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Ainda
"carregada" na gíria, (não
que todas se utilizem deste no cárcere,
chamado dialeto) e usando algumas palavras
que evito publicar, mesmo porque, nem todas
usam mais o dialeto do cárcere, porém,
pra não perder o teor de seu depoimento,
deixei na íntegra e me antecipo a desculpar-me
por determinados termos aqui transcritos.
-"Qual
o seu nome?
-O
que te levou a cometer crimes?
-Qual
foi a sensação no momento em
que teve a certeza de que ficaria presa?
-No
que você pensou na hora da prisão?
-A
mulher muda o hábito sexual dentro
da cadeia?
-Quais
as verdades e mentiras deste lugar"?
"-Bem,
meu nome é Verônica e tentarei
falar um pouco do que 'eu' fiz, vi e vivi.
A
mulher sempre foi o que é hoje. Não
nos modernizamos completamente e não
aprendemos a fazer tudo o que fazemos hoje
de repente. Sempre soubemos e nunca tivemos
uma oportunidade.
A
sociedade nos posicionava como tolinhas, bobinhas,
covardes e imputava-nos a obrigação
de sermos submissas.
Com
o tempo criamos coragem e resolvemos lutar
de igual para igual, a fim de conquistar um
lugar que era nosso mais que pôr sermos
tolinha, não poderíamos ocupar.
Sempre fomos capazes más a nós
somente era dado o direito de ouvir e de pensar.
Hoje
não a mulher já tem o poder
das palavras e de se manifestar.
Prostitutas
existiam mesmo na época de Cristo.
Mulheres já se vendiam aos monarcas,
já existia o homossexual, tanto de
homens como de mulheres, como existia Sodoma
e Gamorra.
Então
a mulher não se transformou da noite
para o dia...
Nas
experiências que tive, conheci mulheres
que praticaram os mais diversos tipos de crimes.
A
mulher seja ela qual for mesmo as que estiveram
ou ainda vivem no mundo do crime, antes de
pratica-lo, tiveram seus sonhos, pleitearam
formar uma família ajudar seus entes
e muitas vezes frustradas se entregaram. Umas
nos vícios outras no crime, já
outras em fanatismo religioso, enfim...
Eu
tinha uma amiga de cela que realizou seu sonho,
casou-se e teve três filhos, só
que depois dos sonhos vieram os pesadelos.
Casou-se com um traficante e um dia a “casa
caiu...” Ela não era diretamente
do crime, apenas sabia dos atos ilícitos
do marido e aceitava, permitindo que a droga
fosse passada dentro de sua casa. Foi presa
junto com o marido e assinou um “doze”.
{Drogas /Entorpecentes}
Conheci
muitos casos, uns tristes e outros bárbaros.
Têm muita menina que para se livrar
dos problemas de casa, como exemplo, o pai
alcoólatra do tipo que espanca a mãe,
sai de casa e tenta se virar como pode...Quando
dá sorte, se acerta na vida e vira
o orgulho da família. Porém,
quando não se tem a mesma felicidade,
cai na prostituição nas drogas
ou no crime.
No
meu caso foi “foda”, porque eu
tive uma boa formação cheguei
até a faculdade, só que eu não
era cheia da “grana” como os outros
colegas que conviviam comigo.
Daí
um dia “pintou” um “tremendo
lance”, era rolos na minha cabeça
estava “clareando a minha luz”
para tirar “o pé da lama”.
Na
época, eu trabalhava como auxiliar
de enfermagem. Comecei com pequenos roubos,
uma caixa de remédios aqui, outra ali...
A “achava o maior barato” a emoção
do perigo e ainda ganhava um dinheiro extra,’
porque eu conseguia vender o que eu furtava
numa farmácia nas redondezas de casa.
O
“cara” da farmácia sabia
de onde vinham as coisas e comprava assim
mesmo.
Aliás,
coisas roubadas sempre conseguem ser vendidas
para os famosos “receptadores”,
que sabem a origem do produto e pagando um
preço muito mais baixo, comercializam,
a fim de tirar vantagens, pôr isso vira
uma bola de neve.
Bom
lá no hospital em que eu trabalhava,
conheci um “cabrinha”, ele tinha
contatos com uns “gringos” que
compravam crianças e mulheres que poderíamos
dizer, serem rejeitados palas mães
e pela sociedade, foi ai que entrei nessa.
Era dinheiro alto e fácil, na minha
cabeça eu estaria fazendo uma boa ação
e ganhando uma boa grana, toda transação
era feita com a autorização
da própria mãe, que também
levava o dela, e das mulheres, que queriam
sair do Brasil e comercializar seus corpos
se prostituindo, já que alegavam estar
passando fome e não tendo retorno financeiro
à prostituição aqui.
Na
minha cabeça o fato das crianças
e das mulheres, não terem uma vida
digna e um futuro totalmente incerto me tranqüilizava,
tirava qualquer tipo de dor, remorso de consciência.
Só
que um dia uma “puta” que vendeu
um filho, muito doido na “nóia”
querendo comprar um “pico”, resolveu
dar uma de arrependida, queria mais dinheiro,
passando a nos “chantagear” e
como não iríamos “comer
chantagem de ninguém” a “lazarenta”
foi na delegacia e deu queixa de seqüestro,
para piorar ainda fez o nosso retrato falado.
A
“Federal” é “broca”,
pegou agente no ato da entrega, armou a cama
e fez a “fita cair”. Fiquei oito
anos no “fechado” sem poder fazer
nada. Minha família deu assistência,
não me cobraram nada más o silêncio
e a vergonha falou mais alto em mm.
Tem
família que abandona legal, não
querem nem saber, más a minha foi supercem
chegou junto.
Na
hora em que vi as algemas presas em meus braços,
senti tanto medo que até hoje, nem
sei explicar direito o tamanho do sentimento
de inferioridade que me invadiu.
Na
hora que fui para a cela e a noite começou
a dar sinais de que existia, ai meu...Eu chorei...
Chorei tanto...E juro, juro que me arrependi,
pois foi naquele momento que eu descobri que,
um pão com ovo ou até mesmo
um simples pão seco, poderia ser a
refeição mais requintada que
um ser humano poderia ter quando se tem a
liberdade.
Desejei
qualquer coisa menos estar naquele lugar.
Acho
que a minha ambição era grande
mais não o bastante para viver na vida
do crime, eu não tinha a menor condição
de permanecer trancada num lugar daquele,
cavado com as minhas próprias mãos.
Trabalho
dignifica o homem claro que sim e é
bonitos pensar assim e o certo, só
que num País onde as oportunidades
são tão mínimas e as
perspectivas ainda menores, buscar trabalho
para quem ainda não tem, chega a ser
sinônimo de morrer de fome.
Dentro
da cadeia a solidão bate de frente
e ai as coisas começam a “rolar”
na sua cabeça, de uma maneira muito
doida. Tem mulher que sonha dia e noite em
ganhar a liberdade e em voltar para o marido,
amante namorado essas ai...Coitadas! Na maioria
das vezes são “trouxas”.
Pensam que o “cara” está
lá esperando e mal sabem que já
arrumaram mais de mil na rua. Nunca aparecem
para visitar e a pobre infeliz acha que eles
estão na maior ansiedade para vê-las
de volta.
Essas
com certeza se “masturbam” sozinhas.
Existem as mulheres mais “fogosas”,
mais quentes que não conseguem viver
sem uma vida sexual ativa, não se importando
se está “transando com um homem
ou com uma mulher, querem apenas amenizar
a sua vida na cadeia. Não que esta
tenha tendência a ser” lésbica”
mais pôr ser a única maneira
lá dentro da cadeia de sentir carinho
e prazer...
Embora
seja difícil de acreditar más
na cadeia também existem mulheres inocentes,
sabiam?
As
mais espertas vão consolando... Consolando...
Até que um belo dia “crawl”,
elas passam a “lábia” e
as bobinhas caem como “sapas”.
Parece
incrível mais umas que assumem um papel
de proteção tão fiel
que cuidam de suas mulheres melhor que muitos
homens, que se for necessário matam
e morrem pôr elas.
Eu
sempre respeitei todas as minhas companheiras
e fui respeitada, não tive problemas
desta natureza. O meu namorado foi preso comigo,
mais depois de três meses parou de me
escrever não procurei saber noticias,
ouvi apenas alguns boatos e não me
aprofundei, dizem que “rodou na cana”
sei lá, fiquei na minha.
Tive
uma grande amiga, mais tudo no respeito, amiga
de verdade. Havia sido presa pôr estar
num assalto a banco, na “fita”
do assalto ela era o “cavalo”,
que era o carro quente da fuga teve perseguição
na fuga e uma “barca” deu uma
fechada em seu carro e ela trocou tiros com
a polícia, acertando um policial que
morreu na hora.
Tuca
é o nome dela, foi pega e não
teve nenhum tipo de “benefício”,
acertou um funcionário do estado se
deu muito mal.
Está
até hoje no fechado, ”cumprindo
de ponta”.
Jamais
abandonei esta amiga, estou sempre mantendo
contatos, tenho certeza de que quando ela
sair vai seguir a vida nos “conformes”.
Hoje
sofro a discriminação da sociedade
ela existe é real...
As
pessoas não aceitam conviver normalmente
com ex. – presidiárias, na teoria
fala se muito, mais na prática, a credibilidade
não existe. São raras as exceções.
Ah! E digo mais, a mulher é muito mais
discriminada do que o homem.
Hoje
vou me virando vendendo roupas. Isso porque
tenho que agradecer todo a participação
e a força da minha vida a minha família
que me deu condições de recomeçar
e a tentar resgatar minha dignidade.
Na
verdade tudo o que vocês ouvirem contar
de ruim de uma cadeia podem acreditar mais
tudo que for dito de bom tem que ser muito
bem “checado”, porque se o inferno
fosse bom e as passagens pelas cadeias fossem
gratificantes, o Diabo jamais brigaria com
Deus pelo poder do “Céu”.
Não
sei se posso ajudar com o meu relato, porém,
isso é tudo o que eu tenho a dizer
de tudo que fiz e vi na vida do crime.
Fui
condenada a oito anos de prisão no
regime “fechado” por infringir
a Lei em vários Artigos. Entre estes
Art. 231 do Código Penal-'"
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