrou, que a pena de morte deveria
ser aplicada. Isso, sem falar de uns e outros,
que ainda chamam as mulheres que acabaram
de serem presas, de 'vagabundas', sem mesmo
saber se são culpadas.
Alegam
que pena alternativa é utopia, que
não serve pra nada e o sistema por
ser falido, destrói ainda mais o que
'não prestava antes'.
Imagina
a gente, depois de ver tanta hipocresia, pré
julgamento e condenação antecipada,
ouvindo uma pessoa que não sabe o dia
de amanhã em as razões que nos
trouxeram para uma penitenciária, ainda
dizer que só vai pra cadeia Pobre,
P...ta e Negro. Dá licença...
É aí que nasce a revolta, pegam
todas nós, sem distinção,
colocam num pacote e jogam no lixo.
O
que não sabem e nem querem saber é
que há muitas mulheres
bem sucedidas financeiramente e presas, que
não somos vagabundas, pelo menos a
maioria não. Seria interessante, que
uma pessoa dessas, viesse nos ver de perto,
saber quem somos, o que respondemos e o que
esperamos daqui e fora daqui.
Agora,
é mais injusto com as egressas, porque
depois de cumprirem suas penas, passam a pagar
uma nova pena pra sociedade, que explora ou
desdenha. Isso, quando não tratam como
portadoras de doenças contagiosas.
Somos
descriminadas, dentro ou fora da cadeia e
isso não muda! Aí, pensam que
pelo fato de uma errar e não querer
se acertar, todas são iguais. Se há
reincidência, há as que são
do crime e não querem sair. Mas, também
há aquelas que não agüentam
viver na rua, porque a família não
quer nem perto da antiga moradia.
Sei
que não adianta falar muita coisa,
mais este desabafo é porque além
de um País injusto e desigual, não
somos alienadas e temos acesso as informações,
então, acho que os desinformados são
estes, que com um meio de comunicação,
ou nos exploram ou deteriorizam ainda mais
o que esta completamente estraçalhado,
ou melhor nem existe mais... O nosso amor
próprio".
Talita,
que esta em liberdade há três
anos, hoje, com a ajuda da família,
montou sua clínica de estética,
fez cursos e concedeu uma entrevista a uma
emissora de TV. Prometeram que não
iriam deixar a vóz, nem mostrar o rosto.
"No final, editaram a minha entrevista,
mostraram meu perfil que ficou nítido
quem eu era. Fui reconhecida por
muita gente, lesada no meu trabalho, ofendida
e a além da vóz também
ter sido mantida, me usaram pra colocar no
ar uma entrevista que não tem nada
a ver com que falei e com que eu esperava.
Fui um gancho mal usado"...
Muito
chateada, Talita tem como provar o relato,
não concede mais nenhuma entrevista,
e irá processar a emissora.
Talita
é o nome fictício de C.M.que
teve a boa vontade de se locomover até
o local marcado para conceder a entrevista
e diz que com isso, se sente punida e esta
tendo além dos prejuízos financeiros,
um enorme dano moral. |