Desde
que Simone Cassiano da Silva, 27 anos –
uma promotora de vendas de Minas Gerais –
jogou a filha de dois meses na Lagoa da Pampulha,
em Belo Horizonte, uma sucessão de
casos impressionantes envolvendo mães
e seus filhos recém-nascidos aconteceu
no Brasil nos últimos dias.
Outra pessoa não identificada, também
na capital mineira, largou um bebê na
calçada. Tomou apenas o cuidado de
acionar a campainha da casa em frente. A menininha,
soube-se depois, havia nascido apenas algumas
horas antes, o que leva a crer que foi a mãe
quem abandonou a criança à própria
sorte. E, finalmente, em Porto Alegre (RS),
Regina Elaine Pereira, 30, matou sua filha
também recém-nascida, atirando-a
em um riacho. Confessou que já havia
matado um filho cinco anos antes.
Esses crimes voltaram a suscitar um tema médico
controverso e cada vez mais presente nos consultórios
e hospitais dos grandes centros urbanos –
a DPP (depressão pós-parto)
e suas variantes. Simone Cassiano alegou estar
sofrendo da doença e, embora a polícia
investigue outras vertentes – como a
possibilidade de a mãe ter oferecido
a filha à Iemanjá num ritual
mais macabro do que sagrado –, os médicos
confirmam: a variação mais grave
da doença pode mesmo levar uma mãe
a agredir seu filho e/ou consumar o chamado
infanticídio (assassinato da criança).
Esse extremo é chamado pela maioria
dos estudiosos de psicose pós-parto
(veja quadro ao lado).
“Se a paciente que apresenta depressão
pós-parto não for devidamente
apoiada pela família e acompanhada
por médicos, pode piorar até
o ponto de apresentar uma reação
desse tipo”, acredita o médico
ginecologista e obstetra Milton Jorge de Carvalho,
52 anos, docente da Faculdade de Medicina
do ABC, em Santo André. Embora casos
como esses recentes sejam raros, os números
não chegam a tranqüilizar. De
acordo com Carvalho, a incidência de
DPP nas mulheres brasileiras varia de 7% a
15%, acompanhando a média mundial de
10%. “Mas em alguns grupos, o número
chega a 16% e, entre as adolescentes, atinge
patamares de 25% a 26%”, avisa o médico.
Tais números não incluem variações
mais brandas (blues) e mais
graves (psicose pós-parto) da doença.
Vale ressaltar que crises
de choro e pequenas doses de irritabilidade
são comuns na maioria das mulheres
nos primeiros dias após o parto.
Tempos
modernos – Como a Medicina não
é uma ciência exata, não
se sabe ainda quais as causas da DPP, pelo
menos não com precisão. Os estudos
apontam, entretanto, que o mal é decorrente
de complexa interação entre
fatores biológicos, psicológicos
e sociais. “Há ainda fatores
de risco que incluem baixo suporte social
e familiar, complicações durante
o parto, a condição de solteira,
conflitos conjugais, além de antecedentes
pessoais e familiares de depressão
pós-parto”, explica o doutor
em Psquiatria pela Faculdade de Medicina da
USP (Universidade de São Paulo), Joel
Rennó Júnior. Coordenador do
Projeto de Atenção à
Saúde Mental da Mulher do Instituto
de Psiquiatria do Hospital das Clínicas,
na capital, ele fala com a propriedade de
quem tem estudado muito o assunto.
Questionado sobre se essa seria uma doença
típica do estresse urbano e da competitividade
profissional das últimas décadas,
Rennó admite que o problema pode também
passar por esse viés. “Em se
tratando de transtornos mentais, quaisquer
fatores estressores vigentes – em uma
sociedade que é extremamente capitalista
e competitiva – podem servir como desencadeadores
de vários quadros psiquiátricos,
incluindo a depressão pós-parto.
Porém, a predisposição
biológica é fundamental para
a eclosão da doença”,
raciocina.
Milton Jorge de Carvalho é mais incisivo
quanto a essa possibilidade. “Existe
muita cobrança na direção
da mulher na sociedade moderna. Ela hoje estuda
muito e vai melhor do que os homens em tudo
porque é mais concentrada nos objetivos.
Por isso, ela engravida mais tarde, quando
a cabeça já está cheia
de problemas e informações.
E então mistura tudo – cobrança
profissional, familiar, social, enfim”,
diz Carvalho, traçando um panorama
que nem de longe afetava a maioria das mulheres
que viveram meio século atrás,
quando a DPP não chegava a ser um surto,
mesmo considerando a questão do conhecimento
da doença que se tem hoje, o qual define
melhor o diagnóstico.
No meio de tantas possibilidades, alguns médicos
enfatizam mesmo é a questão
clínica. “A predisposição
maior é das mulheres que têm
ou já tiveram uma patologia de base.
A maioria das que têm a depressão
pós-parto já tiveram problemas
parecidos antes, embora, claro, essa possa
ser a primeira manifestação
depressiva da vida de uma mulher”, diz
o médico chefe da Obstetrícia
da Faculdade de Medicina do ABC, Mauro Sancovski,
52 anos.
Ele acredita ainda que a expectativa gerada
pela gravidez é determinante. “Quando
a criança sai de dentro da mulher,
muda a posição dela –
de grávida para mãe efetivamente.
Ela se dá conta que a responsabilidade
é enorme. Algumas mães administram
isso melhor, outras não conseguem”,
completa.
Sancovski lança ainda uma opinião
sobre o caso que abalou recentemente o Brasil.
“A mulher com depressão pós-parto
fica apática, se desinteressa de cuidar
do bebê. Esses casos que incluem atos
mais agressivos são característicos
de uma psicose puerperal”, diz, quando
questionado a respeito da atitude da mineira
Simone Cassiano. Alívio para as mães
e para a sociedade, visto que tal psicose
só atingiria 0,1% a 0,2% das mulheres.
Conheça
as diferenças entre os quadros clínicos
depressivos do período pós-parto:
Blues
(transtorno brando)
Incide em universo entre 70% e 85% das mulheres.
Aparece a partir dos primeiros dias após
o parto ou até 14 dias depois.
A mulher apresenta instabilidade de humor,
irritabilidade, ansiedade e chora facilmente.
Fatores de risco: sintomas depressivos já
durante a gravidez, histórico de depressão
(mesmo que leve) e do chamado transtorno disfórico
pré-menstrual, uma forma mais grave
da conhecida TPM (tensão pré-menstrual).
DPP
(Depressão Pós-parto)
Incide em aproximadamente 10% das mulheres.
Surge a partir do primeiro até o quarto
mês após o parto, com a mesma
duração de um episódio
depressivo em outra fase da vida, e assim
como esses episódios, é incapacitante
(impede a mãe de realizar tarefas corriqueiras,
inclusive as que se referem ao bebê).
Pode ou não coincidir ou se confundir
com o hipotireoidismo pós-parto (deficiência
na glândula tireóide que leva
a quadro clínico semelhante).
A mulher mostra-se deprimida, além
de apresentar alto grau de culpa, ansiedade,
medo de causar sofrimento ao bebê e
pensamentos obsessivos.
Fatores de risco: depressão já
por ocasião da gravidez, histórico
significativo de depressão –
especialmente depresão pós-parto
prévia, aquela em que a mulher já
se mostra bastante deprimida pouco antes de
ter o bebê –; problemas conjugais,
falta de suporte social e ocorrências
estressantes durante a gravidez.
Psicose
Pós-parto (transtorno severo)
Rara: acomete cerca de 0,1% a 0,2% das mulheres.
Surge normalmente no primeiro período
pós-parto de uma mulher, com duração
variável de semanas a meses.
A mulher sofre confusão mental, alucinações
e mudanças rápidas de humor
– da euforia para a depressão.
Pode acabar sendo bastante agressiva com o
filho e cogitar a possibilidade de infanticídio,
ou seja, de matar ou facilitar a morte do
próprio filho recém-nascido.
Fatores de risco: pessoas com histórico
pessoal ou familiar de transtorno bipolar
do humor (uma doença psíquica)
e/ou com episódio prévio de
psicose – por exemplo, em uma gestação
anterior.
As pacientes são primíparas
(acabam de ter o primeiro filho).
“Fiquei
triste sem saber o porquê”
O que era um enorme desejo, quando realizado,
se tornou um suplício. Pelo menos no
começo. A comerciante Flávia
Helena de Barros Andrade, 33 anos, de São
Caetano, sofreu de depressão pós-parto
(DPP) há nove anos, quando seus filhos
gêmeos nasceram, após tratamento
para que ela fez para conseguir engravidar.
Quando começaram a surgir os sintomas,
Flávia nem sabia que era vítima
de DPP. “Foi muito difícil. Eu
não tinha ânimo para cuidar dos
meus filhos depois de muito desejá-los.
Ficava sempre triste, sem entender o porquê,
e sorte que meu médico descobriu a
causa e passei a ser medicada”, conta
a comerciante, paciente do ginecologista Milton
Jorge de Carvalho.
Flávia acredita que um problema familiar
tenha ajudado a desencadear o processo, comprovando
a tese de alguns estudiosos de que fatores
dessa ordem também têm peso no
processo. A comerciante conta que seu marido,
Napoleão Rodrigues Andrade, ficava
muito tempo ausente justamente quando os gêmeos
nasceram. Não era uma situação
programada, pelo contrário. Ele esperava
estar próximo da mulher quando as crianças
nascessem, mas um revés profissional
fez com que Andrade adquirisse um negócio
um mês antes de Flávia ter os
bebês. “Eu ficava muito sozinha
e me sentia incapaz de cuidar das crianças.
Nem sequer podia ouvir o choro deles”,
relata.
Diagnóstico concluído, foi administrada
medicação e a vida de Flávia
– assim como de seu marido e dos bebês
– mudou para melhor. “Tive de
tomar o remédio por quase um ano, mas
foi ótimo. Eu fiquei animada para cuidar
dos meus filhos e na segunda gravidez –
embora não tenha sido planejada –
não enfrentei mais o problema”,
conta. Ela afirma que, a partir de então,
o marido se mostrou mais amigo, a vida do
casal estava mais estável e os gêmeos,
mesmo bem pequenos, ajudavam nas tarefas que
diziam respeito à irmãzinha
recém-chegada.
Tratamento
– O psiquiatra Joel Rennó Júnior,
do Hospital das Clínicas, informa que
o tratamento dos transtornos pós-parto
variam de acordo com a gravidade. “Pode
envolver desde psicoterapia individual e em
grupo, medicações antidepressivas
e estabilizadoras de humor, além de
antipsicóticos no caso da psicose puerperal”,
informa.
O ginecologista Milton Jorge de Carvalho diz
que estudos comprovam a interferência
da serotonina – substância neurotransmissora
intimamente relacionada aos transtornos de
humor – no processo que desencadeia
a DPP na mulher, portanto, também é
importante controlá-la. “É
preciso usar medicamentos para recaptação
da serotonina, que também está
ligada a outros problemas, como a TPM (tensão
pré-menstrual).”
Fonte:ABP
. Associação Brasileira de Psiquiatria
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Mentes
perversas
Entenda
mais sobre as pré-disposições
para cometer crimes violentos e saiba como
agem as mulheres que matam; a especialista
em assassinatos Ilana Casoy
fala sobre o intrigante universo do crime
Por:
Pamela Cristina Leme
Até
quando o assunto é assassinato,
as mulheres são mais sensíveis.
Elas são notoriamente bem menos violentas
que os assassinos masculinos. Quando matam,
costumam dispensar as armas de fogo e raramente
usam armas brancas ou cometem um homicídio
de caráter sexual. Preferem investir
em métodos mais discretos, como o veneno,
por exemplo. Além disso, como em várias
outras questões que envolvem as diferenças
entre homens e mulheres, elas são
mais metódicas, atenciosas e cuidadosas.
As
mulheres assassinas planejam o crime
meticulosamente e de uma maneira sutil, por
isso são verdadeiros quebra-cabeças
para os investigadores. Por essa peculiaridade
inteligente, conseguem levar mais tempo para
serem descobertas pela polícia e identificadas
como autoras da barbárie.
Ilana
Casoy conta
que, segundo estudos americanos, 80% das mulheres
matam por envenenamento. As causas costumam
envolver uma série de fatores que precisam
ser analisados com cuidado. Alguns casos são
raros, como o da prostituta americana Aileen
Wuornos, que já foi executada. Ela
assassinava seus clientes com arma de fogo.
Por isso eu acredito no estudo de todo o conjunto
de causas e não em uma resposta só
, diz.
De
acordo com ela, cada caso apresenta
particularidades e, por isso, diferentes conclusões.
Muitos criminosos buscam através da
consumação da fantasia e do
ritual de matar o controle e o poder sobre
a vítima. Mas estas nem sempre são
as razões. Na maioria das vezes, a
motivação é sexual e
a justificativa para o crime pode ter origem
em algum motivo psicológico obscuro
que só faz sentido para quem assassina.
Estes atributos, inclusive, valem tanto para
homens quanto para mulheres. Para Marcelo
Costa de Andrade, que entrevistei para compor
´... Made in Brazil´, um matador
de 13 meninos em Niterói, a motivação
era a libertação das crianças
que tinham uma vida como a que ele teve, menino
de rua abandonado e abusado , exemplifica.
Ilana,
sinaliza
que, enquanto as mulheres se
deprimem quando sofrem uma violência,
os homens se revoltam e por isso a reação
entre os sexos é diferente. Quando
a mulher tende a se deprimir, ela não
tem a raiva necessária para se cometer
um ato violento , enfatiza. Por isso, algumas
mulheres se casam com o intuito de matar o
companheiro e obter lucro financeiro,
outras resolvem abreviar a vida daqueles que
acham que vão morrer de causas naturais
e, assim, agem em hospitais ou matam idosos
em casa. Existem ainda aquelas que ficam obcecadas
por ódio e ciúmes e que matam
seus parceiros, além das assassinas
que atuam em dupla ou grupo. Temos também
as chamadas insanas ou incompreendidas, que
são definitivamente culpadas de seus
crimes, mas que não sabem distinguir
o motivo dos seus atos , ressalta Casoy.
Em
geral, é improvável
reconhecer um assassino ou assassina
com antecedência. Particularmente
os assassinos em série (serial killers),
que se envolvem na maneira de agir das pessoas
que matam - as vítimas, escolhidas
cuidadosamente (diferente dos assassinatos
em massa, quando várias pessoas são
mortas de uma só vez e não há
preocupação do culpado sobre
a identidade delas), são mortas dentro
de um intervalo de tempo e costumam ser características
ou estilos de vida parecidos (como policiais,
garotas de programa, homeossexuais, por exemplo).
O criminoso não tem cara, não
tem jeito, não tem estereotipo. A psicopatia,
o transtorno anti-social que eles sofrem,
é uma perturbação que
faz o indivíduo entender com a razão
o que está fazendo, mas não
com a emoção - ele não
tem controle sobre seus desejos , garante
Ilana Casoy. Ela enfatiza que, no dia-a-dia
é impossível notar essa diferença,
já que o assassino aprende a lidar
com essa particularidade e a construir uma
espécie de fachada .
A
pesquisadora salienta que a psicopatia ainda
não tem cura, portanto não existe
um tratamento específico no mundo que
recupere esses indivíduos. Quando tratado
com as terapias convencionais, o psicopata
aprende a manipular melhor, a enganar melhor
e a escapar melhor , condensa. As poucas pessoas
que conseguiram escapar das mãos de
assassinos em série, por sinal são
aquelas que, de alguma forma intuitiva, fizeram
com que eles as enxergassem como pessoas e
não mais como objetos da fantasia dele.
Mas temos que considerar a dificuldade que
qualquer vítima tem de manter a sanidade
ao cair nas mãos de alguém que
não a enxerga como pessoa, para quem
ela apenas faz parte das realizações
de terríveis, cruéis e sádicas
fantasias .
Membro do NUFOR (Núcleo de Pesquisas
e Estudos em Psiquiatria Forense e Psicologia
Jurídica do Instituto de Medicina do
Hospital das Clínicas de São
Paulo) desde 2002, a profissional afirma que
divulga o trabalho que tem desenvolvido sobre
criminosos em todo país. Ela acredita
que, no Brasil, essa é a instituição
mais bem preparada para pesquisar esses casos.
Tenho excelentes oportunidades de pesquisar
e estudar esse assunto, já que estou
integrada numa equipe multidisciplinar composta
por psicólogos e psiquiatras forenses,
médico-legistas, promotores de justiça
e advogados que estudam todas as facetas do
crime , garante. Desde a leitura e acompanhamento
de inquéritos policiais e laudos de
insanidade, até o momento em que o
indivíduo está no processo do
julgamento, Ilana mergulha em cada detalhe
dos casos investigados.
Com
toda experiência angariada ao longo
dos anos de pesquisa sobre o assunto, ela
tem uma certeza: assassinos são pessoas
que só se arrependem por si mesmos,
jamais pelas vítimas .
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