| Aquele
episódio nunca mais saiu da minha memória.
O celerado enfiou uma peixeira no olho da
companheira, quebrou o cabo e deixou a lâmina
enfiada.
Faltaram
2 ou 3 milímetro para atingir o cérebro.
A cirurgia só demorou por causa da
força que tivemos de fazer para desenterrar
a lâmina da cavidade orbicular. Naturalmente
a desgraçada perdeu o olho. Quase perdeu
a vida! Este episódio me marcou muito
em virtude de haver sido o primeiro que testemunhei,
todavia há coisas bem piores.
Já
assisti ao pré-natal e ao parto de
meia dúzia de menores cujos filhos,
o pai e o avô eram a mesma pessoa! Mulheres
esfaqueadas até à morte ou muito
próximo dela por “companheiros”
embriagados.
A
incidência de SIDA/AIDS entre as “Evas”
está aumentando assustadoramente, mesmo
naquelas com parceiros fixos. Elas ignoram
a bissexualidade deles. A natureza parece
ser um pouco mais madrasta com elas do que
com os homens. Como a vagina é o receptáculo
natural do sêmen, este ao permanecer
aí durante mais tempo, favorece as
infecções. Não pensem
que isto só se verifica entre as pobrezinhas
do SUS. Já tenho vários casos
em minha clínica particular.
Mulheres
fiéis e que confiam cegamente nos maridos.
Para agradar-lhes, aceitam não usar
preservativos - a maneira mais segura - se
não a única, de evitar a doença.
Isto para não falar dos dramas da alma
que pouquíssimas têm coragem
de revelar: estupros (sim, há estupros
entre casais constituídos); perversões
sexuais que elas são obrigadas a praticar
por medo de reações violentas;
abortamentos forçados; truculências
inauditas. Garanto que vejo isto quase todos
os dias, só não divulgo os nomes
das vítimas porque o Código
de Ética Médica me proíbe.

Estou
falando aqui do que eu próprio observo.
Mas não há como negar as condições
humilhantes a que as mulheres estão
sujeitas em determinadas regiões do
planeta. Aquele filme “Nunca Sem Minha
Filha” tem tudo para ser baseado em
fatos reais. Há certos países
que praticam a retirada cirúrgica dos
clitóris de suas meninas a fim de evitarem
que elas possam vir a desfrutar de algum prazer
sexual no futuro.
Ouço
comentários bem procedentes de abortamentos
praticados logo que é diagnosticado
o sexo feminino ainda no útero materno,
porque o governo limita o número da
prole dos casais, e como estes - geralmente
o lado masculino procriador - preferem os
machos...que se assassinem as menininhas.
Acho
a Internet um excelente meio de denunciar
estes absurdos. E quanto a mim, pouco estou
me preocupando se o “site” é
específico para viagens, fitness, jornais,
rádios, revistas, pornografia, salas
de bate-papo (inclusive aquelas destinadas
às transas virtuais) ou o sexo dos
anjos. Enquanto minha consciência inquietar-me.
Enquanto as náuseas que sinto quando
vejo injustiças praticadas contra mulheres
me incomodarem, não hesitarei: porei
a “boca no trombone”.
Não
nego que elas avançaram muito - a custa
de heróicas lutas - em suas conquistas
por uma vida menos indigna, mas penso que
ainda faltam muitas léguas a serem
palmilhadas antes de merecerem comemorações.
Aliás, penso que quando chegarmos lá,
as homenagens deveriam ser diárias,
contínuas, permanentes. E não
apenas num único dia do ano!
Como
fazem no Dia Internacional de que??? -Da mulher?
Dr. Raymundo Silveira
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