Um
anjo sonhador, que nos faz sonhar com um utópico
mundo sem fronteiras, sem preconceitos, sem injustiças...
Assim,
no ano de 1910, em São João da Boa
Vista, no Interior de São Paulo, nascia Patrícia
Galvão.
Um
novo estado de espírito, em relação
à realidade brasileira e à liberdade
estética, que culmina com a Semana de Arte
Moderna, revoluciona São Paulo e espalha-se
pelo País, em 1922. Nesta época, Patrícia,
aos 12 anos, ainda embalada pelos sonhos de criança,
segue brincando sem se dar conta de que, em breve,
assumiria um destacado papel dentro do quadro libertário
delineado a partir daquele ano.
Três
anos mais tarde, dava seus primeiros passos como
jornalista, assinando com o pseudônimo de
Patsy seus artigos no Brás Jornal.
Em
1928, transformada em musa pelo lirismo do versos
de Raul Bopp, em Coco, começa a assumir seu
papel. Patrícia vira Pagu (Bopp, equivocadamente,
achava que se chamava Patrícia Goulart).
Pouco tempo depois, apresentada a Oswald de Andrade
e Tarsila do Amaral, aparece freqüentando o
ambiente contestatório do Movimento de Antropofagia.
No
Álbum de Pagu, de 1929, Patrícia faz
uma tentativa de ligar o verbal ao não-verbal
e dedica a obra, repleta de poemas e ilustrações,
à Tarsila. Neste mesmo ano, em uma exposição
de Tarsila, no Rio de Janeiro, fala sobre Seus Sessenta
poemas censurados (como ela mesmo os denominou).
Dedicados ao Dr. Fenolino Amador, diretor da censura,
eles se encontram desaparecidos até hoje.
Para completar, ela participa de um concurso de
miss, organizado por A Gazeta.
ATIVISTA
POLÍTICA - A partir de 1929, quando passa
a viver com Oswald de Andrade, assume de vez a condição
de ativista política. No ano seguinte, ao
lado do companheiro, engaja-se na luta revolucionária,
filiando-se ao Partido Comunista Brasileiro, curiosa
e coincidentemente fundado no mesmo ano da Semana
de Arte Moderna.
No
jornal panfletário O Homem do Povo, editado
por ambos, Pagu assina a coluna feminista A Mulher
do Povo, através da qual critica duramente
o comportamento das elites dirigentes e cobra um
comportamento menos hipócrita e submisso
por parte das mulheres.
Durante a greve dos estivadores, em Santos, é
presa. Pagu transforma-se na primeira mulher a ser
presa por participar da luta revolucionária.
É ela quem levanta em seu colo a cabeça
ensangüentada do estivador Herculano de Souza.
Presa, passa a ocupar o Cárcere 3 da Casa
de Câmara e Cadeia. Lá hoje funciona
a Delegacia Regional da Secretaria de Estado dos
Negócios da Cultura, na Praça dos
Andradas, em Santos. No local, funciona ainda a
Oficina Patrícia Galvão de Arte e
Cultura.
Em 1933, publica Parque Industrial, o primeiro romance
proletário brasileiro, mostrando a necessidade
de levar às mulheres dos operários
uma consciência de classe. Por exigência
do PCB, assina Mara Lobo, mas na edição
norte-americana, publicada em 1993, a obra traz
seu verdadeiro nome.
Percorre
o mundo, trabalhando, estudando (Sorbonne) e participando
de movimentos libertários. É presa
na França onde, além de ligar-se a
militantes políticos, conheceu literatos
como André Breton, o pai do surrealismo.
TORTURADA
- Repatriada ao Brasil, fica na cadeia de 35 a 40,
sofrendo torturas, bem como perseguições
dos próprios companheiros de partido. Sua
postura anárquica choca-se de frente como
a rígida disciplina partidária do
PCB, sob uma orientação stalinista.
Durante
sua permanência na Casa de Detenção
começa a ligação afetiva com
Geraldo Ferraz.
Em
liberdade, une-se a Geraldo Ferraz. Volta a escrever
e ao lado do novo companheiro participa do grupo
que registra a Vanguarda Socialista.
No ano de 1945, publica seu segundo romance, A Famosa
Revista, no qual denuncia os males de um partido
(PCB) monolítico. De 46 a 48, passa a escrever
no suplemento literário de O Diário
de São Paulo.
Ao mesmo tempo em que lança o histórico
manifesto Verdade e Liberdade, concorre a uma cadeira
à Assembléia Legislativa de São
Paulo, pelo Partido Socialista Brasileiro, em 1950.
Não consegue se eleger.
Em 1953, passa a escrever em A Tribuna críticas
literárias, teatrais e até mesmo notas
sobre televisão com o título de "Viu?
Viu? Viu?" que ela assinava Gim.
A
partir daí nasce o interesse pelo teatro.
Freqüenta a Escola de Arte Dramática
e tem uma ligação grande com Alfredo
Mesquita e Paschoal Carlos Magno.
O
ano de 59 é marcado pela estréia da
peça Fando e Lis, considerada a estréia
mundial de Arrabal, sob sua direção
e de Paulo Lara. No ano seguinte, dirige A Filha
de Rapaccini, de Octavio Paz.
Em
12 de dezembro de 1962, às 16 horas, em sua
casa, na Avenida Washington Luiz, 64, morre, vítima
de câncer. Três dias depois, Geraldo
publica em A Tribuna o artigo "Patrícia
Galvão, Militante do Ideal", assinando
apenas - o redator de plantão.
De
29 a 62, Patrícia divulgou, através
de suas colunas de jornal, grandes nomes da vanguarda,
na maioria das vezes desconhecidos no Brasil e até
no restante do mundo.
Patrícia
deixou dois filhos: Rudá de Andrade (de sua
união com Oswald) e Geraldo Galvão
Ferraz (filho de Geraldo).
Fonte
parcial do texto acima:- http://sites.unisanta.br/pagu/navegador.htm
Grandes Mulheres Brasileiras
PAGU:
VIDA-OBRA, OBRAVIDA, VIDA
Antonio Risério
http://www.aleitamento.org.br/meninas/pagu.htm
Aí
está. Em reconstituição precária
e provisória, este é o percurso de
Pagu.
Muitas passagens de sua vida ainda são obscuras
para nós (tentativa de suicídio etc.).
Quando ela morreu em 1962, devorada pelo câncer,
novos elementos de efervescência cultural
e política já ocupavam o cenário
brasileiro. É o tempo de Brasília,
bossa-nova, cinema novo, poesia concreta, Guimarães
Rosa, Arraes, Brizola, Ligas Camponesas etc. Pagu,
em Santos, na casa da família, pedia a alguém
que lhe desabotoasse a gola e partia. Como defini-la?
A tentação é escrever que,
no seu caso, vida e obra foram inseparáveis.
Evitemos, entretanto, o clichê. O que interessa
em Pagu (exemplo de “honestidade ideológica”
e “dignidade pessoal”, segundo Octávio
de Faria) não é esta ou aquela obra
particular. Muito menos um conjunto de obra. Nem
tudo o que ela escreveu tem importância, embora
coisas como o Álbum, a crítica ao
Congresso de Poesia e Parque Industrial sejam trabalhos
de real interesse. Pagu vale e conta enquanto trajetória
– vida-obra, obravida, vida – de uma
idéia-sentimento, como disse Drummond. Esta
peripécia política, poética
e existencial é que faz dela uma figura fascinante.
Em
sua entrevista de 1929à revista Para Todos,
relacionando coisas de sua admiração,
Pagu se referiu aos cangaceiros nordestinos e à
pintura de Tarsila. A referência é
reveladora. Pagu encontra-se em algum lugar entre
Tarsila e Maria Bonita. Tarsila revolucionou a linguagem
plástica dos alegres tristes trópicos,
realizando, na definição precisa de
Haroldo de Campos, “uma leitura estrutural
da visualidade brasileira”. A diferença
é que Pagu, experimentando em várias
frentes, não deixou, em termos estéticos,
contribuição comparável à
de Tarsila. Mas, a uni-las, está a mesma
disposição contestadora no campo da
criação artística. No caso
de Pagu, coisa rara: vivemos num país em
que os revolucionários em política
são invariavelmente reacionários em
arte. Maria Bonita, por sua vez, participou de escaramuças
na caatinga, ao lado de Corisco e lampião.
Pagu, à sua maneira, também experimentou
o engajamento decidido em ações práticas.
A diferença é que a primeira, ligada
ao banditismo social nordestino, movia-se numa esfera
“pré-política”(Hobsbawn).
A segunda, ao contrário, foi uma revolucionária
urbana e culta. Viveu intensamente os grandes debates
de sua época. E aparece, a nossos olhos,
como a imagem da nova mulher brasileira. Sensível,
politizada, desreprimida. Em seus filmes, Bergman,
pastor às avessas, condena o intelectualismo
como uma das fontes da frustração
amorosa. Em O Silêncio, por exemplo, a intelectualizada
Esther vive vida solitária, regada a livros
e álcool. Pagu me aparece a oposto da personagem
bergmaniana, que não suportava o cheiro forte
dos genitais masculinos. Desde estudante, escandalizava
o provincianismo paulista com atitudes ousadas –
soltava papagaio e voltava pra casa sem batom, ela
resume, adolescente ainda. Declara ser a mulher
mais bonita do Brasil depois de Tarsila. E não
parece ter mudado ao longo de sua vida. Insuportável
é que uma nuvem de fumaça ainda envolva
a figura desta mulher que, escolhendo o caminho
da atuação transformadora do real
histórico, se recusou a limitar-se à
rotina dos chamados “serviços domésticos”
(higiênicos, culinários e sexuais).
Esta situação, de resto, talvez seja
explicável pela própria vida política
de Pagu, cujas “heresias” são
imperdoáveis do ponto de vista intolerante
do establishment contestador. Sabendo que este silêncio
repressor é culturalmente desastroso, é
hora de fazer uma algazarra e espantar os urubus.
Mas nada de homenagens póstumas. Deixemos
isso para os literatti ávidos de comemorações
acadêmicas. O que conta é a homenagem
viva. A que reconhece as implicações
políticas, estéticas e culturais de
uma vida militante. Porque Pagu foi revolucionária
na arte, na política e na prática
da vida.
(Trecho
do livro "PAGU VIDA-OBRA" de Augusto dos
Campos. Editora Brasiliense.)