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Frias,
como ficou conhecido, nasceu em 5 de agosto de 1912, na casa de uma avó,
no Rio de Janeiro. Era o oitavo filho de Luiz Torres de Oliveira, juiz
de direito em Queluz (SP), e Elvira Frias de Oliveira.
Quando tinha sete anos, a mãe morreu, após uma série
de cirurgias que buscavam identificar as causas de dores que sentia. Nesse
momento, Luiz já trocara o posto de juiz pelo de administrador
do bairro Maria Zélia, em São Paulo, construído pelo
empresário Jorge Street, cujo nome homenageava a mulher, Maria
Zélia Frias Street, tia de Elvira. O bairro ficava no entorno da
Companhia Nacional de Tecidos de Juta, de propriedade de Street e Guilherme
Guinle. Os negócios do tio não iam bem, e o pai de Octavio
acabou perdendo o emprego depois de a fábrica ser vendida para
o conde Francisco Matarazzo. Inicialmente, Luiz Torres tentou tocar uma
fazenda que comprara em Itupeva, sem muito sucesso. Em 1931, ele retornaria
à vida de magistrado, como juiz em Sorocaba.
Em 1926, Octavio
começou a trabalhar como office-boy na Companhia de Gás.
Ficou na empresa até o início dos anos 1930. Extremamente
hábil no uso de máquinas de calcular, foi trabalhar na Recebedoria
de Rendas, órgão da Secretaria da Fazenda.
Frias fez carreira
no setor público até 1946, quando, em sociedade com Octavio
Orozimbo Roxo Loureiro, fundou o BNI (inicialmente, Banco Nacional Imobiliário
e, depois, Banco Nacional Interamericano), projeto que se concretizou
em 1948.
O BNI notabiliza-se,
então, por comandar empreendimentos imobiliários -o mais
marcante deles, cujo projeto é assinado por Oscar Niemeyer, tornou-se
um dos cartões-postais de São Paulo, o edifício Copan-
e por lançar o "canguru-mirim", uma campanha que estimulava
crianças a pouparem.
Em 1955, andando
a cavalo, Octavio Frias lesionou a coluna. Ficou engessado por seis meses,
mas, ainda assim, podia dirigir. Numa viagem pela rodovia Presidente Dutra,
bateu num caminhão parado, sem sinalização, na pista.
No carro, estavam Zuleika Lara de Oliveira, sua primeira mulher, com quem
se casou em 1947, seu irmão José, uma empregada e um sobrinho.
Zuleika e José morreram no acidente.
Afastado na
prática do BNI, que vivia uma crise -havia ido "por água
abaixo", segundo o próprio Octavio, como destaca seu biógrafo,
o jornalista Engel Paschoal, autor de "A Trajetória de Octavio
Frias de Oliveira" -, Frias teve de responder pelos problemas que
o banco enfrentou e teve seus bens bloqueados. "Não tive responsabilidade
sobre o que aconteceu, mas fui atingido diretamente", afirmou, certa
vez. O banco sofreu intervenção e acabou comprado pelo Bradesco.
Frias contava
que, então, ficou "sem mulher, sem nada, partindo da estaca
zero". Foi, então, trabalhar na Transaco, uma empresa que
fundara anos antes para negociar ações e que ficara sob
o comando de um sobrinho.
Com Octavio
Frias, a Transaco, que também vendia assinaturas da Folha, prosperou.
Frias fez pularem de 150 para 6.000 novas assinaturas permanentes por
mês - assinaturas que, já com a empresa sob seu comando,
seriam um dos principais problemas que enfrentaria para viabilizar economicamente
o jornal.
Frias chegou,
neste momento, a receber um convite de Gastão Vidigal, dono do
Banco Mercantil de São Paulo, para assumir uma diretoria. Achava
que Frias precisava de "status". Segundo o relato do convidado,
a conversa teria sido assim: "Você já ganhou dinheiro,
agora você precisa de status. Você está com essa mancha
do BNI aí que precisa tirar. Precisa de status. Vem trabalhar comigo
que eu te dou o lugar de diretor'. Eu disse: 'Não, muito obrigado,
Gastão'. Ele ficou puto da vida."
Na Transaco,
Frias conheceu Dagmar de Arruda Camargo, já mãe de Maria
Helena, hoje médica. Meses depois, foram morar juntos (eles formalizariam
o casamento em 1965, quando ela ficou viúva) e tiveram os filhos
Otavio, diretor de Redação da Folha desde 1984 e freqüentador
da redação desde o começo dos anos 70, Maria Cristina,
jornalista especializada em economia, e Luís Frias, que se tornou
o principal executivo do Grupo Folha em 1990.
Antes de comprar
a Folha, Frias associou-se a Carlos Caldeira Filho no estabelecimento
de uma estação rodoviária na região da Luz.
A rodoviária funcionou ali até 1982, quando foi construído
o Terminal do Tietê
Mas o negócio
definitivo com Caldeira foi selado em 13 de agosto de 1962, quando os
dois deram o primeiro cheque ao antigo proprietário da Folha, José
Nabantino Ramos, e compraram o jornal.
Frias e Caldeira
renegociaram dívidas e adotaram uma série de medidas para
estabilizar a empresa. Compraram jornais como o Última Hora e o
Notícias Populares, para baratear a distribuição
e ocupar nichos em que a Folha não atuava. Investiram em novos
equipamentos - em 1º de janeiro de 1968, o jornal começaria
a ser rodado em offset. Na
década de 1970, Frias comandou o processo que levou a Folha a assumir
um papel de destaque na abertura política.
Com a direção
de Redação nas mãos do jornalista Claudio Abramo,
a partir de 1975 o jornal começa a se destacar pela pluralidade
de vozes e por um posicionamento político que incomodou os militares.
Criou em 1976 uma seção de artigos na página 3 que
abriu espaço para opiniões divergentes, abrigando também
textos de intelectuais e políticos que faziam oposição
ao regime.
Em agosto de
1977, um relatório do Serviço Nacional de Informações
dizia que a Folha tinha "o esquema de infiltração mais
bem montado da chamada grande imprensa", para "isolar o governo
da opinião pública". Em 1º de setembro, o jornalista
Lourenço Diaféria publicou o texto "Herói. Morto.
Nós", em que, a partir da história de um bombeiro que
salvara uma criança em um poço de ariranhas no zoológico
de Brasília, fazia uma comparação com Duque de Caixas.
E escreveu: "O povo está cansado de estátuas e cavalos.
O povo urina nos heróis de pedestal".
O Exército
não gostou nada do texto. Diaféria foi preso em 15 de setembro.
No dia seguinte, a Folha publicou o espaço da coluna do jornalista
em branco. Frias, então, recebeu um telefonema de Hugo Abreu, chefe
da Casa Militar, dizendo que, se a coluna voltasse a ser publicada em
branco, a Folha seria fechada.
O ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso, em depoimento publicado no livro "A Trajetória
de Octavio Frias de Oliveira", avalia que Frias realizou, então,
uma "manobra tática", recolhendo algumas velas, mas não
mudando o rumo do barco. Claudio Abramo deixou a direção
da Redação, sendo substituído por Boris Casoy, e
Frias e Caldeira afastaram-se oficialmente da empresa.
A Folha entraria
abertamente na campanha das Diretas-Já em novembro de 1983. Mesmo
com a emenda derrotada, o movimento marcou a década, abrindo definitivamente
as portas para o fim do regime militar.
Em 1986, a
Folha alcançou a liderança em circulação no
mercado de jornais, posição que mantém até
hoje. Aos poucos, a direção da empresa foi sendo assumida
pelos filhos. Otavio, desde 1984, é o diretor de Redação
da Folha, em que comandou, enfrentando no início fortes resistências
de setores da redação, a implementação do
chamado projeto Folha, que em suma defende a realização
de um jornalismo crítico, apartidário e pluralista. Em 1990,
Luís, que já ocupara vários postos da administração
da empresa, tornou-se o principal executivo do grupo. Em 1996, comandou
a criação do UOL.
Frias, que
num dos momentos mais difíceis da história recente da Folha,
invadida por policiais federais durante o governo de Fernando Collor de
Mello, em 1990, participou das reuniões que decidiram o texto e
tom do editorial que reagia à ação do governo, seguiu
ativo no dia-a-dia do jornal. Até recentemente, freqüentava
o 9º andar discutindo com os editorialistas o que seria publicado
como opinião da Folha.
No meio dos anos 90,
as gráficas do jornal já não conseguiam imprimir
todo o material distribuído aos leitores. A "Revista da Folha",
por exemplo, foi impressa no Chile, na Argentina e até na Ásia.
"A demanda era maior do que a oferta, o que é impensável
em jornal", conta Judith Brito, diretora corporativa do Grupo Folha.
Apesar desse
quadro, a sociedade com a Quad/Graphics aconteceu quase por acidente.
Seis grupos discutiam uma associação com a Folha, quando
Larry Quaddracci fez sua proposta.
Desde 97, quando
começou a operar, a Plural cresce a uma média de 138% ao
ano. Começou com lucro. "Temos superado as metas", diz
Carlos Jacomini, presidente da gráfica.
Hoje, a Folha
responde por apenas 6% da receita da Plural, que está expandindo
a planta para atender a demanda dos clientes. O faturamento da gráfica,
por sua vez, representa 10% do faturamento total do grupo.

Foto:
Jorge Araújo/Folha Imagem
"O que fica em comum para todos é
o aprendizado"
O
texto abaixo foi lido por Eleonora de Lucena, editora-executiva
da Folha, em nome dos funcionários do Grupo Folha, na missa de
sétimo dia pela morte de Octavio Frias de Oliveira:
Cara
família Frias de Oliveira, meus colegas:
Trago
aqui palavras em homenagem a Octavio Frias de Oliveira. Poderia relatar,
como a maioria dos aqui presentes, histórias exemplares de inteligência,
tolerância e coragem. Nesta última semana, nos corredores
do Grupo Folha --e em várias outras redações pelo
país--, muitos de nós revivemos algum momento com ele. Lembramos
uma pauta provocativa, uma pergunta arguta, uma crítica irretorquível
ou um elogio entusiasmado. Rememoramos as anotações em vermelho
num editorial, os pontos de interrogação numa reportagem,
um sorriso no elevador ou o caminhar sereno pelas pedras portuguesas da
calçada da Barão de Limeira.
Não vou fazer isso. Cada um de nós guardará com carinho
essas lembranças particulares. O que fica em comum para todos é
o aprendizado. Nesses anos de trabalho com o sr. Frias aprendemos a ser
jornalistas e seres humanos melhores. Aprendemos a fazer perguntas, a
buscar entender os diferentes lados de um problema, a reconhecer nossos
erros e a lutar para superar nossas limitações.
Aprendemos que é preciso construir a cada dia um produto melhor,
mais completo e aprofundado, voltado para o leitor. Aprendemos a não
nos contentarmos com uma boa edição, com a liderança
de mercado, com um furo ou com um resultado programado. Somos insatisfeitos
e é assim que avançamos e crescemos.
Aprendemos a importância de defender a democracia, o contraditório,
o plural. Aprendemos que é necessário cultivar o espírito
crítico e não esquecer a dramaticidade dos abismos sociais
e econômicos do Brasil.
Sobretudo aprendemos que é vital ser independente, ter autonomia
frente aos interesses dos poderosos da época e assumir as responsabilidades
decorrentes disso.
A ousadia, a curiosidade e a energia de Octavio Frias de Oliveira contaminaram
o Grupo Folha, e estão entranhados no seu cotidiano. Na Folha,
no UOL, no "Agora", no "Valor", no Datafolha, na Publifolha
e em todas as outras unidades do grupo buscamos seguir esse modelo. Um
paradigma que já não pertence mais só ao Grupo Folha,
mas que espalha raízes na mídia brasileira como um todo
e é a referência para profissionais de diferentes gerações
e regiões do país.
Fico
por aqui. Pois, como sabia Sr. Frias, amanhã tem jornal.
Muito
obrigada.
Livro
conta a "A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira",
de Engel Pashoal, da Publifolha.
Divulgação 
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