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  OCTÁVIO FRIAS - Biografia e Livro Volta à Página Anterior
"Procuro ter em mente aquele verso de [Rudyard] Kipling no qual o escritor inglês fala do sucesso e do fracasso como dois impostores. De minha parte, experimentei ambos. Acima dessas vicissitudes, penso que o mais importante é trabalhar com afinco naquilo de que se gosta" Octavio Frias de Oliveira
Por: Elizabeth Misciasci Midi: Obrigado- Letra e Música: Ayrosa Galvão  
 
Após atuar como servidor público e nos ramos financeiro e imobiliário por vasto período, Dr. Octavio Frias de Oliveira, adquiriu a Folha de S. Paulo em sociedade com Carlos Caldeira Filho, no ano de 1962. Durante algumas décadas saneou a empresa. Com sua inteligência objetiva, foi transformando o Jornal, á nível industrial. Esta visão futura, e modernista, tornou a Folha, o maior e um dos mais influentes jornais do país.
Com o crescimento do Jornal Folha, conseqüentemente, viriam expansões, fazendo com que viesse a ser o que é hoje, ou seja, um conglomerado que abrange o maior portal de Internet do país, o UOL, a editora Publifolha, o jornal "Agora", o Instituto Datafolha, a gráfica Plural e o diário econômico "Valor", este em parceria com as Organizações Globo.
Podemos dizer que Octavio Frias de Oliveira, além de um grande Empresário, publisher do Grupo Folha, foi o grande protagonista da inovação e modernização da mídia brasileira. Um dos maiores empreendedores na categoria, tornando-se assim, pioneiro de uma geração dos quais Dr. Frias, era um dos últimos remanescentes e o único a se manter em atividade profissional até o ano de 2006.
No entanto, no final deste mesmo ano, mais precisamente em novembro de 2006, o empresário foi submetido a um processo cirurgico para remoção de um hematoma craniano, causado por um acidente doméstico. Logo após sua alta hospitalar, vinha se recuperando na casa de sua filha Maria Cristina. Contudo, já não veríamos aquela Personalidade inquieta e dinâmica, que debilitou-se de forma significativa. Seu estado de saúde, passou a se agravar, tornando assim, muito delicada as condições clínicas, que pioraram em meados de abril de 2007, levando à instalação de um quadro de insuficiência renal grave. Inconsciente por dois dias, em 29 de abril de 2007, ás 15h25, seu coração deixou de bater...

Lançamento do Valor: Fernando Henrique Cardoso, ao lado de Frias.
Foto: Jorge Araújo - 02.mai.2000/Folha Imagem
Fonte:- Da Redação Folha de São Paulo - Jornalismo

A relação direta e cotidiana de Octavio Frias de Oliveira com o jornalismo atravessou mais de quatro décadas, mas o publisher da Folha preferia a designação de empresário à de jornalista. Quando comprou o jornal em 1962, em sociedade com Carlos Caldeira Filho, já percorrera uma longa trajetória pessoal, cheia de altos e baixos.
Sob seu comando, a empresa estabilizou-se economicamente, tornou-se uma das peças mais importantes na circulação de opiniões no final do regime militar, quando o país se redemocratizava, e expandiu-se.

Frias, como ficou conhecido, nasceu em 5 de agosto de 1912, na casa de uma avó, no Rio de Janeiro. Era o oitavo filho de Luiz Torres de Oliveira, juiz de direito em Queluz (SP), e Elvira Frias de Oliveira.
Quando tinha sete anos, a mãe morreu, após uma série de cirurgias que buscavam identificar as causas de dores que sentia. Nesse momento, Luiz já trocara o posto de juiz pelo de administrador do bairro Maria Zélia, em São Paulo, construído pelo empresário Jorge Street, cujo nome homenageava a mulher, Maria Zélia Frias Street, tia de Elvira. O bairro ficava no entorno da Companhia Nacional de Tecidos de Juta, de propriedade de Street e Guilherme Guinle. Os negócios do tio não iam bem, e o pai de Octavio acabou perdendo o emprego depois de a fábrica ser vendida para o conde Francisco Matarazzo. Inicialmente, Luiz Torres tentou tocar uma fazenda que comprara em Itupeva, sem muito sucesso. Em 1931, ele retornaria à vida de magistrado, como juiz em Sorocaba.
Em 1926, Octavio começou a trabalhar como office-boy na Companhia de Gás. Ficou na empresa até o início dos anos 1930. Extremamente hábil no uso de máquinas de calcular, foi trabalhar na Recebedoria de Rendas, órgão da Secretaria da Fazenda.
Frias fez carreira no setor público até 1946, quando, em sociedade com Octavio Orozimbo Roxo Loureiro, fundou o BNI (inicialmente, Banco Nacional Imobiliário e, depois, Banco Nacional Interamericano), projeto que se concretizou em 1948.
O BNI notabiliza-se, então, por comandar empreendimentos imobiliários -o mais marcante deles, cujo projeto é assinado por Oscar Niemeyer, tornou-se um dos cartões-postais de São Paulo, o edifício Copan- e por lançar o "canguru-mirim", uma campanha que estimulava crianças a pouparem.
Em 1955, andando a cavalo, Octavio Frias lesionou a coluna. Ficou engessado por seis meses, mas, ainda assim, podia dirigir. Numa viagem pela rodovia Presidente Dutra, bateu num caminhão parado, sem sinalização, na pista. No carro, estavam Zuleika Lara de Oliveira, sua primeira mulher, com quem se casou em 1947, seu irmão José, uma empregada e um sobrinho. Zuleika e José morreram no acidente.
Afastado na prática do BNI, que vivia uma crise -havia ido "por água abaixo", segundo o próprio Octavio, como destaca seu biógrafo, o jornalista Engel Paschoal, autor de "A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira" -, Frias teve de responder pelos problemas que o banco enfrentou e teve seus bens bloqueados. "Não tive responsabilidade sobre o que aconteceu, mas fui atingido diretamente", afirmou, certa vez. O banco sofreu intervenção e acabou comprado pelo Bradesco.
Frias contava que, então, ficou "sem mulher, sem nada, partindo da estaca zero". Foi, então, trabalhar na Transaco, uma empresa que fundara anos antes para negociar ações e que ficara sob o comando de um sobrinho.
Com Octavio Frias, a Transaco, que também vendia assinaturas da Folha, prosperou. Frias fez pularem de 150 para 6.000 novas assinaturas permanentes por mês - assinaturas que, já com a empresa sob seu comando, seriam um dos principais problemas que enfrentaria para viabilizar economicamente o jornal.
Frias chegou, neste momento, a receber um convite de Gastão Vidigal, dono do Banco Mercantil de São Paulo, para assumir uma diretoria. Achava que Frias precisava de "status". Segundo o relato do convidado, a conversa teria sido assim: "Você já ganhou dinheiro, agora você precisa de status. Você está com essa mancha do BNI aí que precisa tirar. Precisa de status. Vem trabalhar comigo que eu te dou o lugar de diretor'. Eu disse: 'Não, muito obrigado, Gastão'. Ele ficou puto da vida."
Na Transaco, Frias conheceu Dagmar de Arruda Camargo, já mãe de Maria Helena, hoje médica. Meses depois, foram morar juntos (eles formalizariam o casamento em 1965, quando ela ficou viúva) e tiveram os filhos Otavio, diretor de Redação da Folha desde 1984 e freqüentador da redação desde o começo dos anos 70, Maria Cristina, jornalista especializada em economia, e Luís Frias, que se tornou o principal executivo do Grupo Folha em 1990.
Antes de comprar a Folha, Frias associou-se a Carlos Caldeira Filho no estabelecimento de uma estação rodoviária na região da Luz. A rodoviária funcionou ali até 1982, quando foi construído o Terminal do Tietê
Mas o negócio definitivo com Caldeira foi selado em 13 de agosto de 1962, quando os dois deram o primeiro cheque ao antigo proprietário da Folha, José Nabantino Ramos, e compraram o jornal.
Frias e Caldeira renegociaram dívidas e adotaram uma série de medidas para estabilizar a empresa. Compraram jornais como o Última Hora e o Notícias Populares, para baratear a distribuição e ocupar nichos em que a Folha não atuava. Investiram em novos equipamentos - em 1º de janeiro de 1968, o jornal começaria a ser rodado em offset. Na década de 1970, Frias comandou o processo que levou a Folha a assumir um papel de destaque na abertura política.
Com a direção de Redação nas mãos do jornalista Claudio Abramo, a partir de 1975 o jornal começa a se destacar pela pluralidade de vozes e por um posicionamento político que incomodou os militares. Criou em 1976 uma seção de artigos na página 3 que abriu espaço para opiniões divergentes, abrigando também textos de intelectuais e políticos que faziam oposição ao regime.
Em agosto de 1977, um relatório do Serviço Nacional de Informações dizia que a Folha tinha "o esquema de infiltração mais bem montado da chamada grande imprensa", para "isolar o governo da opinião pública". Em 1º de setembro, o jornalista Lourenço Diaféria publicou o texto "Herói. Morto. Nós", em que, a partir da história de um bombeiro que salvara uma criança em um poço de ariranhas no zoológico de Brasília, fazia uma comparação com Duque de Caixas. E escreveu: "O povo está cansado de estátuas e cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal".
O Exército não gostou nada do texto. Diaféria foi preso em 15 de setembro. No dia seguinte, a Folha publicou o espaço da coluna do jornalista em branco. Frias, então, recebeu um telefonema de Hugo Abreu, chefe da Casa Militar, dizendo que, se a coluna voltasse a ser publicada em branco, a Folha seria fechada.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em depoimento publicado no livro "A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira", avalia que Frias realizou, então, uma "manobra tática", recolhendo algumas velas, mas não mudando o rumo do barco. Claudio Abramo deixou a direção da Redação, sendo substituído por Boris Casoy, e Frias e Caldeira afastaram-se oficialmente da empresa.
A Folha entraria abertamente na campanha das Diretas-Já em novembro de 1983. Mesmo com a emenda derrotada, o movimento marcou a década, abrindo definitivamente as portas para o fim do regime militar.
Em 1986, a Folha alcançou a liderança em circulação no mercado de jornais, posição que mantém até hoje. Aos poucos, a direção da empresa foi sendo assumida pelos filhos. Otavio, desde 1984, é o diretor de Redação da Folha, em que comandou, enfrentando no início fortes resistências de setores da redação, a implementação do chamado projeto Folha, que em suma defende a realização de um jornalismo crítico, apartidário e pluralista. Em 1990, Luís, que já ocupara vários postos da administração da empresa, tornou-se o principal executivo do grupo. Em 1996, comandou a criação do UOL.
Frias, que num dos momentos mais difíceis da história recente da Folha, invadida por policiais federais durante o governo de Fernando Collor de Mello, em 1990, participou das reuniões que decidiram o texto e tom do editorial que reagia à ação do governo, seguiu ativo no dia-a-dia do jornal. Até recentemente, freqüentava o 9º andar discutindo com os editorialistas o que seria publicado como opinião da Folha.
No meio dos anos 90, as gráficas do jornal já não conseguiam imprimir todo o material distribuído aos leitores. A "Revista da Folha", por exemplo, foi impressa no Chile, na Argentina e até na Ásia. "A demanda era maior do que a oferta, o que é impensável em jornal", conta Judith Brito, diretora corporativa do Grupo Folha.
Apesar desse quadro, a sociedade com a Quad/Graphics aconteceu quase por acidente. Seis grupos discutiam uma associação com a Folha, quando Larry Quaddracci fez sua proposta.
Desde 97, quando começou a operar, a Plural cresce a uma média de 138% ao ano. Começou com lucro. "Temos superado as metas", diz Carlos Jacomini, presidente da gráfica.
Hoje, a Folha responde por apenas 6% da receita da Plural, que está expandindo a planta para atender a demanda dos clientes. O faturamento da gráfica, por sua vez, representa 10% do faturamento total do grupo.

Foto: Jorge Araújo/Folha Imagem


"O que fica em comum para todos é o aprendizado"

O texto abaixo foi lido por Eleonora de Lucena, editora-executiva da Folha, em nome dos funcionários do Grupo Folha, na missa de sétimo dia pela morte de Octavio Frias de Oliveira:

Cara família Frias de Oliveira, meus colegas:

Trago aqui palavras em homenagem a Octavio Frias de Oliveira. Poderia relatar, como a maioria dos aqui presentes, histórias exemplares de inteligência, tolerância e coragem. Nesta última semana, nos corredores do Grupo Folha --e em várias outras redações pelo país--, muitos de nós revivemos algum momento com ele. Lembramos uma pauta provocativa, uma pergunta arguta, uma crítica irretorquível ou um elogio entusiasmado. Rememoramos as anotações em vermelho num editorial, os pontos de interrogação numa reportagem, um sorriso no elevador ou o caminhar sereno pelas pedras portuguesas da calçada da Barão de Limeira.
Não vou fazer isso. Cada um de nós guardará com carinho essas lembranças particulares. O que fica em comum para todos é o aprendizado. Nesses anos de trabalho com o sr. Frias aprendemos a ser jornalistas e seres humanos melhores. Aprendemos a fazer perguntas, a buscar entender os diferentes lados de um problema, a reconhecer nossos erros e a lutar para superar nossas limitações.
Aprendemos que é preciso construir a cada dia um produto melhor, mais completo e aprofundado, voltado para o leitor. Aprendemos a não nos contentarmos com uma boa edição, com a liderança de mercado, com um furo ou com um resultado programado. Somos insatisfeitos e é assim que avançamos e crescemos.
Aprendemos a importância de defender a democracia, o contraditório, o plural. Aprendemos que é necessário cultivar o espírito crítico e não esquecer a dramaticidade dos abismos sociais e econômicos do Brasil.
Sobretudo aprendemos que é vital ser independente, ter autonomia frente aos interesses dos poderosos da época e assumir as responsabilidades decorrentes disso.
A ousadia, a curiosidade e a energia de Octavio Frias de Oliveira contaminaram o Grupo Folha, e estão entranhados no seu cotidiano. Na Folha, no UOL, no "Agora", no "Valor", no Datafolha, na Publifolha e em todas as outras unidades do grupo buscamos seguir esse modelo. Um paradigma que já não pertence mais só ao Grupo Folha, mas que espalha raízes na mídia brasileira como um todo e é a referência para profissionais de diferentes gerações e regiões do país.

Fico por aqui. Pois, como sabia Sr. Frias, amanhã tem jornal.

Muito obrigada.

 

Livro conta a "A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira", de Engel Pashoal, da Publifolha.

Divulgação Leia mais sobre o Lançamento da Obra Literária de Engel Pashoal


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