Por
que voltar um trabalho de voluntariado para os Presídios?
-Por que é importante que o Projeto zaP! atue juntamente
com o sistema para Reabilitar e Ressocializar?
Porque
Ressocializar uma pessoa
não é apenas
falar para ela que ela
errou, ressocializar não
é trancafia-la
em uma cela. Ressocializar
é mostrar como
teria sido bom se ela
tivesse feito o bem, reabilitar
é educar, ensinar
e buscar as razões
que levaram a transgressão,
ressocializar é
dar um novo caminho, mostrar
uma nova direção.
Um
ser só conseguira se ressocializar, se existir pessoas
DISPOSTAS a atuar. Todo mundo fala que lugar de bandido é
na cadeia e que o sistema é falido, agora difícil
são os que vão até esta cadeia, ver as
dificuldades...
-Como e de quem o Projeto zaP! conquistou credibilidade?
Pela
seriedade e a responsabilidade com que o Projeto é efetuado,
ganhou a credibilidade das Diretorias de Educação,
Reabilitação, Interdisciplinar, Geral, das reeducandas
e de grande parte da sociedade.
-O
Projeto zaP! ou suas idealizadoras já passaram por alguma
discriminação por estarem atuando com criminosas?
Sim
e Muito! Pois há quem diga que parecemos estar do lado
da “bandidagem” e não das “vítimas”.
O
que algumas pessoas da sociedade precisam entender é
que:
Trabalhos
voluntários voltados para o cárcere não
é uma forma de apoiar o crime, mas sim uma forma de lutar
contra esta realidade que vem crescendo assustadoramente.
O
tráfico de drogas e armas, roubos, assaltos, homicídios,
violência sexual, violência doméstica, agressões,
corrupção de menores, latrocínios, enfim
as barbáries tem que acabar; temos que dar um basta nesta
situação.
Nós
também já fomos vítimas desta violência
que tanto assola o país; mas ao invés de nos revoltarmos
e virarmos as costas para um problema que também é
nosso, arregaçamos as mangas e fomos ao trabalho de reabilitação.
-Vocês
já foram questionadas do por que atuarem com encarceradas?
O
questionamento é intenso e acaba nos tocando diretamente.Só
no sistema prisional feminino atuamos há 06 anos e conhecemos
os cárceres masculinos, femininos e as instituições
que abrigam menores infratores, sempre tentando contribuir com
a sociedade, doando nosso tempo, promovendo projetos, entregando
sentimentos, tentando colaborar para encontrar soluções
para a diminuição da criminalidade a nível
nacional, pois o Brasil, não esta restrito apenas em
São Paulo, mesmo sendo o Estado que abriga praticamente
50% da população carcerária Feminina, pois
o problema vai muito além....
Lutamos
e mesmo que seja em longo prazo, atuamos para que pelo menos
as nossas futuras gerações não passem esta
lamentável intranqüilidade que famílias inteiras
infelizmente estão passando com tanta violência.
-Vocês
são radicalmente contra quando a Mídia fala mal
das Mulheres encarceradas por que?
O
tema é extenso, de nada adianta apenas relatar casos
insistentemente e permitir que essas mulheres sejam julgadas
novamente por reportagens sensacionalistas ou trabalhos literários
que procuram reviver, enfatizar ou até mesmo criar de
forma exagerada uma situação inverídica
ou que já foi pelas leis, e pela própria consciência
de nossas reeducandas, julgada. Muitos gostam de generalizar
e dizer que as MULHERES gostam de transgredir e delinqüem
por puro PRAZER, do nosso ponto de vista é inaceitável
tal afirmação pois, descredibiliza os VOLUNTÁRIOS
e PROFISSIONAIS QUE ATUAM diretamente nos cárceres para
a Reabilitação.
Há
casos de insanidade realmente, mas “usar” estas
mulheres como “fonte de renda” ou afirmar (como
várias vezes ocorreu) que “as desequilibradas mentais”
SÃO MISTURADAS com as demais e que RESSOCIALIZAÇÃO
não existe, é dilacerar vidas, é impedir
o resgate da identidade social e o pior é SUBTRAIR DESSAS
MULHERES O DIREITO DE receber DA SOCIEDADE UMA NOVA CHANCE.
Colocar
a imagem de uma apenada de forma indevida, expor meninas que
ainda com seus 20/22/60 anos podem mudar o rumo de suas vidas
e abusar do sensacionalismo, é por via de regra, apenas
uma forma de se atirar ainda mais essas mulheres ao abismo e
levar ao total desanimo os que verdadeiramente BUSCAM AJUDAR,
UMA VEZ QUE nos cárceres existem todos os tipos de pessoas.
Distorcer a imagem de trabalhos sérios NÃO É
AJUDAR, e sim criar manchetes que “pingam sangue”.
São
muitos os problemas, e estes vão além das manchetes
das grades e portas de Aço, isso ninguém fala!
-Mas
o Projeto zaP! tem uma Revista e um Jornal On Line, e vocês
falam das Encarceradas para o Público, sem falar no Livro
Presídio de Mulheres, isso é correto já
que vocês são contra a exposição?
Conhecemos
o sistema prisional e os que nele vivem e, não estamos
aqui para julgar nada, postura que mantemos desde 1998, já
com a Obra Literário Presídio de Mulheres praticamente
pronta, pensávamos como apresentaríamos os nossos
trabalhos sem manifestar opiniões pessoais, nem expor
as protagonistas da obra, no entanto,
mostramos
a VERDADEIRA REALIDADE
DE MUITAS, sem identifica-las,
isso no Livro, agora quanto
aos eventos do zaP! Procuramos
mostrar o lado positivo
dos trabalhos efetuados
dentro do sistema e a
reciprocidade e empenho
de nossas meninas, não
os Mitos criados ou sensacionalismos,
pois temos uma grande
preocupação,
deixar claro que ninguém
tem o direito de rotular
ninguém e quando
se fala de mulheres e
criminalidades, não
falamos por três
mil reeducandas e sim
por aproximadamente Vinte
e oito Mil Mulheres, que
praticamente hoje vivem
nos cárceres Brasileiros.
Não
expomos essas Mulheres, principalmente de forma pejorativa e
NÃO acreditamos que ao relatar barbáries, muitas
fantasiadas pela mente inspirada de escritores, possamos estar
mudando um triste quadro.
Falamos
de nossas meninas e mostramos sim, o que ninguém gosta
de falar ou mostrar que é o resultado dos trabalhos efetuados,
mas com cuidado, sem desrespeitar principalmente os familiares
e filhos de quem se encontra preso. Expor uma pessoa esquecendo
que ela não é PRESA e sim se encontra na condição
de presa, pode ser um percurso que retire de muitas, a esperança...Entre
cartas, relatos, documentos, gravações, confissões,
descobrimos que no cárcere existem MULHERES que pedem
apenas para serem ouvidas, que querem algo que lhes fora tirado
e que NINGUÉM tem o direito de banalizar, pois não
podemos ver e ouvir apenas aquilo que nos faz bem, nem tão
pouco partir pro lado apelativo e arregaçar feridas principalmente
de vítimas que sofrem até hoje as seqüelas
de casos extremos.
Quando
ocorre um crime hediondo choramos sim...e muito! Assim como
sofremos e também permitimos que a tristeza desabe de
nossos corações, quando nos deparamos com meninas
que sabemos que são frutos da violência doméstica,
moças que refletem o mal gerado das drogas e histórias
de MULHERES, que numa total inversão de papéis,
ao invés de serem as vítimas, pois estas sim eram
as verdadeiras, passaram a posição de réus.
E se prestarem atenção perceberão que o
nosso papel também é lutar por vítimas
que de certo deixaram aqui neste mundo vil e nefasto, (quando
o caso é de vítima fatal); filhos, pais, irmãos
enfim, pessoas que amaram e continuaram a amar eternamente.
Mas
como dizer isso a uma pessoa que já sabe que irá
sair do cárcere descriminado por uma sociedade que grita
por paz, pelo fim da violência mais que na verdade, aponta
marginaliza e imputa-lhe uma nova pena?
Parecer
sobre Presídios
de Mulheres
Tivemos
a oportunidade de conhecer inúmeras pessoas, umas completamente
realizadas com o rumo que suas vidas tomaram, outras portadoras
de infelicidades indescritíveis, muitas donas de dores,
vergonhas, traumas e remorsos irrecuperáveis e irreversíveis.
A cabeça do “ser humano” é complicada,
cada um tem uma forma diferente de analisar um fato ou de sobreviver
a uma circunstancia, porém no geral, em determinadas
situações quase todo mundo é igual.
Descrever alternativas para acabar com a violência é
fácil, difícil mesmo é entender os motivos
e circunstâncias que levam uma pessoa a cometê-la
e coibir definitivamente o ato.
Pôr mais difícil que seja abordar naturalmente
este assunto, ele necessita estar constantemente em evidência,
pois a violência é real e fruto de um meio social
que atinge a todos.
Neste trabalho, conseguimos penetrar nas mais diferentes mentes
de um contexto cruel, cada história, cada crime, cada
pessoa se mostrou de uma maneira diferente.
A maioria das mulheres que conversamos, foram incentivadas entre
tantos motivos, pelo amor doentio; algumas delinqüiram
pôr conveniência, ganância ou até mesmo
pôr necessidades financeiras prevendo que um ato ilícito
seria a solução para muitos problemas sem nem
vislumbrar o precipício em que estariam se atirando.
Deixamos de narrar algumas histórias que ouvimos, pôr
achar que seria um desrespeito muito grande com seres humanos
que certamente foram às vítimas destas histórias
podendo notoriamente ao ler o relato identificar o fato á
pessoa.
Aprendemos muitas coisas que, são totalmente alheias
ao mundo fora das grades, descobrimos que cigarros, selos de
carta e até mesmo um bife, podem ser motivos que levem
alguém a morte.
Mergulhamos em um universo onde a precariedade, a escassez,
a falta de perspectivas, o desamor, a violência e o abandono
são latentes.
Algumas mulheres parecem não esquecer pôr nenhum
segundo o momento da prisão, e sem conseguir disfarçar,
arrependidas lamentam profundamente pêlos erros cometidos.